Por que New York Times decidiu aumentar cobertura sobre Suprema Corte dos EUA
Jornal abandona modelo focado apenas em decisões e destaca investigações sobre funcionamento do tribunal mais poderoso dos Estados Unidos
Por décadas, o New York Times manteve apenas um repórter dedicado à cobertura da Suprema Corte dos Estados Unidos, concentrado quase exclusivamente nos argumentos jurídicos e nas decisões formais dos magistrados. Agora, o jornal ampliou a equipe para quatro repórteres com a missão de examinar mais de perto o enorme poder dos nove juízes e o funcionamento do tribunal mais secreto do país.
Em artigo publicado nesta segunda-feira, 2, o NYT afirma que a mudança reflete uma avaliação interna de que acompanhar apenas votos e sentenças já não é suficiente para compreender a real influência dos magistrados, que ocupam cargos vitalícios e tomam decisões com impacto direto na vida política, social e econômica do país.
O novo enfoque assume de forma explícita o papel de fiscalizar uma instituição que, historicamente, opera com poucos mecanismos de controle externo. Ao contrário de outros ocupantes de cargos públicos, os ministros da Suprema Corte não passam por eleições, não divulgam registros de visitas nem tornam públicos documentos internos.
“Nossa cobertura dos casos é essencial. Os argumentos e decisões da Corte são difíceis de entender — para quem não é advogado, o vocabulário pode soar quase como latim”, afirmou a repórter investigativa Jodi Kantor, uma das responsáveis pela nova abordagem.
O reforço na cobertura ocorre após uma série de reportagens que expuseram zonas cinzentas na atuação dos magistrados, como vínculos financeiros com bilionários conservadores, viagens de luxo e contratos milionários não declarados. Também vieram à tona discussões a portas fechadas envolvendo temas centrais do debate público americano, como a imunidade presidencial de Donald Trump, a decisão que derrubou o direito federal ao aborto e as divisões internas entre os juízes do bloco liberal.
Uma das reportagens recentes revelou que um dos autores de uma ação que pode derrubar o último pilar da Lei dos Direitos de Voto sequer sabia que fazia parte do processo — um homem de 78 anos que desconhecia completamente seu envolvimento no caso.
Outro foco da nova cobertura é o chamado shadow docket, a chamada agenda oculta da Corte, um conjunto de decisões tomadas em caráter emergencial, muitas vezes sem audiência pública nem explicação detalhada. “Essas decisões podem ter efeitos duradouros, mas vêm acompanhadas de pouquíssima transparência”, afirmou VanSickle.
O aumento da fiscalização jornalística também coincidiu com a adoção, pela primeira vez na história, de um código de ética próprio da Suprema Corte, em resposta às críticas sobre conflitos de interesse e à crescente pressão pública por maior transparência no funcionamento do tribunal. “No jornalismo, examinar os poderosos é a tarefa número um”, afirmou Kantor.





