Quatro anos de guerra na Ucrânia: o impasse que transformou a Europa, ceifou vidas e redesenhou a geopolítica
O presidente francês, Emmanuel Macron, declarou ser “muito cético” sobre a possibilidade de paz no curto prazo
Quatro anos após o início da invasão em grande escala da Rússia à Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, a guerra que prometia durar semanas transformou‑se no maior conflito armado na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, com impacto global e implicações duradouras para a ordem internacional.
Nesta terça‑feira, líderes europeus reuniram‑se em Kyiv para marcar o aniversário com um gesto simbólico de solidariedade e reforçar compromissos de ajuda política, econômica e militar, enquanto o som de mísseis e drones ecoa nas periferias da capital ucraniana.
Uma guerra sem fim à vista
O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy afirmou nesta data que o presidente russo Vladimir Putin não alcançou seus objetivos de guerra e que o país permanece firme em sua determinação de resistir à agressão e manter sua independência.
Mas, apesar de quatro anos de combates intensos, não há sinais concretos de um fim próximo.
Negociações de paz estão estagnadas, com a Rússia reiterando que quer garantir o controle de áreas no Donbas e outras regiões ocupadas, enquanto Kiev rejeita qualquer acordo que envolva concessões territoriais.
O presidente francês, Emmanuel Macron, declarou ser “muito cético” sobre a possibilidade de uma paz de curto prazo, afirmando que falta “vontade do lado russo” para um acordo duradouro.
O campo de batalha e as perdas humanas
A natureza da guerra mudou profundamente desde 2022.
Pequenos drones, particularmente os modelos FPV (First Person View), revolucionaram o combate, tornando armaduras pesadas mais vulneráveis e elevando dramaticamente as baixas: em alguns setores, até 80% das perdas no campo de batalha em 2025 foram atribuídas a drones.
Embora números oficiais de mortes não sejam divulgados por Moscou ou Kiev, análises de instituições independentes estimam que a soma de baixas militares em ambos os lados pode chegar a cerca de 1,8 milhão, incluindo cerca de 1,2 milhão de russos e cerca de 500 mil a 600 mil ucranianos desde o começo da invasão.
Por sua vez, a Missão de Monitoramento de Direitos Humanos da ONU relata mais de 15 mil civis mortos e mais de 41 mil feridos em ataques ou bombardeios, além de milhares de crianças entre as vítimas.
A guerra também desencadeou o maior deslocamento de refugiados na Europa desde a II Guerra Mundial.
Cerca de 5,9 milhões de ucranianos deixaram o país, principalmente para nações europeias, e mais 3,7 milhões estão deslocados internamente.
Território e fronteiras
Apesar dos esforços e do enorme custo humano, as linhas de frente mudaram pouco nos últimos dois anos. Atualmente, aproximadamente 19,4% do território ucraniano permanece sob controle russo, incluindo partes da Crimeia anexada em 2014 e áreas do leste e sul do país.
Essa ocupação territorial – conquistada ao custo de milhares de vidas – reforça o caráter de guerra de desgaste, com ganhos mínimos para Moscou apesar de enormes recursos comprometidos no esforço bélico.
Economia em frangalhos e reconstrução colossal
A guerra também devastou economias de ambos os lados.
Na Ucrânia, a atividade econômica encolheu drasticamente, com o PIB caindo cerca de 30% logo após a invasão. Infraestruturas críticas foram destruídas: fábricas, redes elétricas, hospitais e escolas estão entre os milhares de alvos atacados sistematicamente.
Um relatório conjunto do Banco Mundial, da ONU e da Comissão Europeia estima que a reconstrução da Ucrânia nos próximos anos custará cerca de US$ 588 bilhões, com danos cumulativos diretos de cerca de US$ 195 bilhões já contabilizados.
Para a Rússia, apesar de continuar a exportar petróleo e gás, as receitas de energia caíram substancialmente devido às sanções e cortes de infraestrutura, reduzindo importantes fontes de renda que financiam a máquina de guerra.
A arena internacional e os desafios futuros
A guerra transformou alianças e recalibrou estratégias globais.
A União Europeia reiterou seu apoio integral a Kiev, comprometendo‑se com pacotes de ajuda política, econômica e militar que somam dezenas de bilhões de euros desde 2022.
Mesmo assim, surgem tensões políticas no bloco, com países como Hungria e Eslováquia demonstrando reticências sobre novas rodadas de sanções e contribuições militares, o que alimenta incertezas sobre a coesão europeia a longo prazo.
Do lado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), líderes reforçam a necessidade de apoio contínuo, enfatizando que a defesa de Kiev também é uma forma de proteger a segurança europeia mais ampla.
Enquanto isso, no terreno, muitos veteranos ucranianos traçam um futuro incerto: amputados, feridos e emocionalmente marcados, eles criticam qualquer proposta de paz que envolva concessões territoriais, questionando se a Ucrânia estaria disposta a “perder partes de si mesma” em troca de um cessar‑fogo.
Quatro anos após a invasão, a guerra na Ucrânia permanece um conflito de gigantes: derramou sangue em larga escala, deslocou milhões, fragmentou sociedades e redesenhou a política europeia e global.
Seus efeitos serão sentidos por décadas, não apenas em Kyiv, Moscou ou Bruxelas, mas em toda a arquitetura internacional de segurança e cooperação.
O desafio de agora não é apenas manter a resistência ou reforçar alianças, mas imaginar mecanismos de paz duradouros que tratem das legítimas aspirações de segurança da Ucrânia e das preocupações estratégicas da Rússia, sem sacrificar princípios fundamentais de soberania e direitos humanos.





