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O rei está (quase) nu: Juan Carlos I tenta se redimir em autobiografia, mas passa longe disso

O monarca emérito debandou da Espanha em meio a uma onda de denúncias

Por Paula Freitas Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 dez 2025, 08h00 •
  • Enredado em um turbilhão de denúncias, de tráfico de influência a corrupção, e com uma amante pronta para abrir um baú de incômodas lembranças que poderiam fragilizar a impopular monarquia espanhola, Juan Carlos I partiu em 2020 para destino não revelado na condição de rei emérito, tornando o ar respirável no Palácio da Zarzuela para o reinado de seu filho, Felipe VI. Em carta enviada mais tarde a Madri, já instalado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, quis dar estatura à saída de fininho, afirmando preocupar-se com o herdeiro, que evidentemente o queria longe. “Ele precisa exercer suas funções de chefe de Estado com tranquilidade”, disse à época. Eis que, cinco anos após deixar o bem-bom dos aposentos reais que, por quase quatro décadas, eram de seu domínio, Juan Carlos decidiu relatar sob seu ângulo a história que culminou em sua derrocada na recém-lançada autobiografia Reconciliación: Memorias, escrita em parceria com a historiadora francesa Laurence Debray.

    Tal como sugere o título, a obra é uma tentativa do outrora monarca, hoje com 87 anos, de fazer as pazes com o passado, a família e o país, movido pelo objetivo nunca escondido de um dia retornar à terra natal. Pela recepção irritada dos espanhóis, a crítica mordaz e o silêncio real, parece que a missão não foi cumprida. O livro, tingido por um misto de desgosto e rancor, cutuca assuntos espinhosos de sua trajetória, naturalmente sempre tentando relativizar os enroscos com a Justiça, as desavenças familiares e as traições, mas às vezes abrindo frestas para sua verdadeira visão dos fatos.

    NA MIRA - Letizia e Felipe: ela não “agrega a família” e ele foi “insensível”
    NA MIRA - Letizia e Felipe: ela não “agrega a família” e ele foi “insensível” (Carlos Alvarez/Getty Images)

    Posto no trono pelo ditador Francisco Franco (1892-1975), Juan Carlos deixa bem clara a sua admiração por ele (“prudente”, “astuto”), a quem cita como nenhum outro, 87 vezes. E ensaia um discurso imediatamente execrado de que “há vítimas dos dois lados da história”, passando a mão no regime que deixou como saldo mais de 100 000 mortos. “Os vencidos exigem reparações, por vezes esquecendo-se de que houve brutalidade dentro de suas próprias fileiras, mas os vencedores (os franquistas) também não foram poupados”, argumenta ele, que, é preciso lembrar, acabaria saltando de patamar ao abafar uma tentativa de golpe em 1981 e garantir a manutenção da democracia. Conquistou ali fama de soberano esclarecido dos tempos modernos.

    Uma concessão aos leitores é pela primeira vez admitir com todas as letras que cometeu um “grave erro” ao receber, em 2008, 100 milhões de dólares do rei Abdullah, tio de Mohammed bin Salman, o MBS, que agora dá as cartas na Arábia Saudita. O depósito em uma obscura fundação com sede no Panamá ocorreu justamente na época em que um consórcio espanhol ganhou a licitação para a bilionária construção de um trem-bala entre as cidades de Meca e Medina. A partir daí, Juan Carlos retoma o tom original, amenizando seu papel na transação, que ele comparou ao de “um beduíno no deserto que acolhe um estranho e partilha o seu pão com o visitante”, e aproveitando para condenar a fiscalização sobre um dono de coroa. “Hoje, somos obrigados a ser completamente transparentes e a ter as nossas contas auditadas. Trinta anos atrás, ninguém se importava com isso. Este não é o mundo em que fui criado”, diz, pesaroso. Também expõe o dissabor que a agência do patrimônio nacional da Espanha lhe trouxe ao se opor, em 2011, ao recebimento de um mimo do xeique Mohammed bin Zayed Al Nahyan, dos Emirados Árabes Unidos: duas Ferraris. Acabaram indo a leilão. “O governo fez dessas investigações judiciais uma caça às bruxas, um julgamento moral que afetou todo o meu reinado e minhas ações políticas”, vitimiza-se.

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    O DITADOR - Franco, que o pôs no trono: a ele, muitas palavras de admiração, como “prudente” e “astuto”
    O DITADOR - Franco, que o pôs no trono: a ele, muitas palavras de admiração, como “prudente” e “astuto” (D. Berretty/Gamma-Rapho/Getty Images)

    Quando adentra o terreno familiar, o rei emérito põe panos quentes em quase tudo, embora desfie mágoas sobre as quais não costuma falar. As conhecidas traições em série ele trata como “indiscrições emocionais”, sem mais detalhes, e sustenta que os casos a ele atribuídos são “fictícios”. Sem mencionar o nome da alemã Corinna Larsen, a mais famosa de suas amantes, queixa-se do fato de um “relacionamento específico” ter sido “habilmente explorado”, causando “sérias consequências ao reinado” (à Justiça Corinna confirmou agrados a ele do rei saudita e pôs na roda uma certa mala de dinheiro). Atualmente em Abu Dhabi, Juan Carlos lamenta não ter recebido uma única visita da rai­nha Sofia, com quem nunca dissolveu a união de mais de sessenta anos, e não ver os netos. O primogênito Felipe, que renunciou à herança do pai e lhe cortou a mesada, não é poupado. “Entendo que, como rei, ele deva ter uma posição pública firme, mas sofri com a sua insensibilidade”, registra, dando contornos dramáticos ao distanciamento entre os dois. “Sinto-me magoado, com a sensação de abandono”, queixa-se. Outra que se vê na mira é a rainha Letizia, a nora que, para o rei caído, “não contribuiu em nada para a coesão familiar”.

    A crítica não perdoou a trilha da autopiedade pela qual ele envereda, nem tampouco a falta de uma autocrítica autêntica. “O resultado é um longo exercício de engrandecimento de si mesmo salpicado com algumas anedotas que visam evocar o caráter popular que durante anos tanto alimentou o regime Juan Carlos”, analisou o jornal espanhol El País. Um dos mais respeitados jornalistas da Espanha, Iñaki Gabilondo não economizou na acidez: “O homem que alardeou a harmonia como o grande estandarte de seu reinado tornou-se fonte de discórdia. É um fracasso para toda a vida”, avaliou. O próprio autor da obra se mostra confiante em relação aos desdobramentos dela, que o fez ser falado outra vez. “Será que as coisas mudarão com um governo diferente? Será que terei acesso mais fácil ao Palácio da Zarzuela?”, indaga o rei emérito no livro. Bem provável que não. Escândalos de todos os calibres envolvendo altas figuras de realezas europeias não são tão raros assim. Mas vamos combinar: Juan Carlos caprichou na dose.

    Publicado em VEJA de 19 de dezembro de 2025, edição nº 2975

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