Rússia freia otimismo antes de negociar cessar-fogo: ‘Não espere milagre’
Nova rodada de conversas diretas entre Moscou e Kiev foi marcada para quarta-feira, 23, em Istambul
A Rússia freou o otimismo com a retomada de negociações para encerrar a guerra na Ucrânia ao declarar nesta terça-feira, 22, véspera da terceira rodada de conversas diretas entre os dois países, que não há motivo para esperar “milagres” no encontro. Um dia antes, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, confirmou o encontro em Istambul, destacando que os principais pontos da agenda, por parte de Kiev, são a troca de prisioneiros de guerra, o retorno de crianças “sequestradas” por Moscou e a preparação de uma possível reunião com seu homólogo russo, Vladimir Putin.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que a pauta é “complicada” e que “não há razão para esperar avanços milagrosos”. Ele também se recusou a estipular, durante coletiva de imprensa, qualquer prazo para um possível acordo que ponha fim à guerra da Ucrânia, que já dura mais de três anos e meio.
“Não há razão para esperar avanços na categoria de milagres – é quase impossível na situação atual”, declarou Peskov. “Pretendemos perseguir e garantir nossos interesses e cumprir as tarefas que nos propusemos desde o início.”
Ele também afastou a ideia de uma negociação direta entre Putin e Zelensky no futuro próximo. “Há muito trabalho a ser feito antes que possamos discutir a possibilidade de algumas reuniões de alto nível”, disse.
Posições “diametralmente opostas”
Na segunda-feira 21, o porta-voz já havia dito que Rússia e Ucrânia “têm muito trabalho a fazer” por terem posições “diametralmente opostas” em relação às condições para um cessar-fogo, detalhadas em documentos durante a segunda rodada de negociações diretas, no início de junho.
De um lado, Moscou exige a anexação de áreas ocupadas por suas forças, o que corresponde a cerca de 20% do território ucraniano, o desmantelamento do Exército e proibição do rival ter armas nucleares, bem como a promessa de que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar ocidental que Putin vê como ameaça existencial, não se expandiria mais em direção ao Oriente. A Ucrânia e seus aliados consideram as demandas inaceitáveis, e as veem essencialmente como uma rendição.
Já Kiev pede a retirada das Forças Armadas russas de seu território, defende manter seu direito de ingressar na Otan e quer garantias de segurança para impedir futuras ameaças russas, como o fornecimento de armas e a criação de uma força europeia pacificadora no país. O Kremlin rejeitou todos os termos, e considera “linhas vermelhas” as questões da Otan e a presença de soldados do Ocidente na Ucrânia.
Além disso, Putin tem reiterado repetidamente sua posição de não reconhecer Zelensky como líder legítimo da Ucrânia, argumentando que ele ultrapassou o mandato constitucional e segue no poder sob lei marcial, sem convocar eleições.
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A nova rodada de diálogo ocorre em meio ao aumento da pressão internacional. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou impor novas sanções à Rússia e a países que mantiverem relações comerciais com Moscou caso não haja progresso nas negociações dentro de um prazo de 50 dias.
As duas últimas reuniões entre os países aconteceram em Istambul, nos dias 16 de maio e 2 de junho, e levaram à troca de milhares de prisioneiros de guerra e dos restos mortais de soldados mortos. No entanto, nenhuma proposta efetiva de cessar-fogo ou acordo de paz avançou desde então.
Nova onda de ataques
Em meio aos possíveis avanços diplomáticos, uma nova onda de drones russos atingiu a Ucrânia na madrugada desta terça. O Ministério das Relações Exteriores do país relatou pelo menos uma dúzia de feridos por 42 drones lançados durante a noite, horas depois de os dois países concordarem com a nova rodada de negociações de paz em Istambul na quarta-feira.
Alguns dos projéteis atingiram um prédio residencial em Kramatorsk, na região de Donetsk, e outros locais nas cidades de Sloviansk, Sumy e Odessa.
“Mais uma noite de terror russo”, disse o ministério. “A Rússia precisa ser detida com mais pressão e sanções mais severas. Sem uma ação decisiva, os ataques contra civis só continuarão.”
Nas últimas semanas, os russos intensificaram seus ataques com drones e mísseis em território ucraniano, atingindo diferentes cidades e fazendo números recordes de vítimas. Em junho, um relatório das Nações Unidas revelou que 986 civis foram mortos e 4.807 ficaram feridos entre dezembro de 2024 e maio de 2025 — um aumento de 37% em comparação ao mesmo período no ano anterior.






