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Singapura, onde os ricaços são bem-vindos

Sergey Brin, do Google, é o mais recente bilionário a levar sua fortuna para a ilha que está tomando o lugar de Hong Kong como centro financeiro regional

Por Amanda Péchy Atualizado em 12 mar 2021, 10h56 - Publicado em 12 mar 2021, 06h00

Enquanto Hong Kong esperneia para se livrar das amarras impostas com empenho cada vez maior pela China, outra pequena ilha do Oriente muda leis e cria novos instrumentos para — discretamente, como é de seu feitio — ocupar a posição de centro financeiro da região. Em Singapura, a ilha-Estado de 5,7 milhões de habitantes, a maior fatia do PIB já é proveniente de serviços financeiros e seguros. No fim de 2020, mais um passo foi dado na sua escalada para o topo quando Sergey Brin, cofundador do Google e nona pessoa mais rica do mundo, abriu lá uma filial da Bayshore, a empresa que criou para administrar seu patrimônio de 87 bilhões de dólares. Family offices, nome do negócio de cuidar da vida e da riqueza dos super-ricos, são justamente um dos carros-chefe da constelação financeira em constante expansão em Singapura: o país concentra atualmente 200 deles, cada um responsável, segundo dados do próprio governo, pela administração de uma média de 100 milhões de dólares — um ramo de atividade que quintuplicou de tamanho entre 2017 e 2019.

Os principais motivos para a ilha atrair as empresas que cuidam de grandes fortunas são a baixa tributação, a estabilidade política e a facilidade em obter status de residente. A direção tomada por Brin já havia sido desbravada, entre outros, pelo americano Ray Dalio, chefão do fundo de investimentos Bridgewater, um dos maiores do mundo, pelo empresário britânico James Dyson, designer de eletrodomésticos moderninhos, por Binny Bansal, criador do gigante indiano de e-commerce Flipkar, e pelo brasileiro Eduardo Saverin, que fundou o Facebook junto com Mark Zuckerberg. Bansal e Saverin, inclusive, se mudaram para Singapura, onde hoje se dedicam a financiar startups promissoras — outro relevante nicho de negócios na ilha.

De olho nos investimentos e empregos gerados pela entrada de capital estrangeiro, o governo criou todo um aparato para facilitar a vida dos milionários e dos gestores de suas fortunas. No Índice de Sigilo Financeiro, ocupa o quinto lugar em garantias de confidencialidade nos negócios. Para as empresas que administram finanças, como os family offices, a alíquota de imposto corporativo não ultrapassa 17%, e o patamar máximo de imposto de renda pessoal é de 22%. Outras nações têm sistemas tributários mais favoráveis — em Bermudas, Bahamas e Bahrein, o imposto de renda é zero —, mas nos critérios de comparação Singapura sai na frente em duas áreas cruciais. Uma delas é a estabilidade, amparada em um modelo político autoritário e rigoroso no cumprimento das leis. Outra é a honestidade: o índice da Transparência Internacional coloca a ilha em quarto lugar entre os países menos corruptos do mundo. “Ao contrário do que ocorre nos paraísos fiscais, o dinheiro que entra em Singapura tem procedência clara e comprovada e desfruta da certeza de que não será desviado”, afirma Silvana Hleap, brasileira radicada lá, que faz parte da direção de um family office e viu a demanda por seus serviços quase duplicar em dez anos.

Arte Singapura

Nas décadas após a independência, em 1962, a ex-colônia britânica, controlada com mão de ferro por Lee Kuan Yew, primeiro-ministro adepto da economia aberta e da política e da sociedade sob limites estritos, passou rapidamente do terceiro para o primeiro mundo. Lee Kwan morreu em 2015, motivo de luto nacional de uma semana, e o cargo é ocupado desde 2004 por seu filho mais velho, Lee Hsien Loong. Um dos celebrados Tigres Asiáticos, o país ostenta renda per capita de 65 000 dólares, igual à dos Estados Unidos. Além de se notabilizar pelo desenvolvimento de indústrias de alta tecnologia, também se destacou pela valorização da educação e, nos últimos tempos, multiplicou o incentivo para a formação de profissionais da área financeira que possam integrar a força de trabalho das empresas vindas de fora. “A integração estrangeira foi essencial para Singapura se tornar um centro de influência regional”, diz Andrew Delios, autor do livro Negócios Internacionais: Uma Perspectiva da Ásia-Pacífico.

Outro fator que tem empurrado o país para a liderança em negócios financeiros na região é o fato de seu maior rival, Hong Kong, sede dos escritórios regionais de 9 000 bancos e companhias estrangeiras, estar rapidamente perdendo a semiautonomia que desfrutava desde que o Reino Unido devolveu o território à China e sendo engolido pelo dragão chinês. Na lista das dez economias mais abertas do mundo, compilada pela americana The Heritage Foundation, Singapura ocupa este ano, pela segunda vez, o primeiro lugar disparado. Já Hong Kong, detentor da posição em 25 dos 26 anos de existência do ranking, em 2021 foi removido do rol, por se considerar que não mais atende aos requisitos de confiança e liberdade de ação. “A incerteza política atual dá a Singapura potencial para ser a capital financeira da Ásia, senão do mundo”, acredita Kenneth Huang, professor de administração na Universidade Nacional — graças, em parte, aos bilionários que lá fincam raízes físicas ou financeiras. Na contramão de boa parte do mundo, na Pérola da Ásia, como a ilha é chamada, os super-ricos são vistos não como um obstáculo, mas como motor para a prosperidade geral.

Publicado em VEJA de 17 de março de 2021, edição nº 2729

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