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Os vínculos do PCC com a esquerda armada e a inspiração boliviana

Livro relata como o PCC se transformou no primeiro cartel de drogas do Brasil e como as relações de seu líder Marcola internacionalizaram a organização

Por Leonardo Coutinho - Atualizado em 13 Nov 2017, 13h16 - Publicado em 12 Nov 2017, 18h52

 

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Fundado em 1993, o PCC evoluiu de uma espécie de sindicato de criminosos à maior organização criminosa do Brasil. O passos percorridos pelos bandidos, ao longo dos últimos 25 anos, são descritos no livro Laços de Sangue: a história secreta do PCC (Matrix Editora, 248 pág.), do procurador Marcio Sergio Christino e do jornalista Claudio Tognolli.

Christino, que é um dos principais investigadores das ações do PCC, narra os resultados de suas pesquisas e fatos dos quais é testemunha. O principal deles é como o líder do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, se consolidou como chefão da organização.

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Livro narra a história do PCC, a maior organização criminosa do Brasil Divulgação/VEJA.com

Depois de conquistar o comando do PCC, Marcola traiu dois fundadores do PCC que percebia como as únicas ameaças ao seu reinado absoluto. Segundo relata Christino, Marcola passou a trabalhar como informante da polícia paulista. Marcola entregou para polícia a poderosa rede de comunicação chefiada por José Márcio Felício, o Geleião, e César Augusto Roriz Silva, o Cesinha. A traição de Marcola, que sacrificou uma importante parte operacional da organização, foi apenas um dos passos iniciais do golpe que ele empreendeu para refundar o PCC.

O golpe de Marcola coincide com um fato bizarro que contou com a “colaboração” das autoridades paulistas. Em 2002, o guerrilheiro chileno Mauricio Hernandez Norambuena, preso pelo sequestro do publicitário Washington Olivetto, foi enviado para o mesmo presídio de Marcola, na cidade paulista de Presidente Bernardes.

Norambuena, que é um guerrilheiro treinado por Cuba para realização de ações de guerrilha na América Latina, transformou-se no “Mestre Terrorista” de Marcola. Idolatrado por seu passado pelas lições que apresentou ao líder do PCC, o chileno ganhou o status de professor para Marcola. Segundo Christino, o convívio de Marcola com Norambuena mudou de forma definitiva o modelo de ação da organização.

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“O Brasil Boliviano”

Segundo o procurador Marcio Sergio Christino, além da influência estratégia e tática aprendidas por meio do convívio com o “professor terrorista” Mauricio Hernandez Norambuena, o PCC está reproduzindo no Brasil os passos já testados pelos movimentos cocaleiros da Bolívia.

Depois dos violentos conflitos registrados em 2006, o PCC compreendeu que as ações espetaculares e a violência desmedida não ajudariam no avanço dos negócios. E passaram a focar no modelo cocaleiro boliviano que, apenas um ano antes,  havia conseguido eleger o seu líder Evo Morales como presidente da Bolívia como o principal exemplo a ser seguido.

 

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Marcola ficou fascinado com a forma que os cocaleiros tomaram conta do país. Os plantadores de coca elegeram o seu líder Evo Morales como presidente da Bolívia (que até hoje exerce a dupla função como presidente da Confederación de Cocaleros del Trópico de Cochabamba) e passaram a utilizar o Estado e o poder formal como forma de legitimar suas ações criminosas.

“O que se tem na Bolívia é um Estado cujo presidente é líder de uma associação de cocaleiros que tem na produção da cocaína sua principal riqueza. Ou seja, a Bolívia é um país em que o plantio da coca faz parte de sua vida política e institucional, e as plantações oficialmente reconhecidas e a produção também. Por isso, abriu-se um perigoso canal para a ação de traficantes. Como se vê, a característica do tráfico na Bolívia é muito peculiar”, escreve Christino.

O presidente da Bolívia Evo Morales e seu correligionário Rómer Gutiérrez Quezada preso em julho com 100 kg de cocaína em São Paulo Reprodução/Facebook

 

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A Bolívia é o principal provedor da cocaína que entra o Brasil. O PCC é o principal parceiro comercial dos bolivianos. Vendem a droga em território nacional e são o principal operador logístico para “exportação” da droga para Europa, África e Oriente Médio.

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O procurador denuncia ainda que, como fruto do amadurecimento do PCC, suas ações têm sido cada vez mais assemelhadas às militares. A série de assaltos à empresa de valores mostram a evolução tática da organização e o poder de fogo superior ao das forças de segurança.

Metralhadora utilizada pelo PCC em atentado contra rival no Paraguai. Modelos idênticos são usados em assaltos: arsenal desviado do Exército da Bolívia Divulgação/VEJA.com

 

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Além da logística impecável, em quase todas essas ações foram empregadas metralhadoras calibre .50 – capazes de romper blindagens com rajadas que superam os 400 tiros por minuto. O livro revela que as investigações conduzidas no Brasil identificaram que o arsenal de guerra do PCC tem origem boliviana. As armas foram desviadas das forças armadas do país vizinho.

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