Relógio que marcava espera pelos reféns é desligado em Tel Aviv após 844 dias
Símbolo da pressão israelense foi encerrado após retorno do corpo de Ran Gvili, último sequestrado mantido em Gaza
O relógio instalado em uma praça central de Tel Aviv, que ao longo de mais de dois anos se consolidou como um dos principais símbolos da mobilização pela libertação dos reféns sequestrados pelo grupo militante palestino Hamas, foi desligado nesta terça-feira, 27, após 844 dias em atividade. O encerramento da contagem ocorreu um dia depois do anúncio oficial da recuperação do corpo de Ran Gvili, o último refém ainda mantido na Faixa de Gaza.
Conhecida como “praça dos reféns”, a área tornou-se, desde os ataques de 7 de outubro de 2023, um ponto permanente de vigília e protesto. O painel digital, em números vermelhos, contabilizava minuto a minuto o tempo transcorrido desde o início do cativeiro e funcionava como um símbolo da pressão exercida pela sociedade israelense sobre o governo para acelerar negociações e operações de resgate.
Último refém
Ran Gvili, 24, era policial e foi morto no kibutz Alumim, no sul de Israel, durante a ofensiva do Hamas. A devolução de seus restos mortais completa o compromisso central da primeira fase do cessar-fogo, em vigor desde outubro do ano passado, que previa a repatriação de todos os reféns, vivos ou mortos.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, definiu a volta dos restos mortais de Ran como “uma conquista incrível” para o país e seus soldados, acrescentando: “Prometi que traríamos todos para casa e trouxemos todos para casa”. Há quase duas semanas, os Estados Unidos afirmaram que o cessar-fogo havia entrado na sua segunda etapa. A família de Ran, contudo, reforçou os apelos para que as negociações não avançassem até a devolução do seu corpo.
A segunda fase prevê o desarmamento do Hamas e a reconstrução de Gaza. O grupo, contudo, rejeita entregar as armas sem a criação do Estado da Palestina — uma ideia recusada por Israel. Enquanto isso, proliferam-se as acusações dos termos do cessar-fogo por ambos os lados do conflito. Nesta segunda, as forças israelenses mataram a tiros um homem no bairro de Tuffah, na Cidade de Gaza, segundo o Hospital Shifa, que recebeu o corpo. Ele estava próximo à área onde os militares conduziam a operação de busca por Ran.
‘Desradicalização’ de Gaza
O plano elaborado pelos Estados Unidos estabelece que Gaza deverá ser uma zona “desradicalizada”, ou seja, sem grupos radicais. Sob o documento da trégua, o território passará por reconstrução com apoio de um comitê composto por 15 palestinos qualificados e especialistas internacionais. No mesmo dia do anúncio da segunda fase, o ministro das Relações Exteriores do Egito, Badr Abdelatty, informou que “chegou-se a um consenso sobre os membros” da comissão.
A supervisão será feita por um órgão internacional de transição, o “Conselho da Paz”, que será presidido por Donald Trump, com outros membros e chefes de Estado. A iniciativa foi lançada na semana passada durante a participação do republicano no Fórum Econômico Internacional, em Davos, na Suíça. Até o momento, Arábia Saudita, Argentina, Armênia, Azerbaijão, Bahrein, Belarus, Catar, Cazaquistão, Egito, Emirados Árabes Unidos, Hungria, Indonésia, Israel, Jordânia, Kosovo, Kuwait, Marrocos, Paraguai, Paquistão, Turquia, Uzbequistão e Vietnã aceitaram participar do Conselho. O Brasil ainda não anunciou sua decisão.
“Esse órgão estabelecerá a estrutura e administrará o financiamento para a reconstrução de Gaza até que a Autoridade Palestina conclua seu programa de reformas, conforme delineado em várias propostas, incluindo o plano de paz do Presidente Trump em 2020 e a proposta saudita-francesa, e possa retomar o controle de Gaza de forma segura e eficaz. Esse órgão recorrerá aos melhores padrões internacionais para criar uma governança moderna e eficiente que sirva à população de Gaza e seja propícia à atração de investimentos”, explica.
Será colocado em prática um plano de desenvolvimento de Trump para “reconstruir e energizar Gaza” através da “convocação de um painel de especialistas que ajudaram a dar origem a algumas das prósperas cidades modernas e milagrosas do Oriente Médio”, enquanto “uma zona econômica especial será estabelecida com tarifas preferenciais e taxas de acesso a serem negociadas com os países participantes”.





