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Ruim pra cachorro

O Parlamento britânico não encontra solução para o divórcio da União Europeia

O drama do Reino Unido para pôr em prática o Brexit, como é chamado o divórcio da União Europeia aprovado em plebiscito em 2016, está ganhando proporções de romance de Charles Dickens. Depois de meses de conversas, até ficar rouca e se equilibrar no cai não cai, na quarta 27 a primeira-ministra Theresa May jogou a cartada final: se o plano de retirada que combinou com os líderes da União Europeia for aprovado pelo Parlamento britânico — que já o rejeitou duas vezes —, ela renunciará e sairá de cena. Seria um argumento forte se as bancadas de Westminster conseguissem chegar a algum consenso. Mas não conseguem. Na mesma quarta-feira, os parlamentares votaram nada menos que oito alternativas ao plano de May. Sabiam que nenhuma seria aprovada, mas queriam medir o tamanho do apoio a cada uma. E nenhuma esteve perto de reunir uma maioria de votos.

Marcado para 29 de março, o divórcio foi adiado para 12 de abril, se não houver acordo, ou 22 de maio, se o Parlamento aprovar alguma proposta, que ainda precisará de um tempinho para ser arredondada. Enquanto o dia D não chega, May e o Parlamento fazem manobras com tintas de desespero, cada um no seu quadrado — sendo o dos parlamentares um tabuleiro de xadrez. Eles têm a intenção de pôr outra vez em votação as duas alternativas que acabaram em quase empate, um novo referendo (tema de uma enorme manifestação de rua no fim de semana em Londres) e uma separação mantendo a união aduaneira atual, na esperança de uma delas aparecer claramente como a preferida da casa. Neste caso, o Parlamento estaria tomando as rédeas da decisão, revertendo o secular processo em que o primeiro-ministro propõe e a Câmara aprova ou não, e a UE poderia ver aí uma saída para o impasse e adiar por alguns meses o prazo final.

DE SAÍDA - May: ela promete renunciar se houver acordo

DE SAÍDA - May: ela promete renunciar se houver acordo (Toby Melville/Reuters)

May, por sua vez, tenta convencer conservadores, trabalhistas, independentes, o que for, de que, com a aprovação de seu plano e sua saída, o novo primeiro-ministro entrará com força para renegociar pontos polêmicos. Candidatos não faltam para se mudar para o nº 10 da Downing Street, entre eles Jeremy Hunt, ministro das Relações Exteriores, Michael Gove, que concorreu com a premiê pela liderança do Partido Conservador em 2016, e o sempre descabelado Boris Johnson, eurocético de carteirinha que lhe faz oposição cerrada. “A inabilidade de May para manter a disciplina entre os conservadores arruinou sua autoridade, provavelmente de forma fatal”, diz Kevork Oskanian, professor de ciências políticas da Universidade de Birmingham.

O maior temor de todos, com exceção dos defensores de raiz do Brexit, é a separação “dura”, sem acordo nenhum, com vastos prejuízos para ambas as partes. O Reino Unido tem a segunda maior economia europeia e destina 43% de seus produtos aos vizinhos do continente. Um estudo da fundação Bertelsmann Stiftung, da Alemanha, calcula que, na falta de acordo, as perdas comerciais dos britânicos chegarão a 57 bilhões de euros por ano em um primeiro momento. A União Europeia pós-Brexit também sentirá o tremendo impacto de deixar de arrecadar 40 bilhões por ano, segundo o estudo. Sem falar no efeito da saída “dura” sobre o contrato de trabalho de 3,7 milhões de europeus residentes no Reino Unido e de 1,3 milhão de britânicos que vivem nos países da UE — estes terão de tirar até nova carteira de motorista.

Entre os líderes europeus também há divergências quanto ao Brexit e ao modo como será implementado. A chanceler alemã Angela Merkel promete lutar “até o último minuto por um Brexit organizado”, de olho nas quedas que estão previstas no mercado financeiro. Já o presidente francês Emmanuel Macron, empenhado em se projetar como nova liderança no continente, sublinha que a saída do Reino Unido do bloco acabará acontecendo “sem acordo algum” e espera que isso sirva de aviso para outros rebeldes que possam estar pensando em fazer o mesmo. “Com os olhos voltados para a Europa do futuro, Macron lança mão do Brexit como argumento contra o risco da desintegração europeia”, diz Federico Fabbrini, diretor do Brexit Institute na Dublin City University, na Irlanda. “Seu discurso é que, para continuar a ser importante, a Europa precisa ficar mais unida e democrática do que nunca.” Faz sentido: se tem uma lição que o Brexit já deixou, é que tomar uma decisão e não saber como torná-la realidade pode rachar em pedaços ressentidos e raivosos uma sociedade que sempre se julgou ordeira e sensata.

Publicado em VEJA de 3 de abril de 2019, edição nº 2628

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