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Primeiro-ministro do Líbano diz temer por sua vida e renuncia

Saad Hariri renunciou quando estava em viagem à Arábia Saudita, de cujo governo é aliado, e apontou o Hezbollah e o Irã como ameaças aos libaneses

O primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, surpreendeu ao anunciar sua renúncia, neste sábado, e acusou o Hezbollah e seu aliado Irã de “controlarem” o país, mencionando ameaças contra sua vida. “Anuncio minha demissão do posto de primeiro-ministro”, declarou Hariri, que está na Arábia Saudita, em um discurso exibido pelo canal de notícias Al-Arabiya.

Totalmente inesperada, a renúncia acontece um ano depois de sua nomeação à frente do governo libanês, que conta com a participação do poderoso movimento armado xiita Hezbollah. Suas causas diretas ainda não estão claras, porém. O gabinete do presidente da República, Michel Aun, anunciou que ele vai aguardar o retorno de Hariri para que lhe informe “as circunstâncias da renúncia e, assim, decidir os próximos passos”.

Ligado à Arábia Saudita, Hariri fez seu discurso, tendo uma bandeira libanesa ao lado. “Senti o que se tramava nas sombras para atacar minha vida”, declarou Hariri, para quem o Líbano vive uma situação similar à registrada antes do assassinato de seu pai, o ex-premier Rafic Hariri, em 2005.

Cinco membros do Hezbollah são acusados por este assassinato, que deixou o Líbano em estado de choque. O Hezbollah é um aliado-chave do governo Bashar al-Assad na guerra na vizinha Síria. Tem o apoio de Teerã e foi o único partido libanês a não entregar as armas ao fim da Guerra Civil no Líbano (1975-1990).

“O Irã exerce um controle no destino dos países da região […]. O Hezbollah é o braço [armado] do Irã, não apenas no Líbano, como também em outros países árabes”, denunciou Hariri, de 47 anos, que acusou Teerã de ter “criado conflito entre os filhos de um mesmo país, criado um Estado dentro do Estado […] até ter a última palavra nas questões do Líbano”.

“E, nessas últimas décadas, o Hezbollah impôs uma situação de fatos consumados com a força das armas”, completou Hariri, que já havia sido primeiro-ministro entre 2009 e 2011, antes de o Executivo chegar ao fim com a demissão de ministros do Hezbollah.

Acusações infundadas

Teerã rechaçou as “acusações infundadas”, afirmando que essa demissão “é um novo cenário para criar tensões no Líbano e na região”, declarou o porta-voz do Ministério Iraniano das Relações Exteriores, Bahram Ghasemi.

A decisão “mostra que [Saad Hariri] age em um terreno criado por aqueles que não querem o bem da região […], e o único vencedor deste jogo é o regime sionista”, disse, em alusão a Israel.

A guerra na Síria provocou ainda mais divisões no Líbano, fragmentado entre críticos e partidários de Damasco. Hariri se opõe fervorosamente ao governo Al-Assad.

O líder político druso Walid Jumblatt reagiu com reservas ao pedido de demissão do chefe de governo, dando a entender que era consequência das tensões entre Arábia Saudita e Irã, os dois atores-chave da região. “O Líbano é muito pequeno e vulnerável para suportar a carga econômica e política desta renúncia. Vou continuar defendendo um diálogo entre Arábia Saudita e Irã”, destacou.

As duas potências regionais se opõem frontalmente em temas como Síria, Iêmen e Líbano, onde apoiam grupos inimigos. Para o analista Hilal Jashan, professor de Ciência Política na Universidade Americana de Beirute (AUB), a “Arábia Saudita exerceu terríveis pressões” sobre seu protegido, ao “convocá-lo” para Riad.

“Isso significa que não voltará ao Líbano”, afirmou, advertindo contra “uma ‘guerra fria’ no Líbano que poderia degenerar em guerra interna” e até em uma “escalada” de violência contra o Hezbollah.