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Sempre dá para vigiar mais

Na Arábia Saudita, onde as mulheres não têm autonomia, aplicativo avisa a pais e maridos quando elas vão viajar, cortando uma de suas raras chances de fuga

Em pleno século XXI, a população feminina da Arábia Saudita, um dos países mais ricos e poderosos do mundo, é mantida sob o sistema de tutela: o pai, o marido, o irmão e até o filho detêm a palavra final sobre a maioria das escolhas e das atitudes das mulheres da família. Em junho do ano passado, elas obtiveram uma rara conquista — o direito de dirigir automóvel. A medida seria resultado de uma onda modernizadora impulsionada pelo príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, que também patrocinou a volta dos cinemas ao país. A imagem de líder dos novos tempos que MBS, como é chamado, tentou cultivar foi irremediavelmente manchada pelos fortes indícios de que tenha mandado matar e esquartejar um desafeto político, o jornalista Jamal Khashoggi. Da mesma forma, o sopro de liberação feminina — ainda que controlada e gradual — perdeu alento rapidamente. As mulheres sauditas seguem como sempre estiveram: sem vontade própria. Agora, cerceadas também pela tecnologia.

No centro da polêmica está o aplicativo Absher (“sim, senhor”, em árabe), com mais de 11 milhões de usuários. Trata-se de uma ferramenta que permite aos sauditas cortar caminho no cipoal burocrático, facilitando o pagamento de multas de trânsito, a renovação da carteira de habilitação, a obtenção de documento de identidade e a papelada das viagens internacionais — uma espécie de Poupatempo eletrônico. É justamente no turismo que o Absher trabalha em favor dos homens. O app, produzido pelo Ministério do Interior, permite aos pais e maridos adicionar seus dependentes e optar por receber uma mensagem no celular sempre que um deles (ou uma delas, os alvos principais da vigilância) estiver se preparando para viajar. Dali mesmo, é possível digitar a negativa de autorização para o embarque.

Ao ser exposto pela imprensa internacional, o Absher foi alvo de protestos vindos de toda parte. Um grupo de congressistas americanos enviou carta ao Google e à Apple em que pedia que o aplicativo fosse removido de suas lojas virtuais, pois “as inovações do século XXI não devem perpetuar a tirania do século XVI”. Nada feito. As empresas não viram nele nada que infringisse suas regras, e o Absher continua disponível para ser baixado. Com isso, complicou-se uma rota de fuga popular para as sauditas com recursos — a cada ano, cerca de 1 000 tentam burlar a vigilância e pedir asilo em outro país, como fez no início de 2019 Rahaf Mohammed, a jovem de 18 anos que fugiu, enfurnou-se em um quarto de hotel na Tailândia e de lá disparou vídeos em que solicitava ajuda para não ser extraditada, pois corria “risco de vida”. Por fim, o Canadá a acolheu.

A dominação masculina na Arábia Saudita estende-se a todas as áreas. As mulheres dependem da permissão para casar-se, estudar fora, sair da prisão depois de cum­prir pena e receber alguns cuidados médicos. “Sob as leis de tutela, elas são tratadas como crianças”, diz a cientista política Bessma Momani, da Universidade de Waterloo, no Canadá. “Tudo lhes é limitado: a mobilidade, a inserção no mercado de trabalho, as escolhas da vida pessoal.” Quem reclama sofre dura repressão. Ativistas dos movimentos feministas passam temporadas na prisão, sem julgamento — no começo de abril, oito manifestantes foram detidos, entre os quais dois americanos. Também são vítimas frequentes do sistema os homossexuais e, desde que a Arábia Saudita se envolveu com mais vigor nos conflitos regionais, as pessoas suspeitas de aliar-se com os inimigos. No mesmo mês, 37 foram executados por “terrorismo” — um deles, crucificado. Agora é Murtaja Qureiris que se encontra na fila da pena de morte. Ele completou 18 anos e está preso desde os 13 por um “crime” cometido aos 10: participar de uma passeata contra o regime. Com ou sem MBS, modernização é conceito que passa longe da Arábia Saudita.

Publicado em VEJA de 19 de junho de 2019, edição nº 2639

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