Petro mobiliza tropas na fronteira com a Venezuela após ofensiva dos EUA
Presidente colombiano classifica ação americana como violação da soberania regional, alerta para risco humanitário e pede reuniões urgentes
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, ordenou neste sábado (3) a mobilização de forças militares e policiais na fronteira com a Venezuela, em reação aos ataques conduzidos pelos Estados Unidos contra o território venezuelano, que culminaram, segundo o governo Donald Trump, na captura do presidente Nicolás Maduro.
Em pronunciamentos nas redes sociais e em declarações oficiais, Petro classificou a operação americana como uma “agressão à soberania da América Latina” e afirmou que a escalada militar pode provocar uma nova crise humanitária na região, marcada por fluxos migratórios, presença de grupos armados e economias ilegais transfronteiriças.
Embora tenha defendido publicamente uma saída diplomática para o impasse, o presidente colombiano determinou o “desdobramento da força pública” ao longo da extensa fronteira de mais de 2.200 km entre os dois países, uma área historicamente instável e atravessada por guerrilhas, dissidências das Farc, grupos paramilitares e organizações ligadas ao narcotráfico.
Segundo o Ministério da Defesa colombiano, a medida tem caráter preventivo e visa impedir incursões de grupos armados ilegais e possíveis ações terroristas em meio ao vácuo de poder e à tensão gerada pelos ataques. O ministro Pedro Sánchez afirmou que “todas as capacidades operacionais” foram ativadas para garantir a segurança da população civil.
Até o início da tarde de sábado, observadores da AFP relataram normalidade nos principais postos fronteiriços, apesar do aumento visível da presença militar.
Pressão diplomática
Mais cedo, Petro havia solicitado uma convocação “imediata” da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Conselho de Segurança da ONU para discutir a legalidade da ação militar americana.
A Colômbia ocupa atualmente uma cadeira rotativa no Conselho de Segurança, o que, segundo o governo, reforça sua responsabilidade de provocar o debate multilateral.
O presidente evitou comentar diretamente a prisão de Maduro, aliado político com quem restabeleceu relações diplomáticas em 2022, após anos de ruptura entre Bogotá e Caracas durante governos anteriores.
Ainda assim, reforçou que mudanças de regime impostas por força militar violam o direito internacional e criam precedentes perigosos para a região.
Escalada regional
A reação colombiana ocorre em meio a um amplo reposicionamento militar dos Estados Unidos no Caribe e no norte da América do Sul. Desde o início do novo mandato, Trump ampliou operações navais e aéreas sob o argumento de combate ao narcotráfico, estratégia que já havia sido criticada por Petro como uma forma velada de intervenção.
Em declarações recentes, o presidente americano chegou a afirmar que não descartava ataques a laboratórios de drogas em países vizinhos, incluindo a Colômbia — hipótese que Petro classificou como “ameaça de invasão”.
Analistas ouvidos por agências internacionais afirmam que a Colômbia teme um efeito dominó: colapso institucional na Venezuela, intensificação da violência nas áreas de fronteira e uma nova onda migratória, semelhante à observada após o agravamento da crise venezuelana a partir de 2017.
Segundo dados da ONU, a Colômbia abriga hoje mais de 2,8 milhões de venezuelanos, o maior contingente fora do país.
Enquanto governos de esquerda na América Latina, como Brasil, Chile e México, manifestaram preocupação com a ação americana, países liderados por administrações conservadoras adotaram um tom mais cauteloso ou favorável à ofensiva.





