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Palestina: ‘Mudança de embaixada para Jerusalém será lamentável’

Exportações do Brasil ao Oriente Médio e investimentos árabes correm riscos se transferência for efetivada

Por Denise Chrispim Marin Atualizado em 1 nov 2018, 20h07 - Publicado em 1 nov 2018, 18h59

A confirmação desta quinta-feira do presidente eleito Jair Bolsonaro sobre a mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém é lamentável, afirmou a VEJA o embaixador da Palestina em Brasília, Ibrahim Zeben. Para o diplomata, se efetivada, a mudança representará um “erro de cálculo e um desvio da posição tradicional do Brasil de respeito ao direito internacional”.

Zeben ainda não jogou a tolha sobre o tema e espera que a decisão venha a ser revista pela futura equipe de governo. Sobretudo, porque o Itamaraty sempre se opôs ao reconhecimento brasileiro de Jerusalém como a capital de Israel e ainda não foi ouvido pelo presidente eleito, que tampouco definiu quem comandará esse ministério.

“Jerusalém é uma cidade ocupada. As Nações Unidas não reconhecem a soberania israelense sobre a cidade. E é uma tradição do Brasil, desde 1947, respeitar o direito internacional e não dar esse reconhecimento. Isso não é linha do PT, da direita ou da esquerda, mas uma tradição diplomática”, afirmou o embaixador.

“Teremos a maior boa-vontade de explicar ao futuro governo brasileiro a posição palestina. Teremos mais dois meses para isso”, completou Zeben.

Bolsonaro confirmou essa transferência, a exemplo do que os Estados Unidos fizeram em maio passado, durante sua primeira entrevista televisões brasileiras — meios impressos nacionais e a imprensa estrangeiras tiveram acesso proibido.

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“Se o Brasil mudar a capital para o Rio de Janeiro, mudou, não tem problema. Eu não vejo um clima pesado de você mudar a embaixada em Israel, não vejo nenhum problema. Não é questão de vida e de morte. Com todo o respeito que temos pelo povo de Israel, temos pelo povo árabe”, afirmou o presidente eleito.

“Aqui é um país onde todos convivem pacificamente. Não queremos criar problemas com ninguém. Queremos fazer comércio com o mundo todo, buscar vias pacíficas para resolver os problemas”, comentou.

Bolsonaro havia mencionado sua intenção de mudar a embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém em agosto passado, durante a campanha eleitoral. Nesta semana, já eleito, ele confirmou a mudança em entrevista para o jornal Israel Hayom. Também antecipou que o Brasil não mais reconhecerá a Palestina como Estado e deslocará sua embaixada em Brasília, porque é demasiado próxima do Palácio do Planalto.

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“Quando me perguntavam, durante a campanha, se eu faria isso uma vez que me tornasse presidente, eu respondia que ‘sim, cabe a vocês (israelenses) decidirem qual é a capital de Israel, e não a outras nações'”, afirmou ao Israel Hayom. “A Palestina primeiro precisa ser um Estado para ter direito a uma embaixada.”

Por Twitter, ele reforçara essa linha nesta quinta-feira (1º). “Israel é um Estado soberano, e nós o respeitamos”, escreveu.

O reconhecimento do Estado palestino pelo Brasil deu-se em 2010, no último ano de governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas antes disso, o país já defendia a solução dos dois estados — Israel e Palestina — com fronteiras definidas com base nas vigentes antes de 1967.

Antes da entrevista de Bolsonaro nesta quinta-feira,  Zeben ainda considerava essa questão como uma fake news e uma “forçação de barra” de Israel para gerar polêmica sobre o assunto. Também dissera a VEJA que um possível convite do novo governo para o presidente palestino, Mahmoud Abbas, para comparecer na posse presidencial seria atendido, se sua agenda permitisse.

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Consultado depois da confirmação, Zeben baixou a expectativa de vinda de Abbas e lamentou as declarações de Bolsonaro.  No dia seguinte da eleição, o presidente da Palestina enviara carta de congratulações e de desejo de sucesso ao eleito no Brasil.

No texto, o palestino sublinhou sua “estima pelas relações de amizade histórica” e sua certeza sobre “a continuidade das posições equilibradas do Brasil em apoiar a paz justa almejada pelos povos da região como um todo, para que possamos, juntos, gozar da segurança, da estabilidade e do bom convívio com os nossos vizinhos”.

Ameaça comercial

A Câmara de Comércio Árabe-Brasileira preferiu não comentar o potencial impacto desta decisão sobre o comércio e os investimentos entre o Brasil e o mundo árabe. Mas há sinais de que os contratos de compra de bens brasileiros e os planos de injeção de recursos no país tenderão a ser revistos por empresas árabes. Em especial, nos setores petroleiro, de infraestrutura e de produção e processamento de alimentos.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que, de janeiro a setembro deste ano, o Brasil exportou para  Oriente Médio — excluído Israel — um total de 9,6 bilhões de dólares em produtos. O Irã foi o sexto maior comprador de bens brasileiros, com 4,6 bilhões dólares. Israel importou 256 milhões de dólares do Brasil no mesmo período, o que coloca o país no posto de 64º maior mercado do Brasil.

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O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) tampouco quis se manifestar sobre os impactos dessa medida, dada a ameaça a sua existência autônoma, na Esplanada. A equipe de transição considera a absorção do Mdic pelo futuro Ministério da Economia.

A confirmação de Bolsonaro sobre a mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém é sua quarta medida contrária à tradição diplomática e aos interesses de setores produtivos do país.  O presidente eleito anunciara que sua primeira visita internacional, antes da posse, será a Santiago, no Chile. Em seguida, irá para os Estados Unidos.

As razões para a escolha do Chile não ficaram claras. Mas geraram um atrito desnecessário nas relações do Brasil com a Argentina. Desde a adoção das regras do Mercosul, em 1995, ambos os países se beneficiaram das regras de livre comércio e da união aduaneira e conectaram suas cadeia do setor automotivo. A Argentina é o 3º maior maior mercado para os produtos brasileiros, com destaque para o setor manufaturado.

A terceira medida de rompimento de tradição diplomática está expressa no desdém do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o Mercosul. Em entrevista na última terça-feira, Guedes repetiu várias vezes, e de forma brusca, que a Argentina e o Mercosul não são prioridades para o futuro governo. Nove dias antes, ignorava Guedes, o Brasil e o Chile atualizaram e aprofundaram suas regras de livre comércio, com base no acordo firmado em 1996 entre o Mercosul e Santiago.

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O bloco, entretanto, assegura ao setor manufatureiro brasileiro uma reserva de mercado que não será demolida sem provocar o desastre completo da indústria e de seus empregos. Muito além do comércio, o Mercosul reúne acordos em praticamente todas as áreas de políticas públicas. Inclusive a sua indispensável cláusula democrática, o Protocolo de Ushuaia.

A China já enviou um recado duro para as bravatas de Bolsonaro sobre o reconhecimento de Taiwan e o suposto “domínio chinês na economia” brasileira. O presidente eleito chegou a se opor à privatização de parte dos ativos da Eletrobras devido a seu temor de que compradores chineses saiam vencedores.

“Rejeitar a China, que Bolsonaro já descreveu como um parceiro excepcional, pode servir a algum propósito político específico”, afirma editorial do jornal estatal China Daily publicado nesta quinta-feira. “Mas o custo econômico pode ser duro para a economia brasileira, que acaba de sair de sua pior recessão na história”, advertiu.

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