O que o Estreito de Ormuz tem a ver com o seu bolso
Vital rota marítima fechada pelo Irã reduz oferta global de energia, eleva o preço do petróleo e pressiona a inflação no Brasil
A escalada da guerra no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã provocaram sucessivas turbulências nos mercados globais e já começam a afetar diretamente o bolso dos brasileiros.
Localizada entre Irã, Omã e Emirados Árabes Unidos, a rota marítima é responsável pela passagem de cerca de 20% de todo o petróleo e gás consumidos pelo planeta. Desde o início do conflito, Teerã já atacou mais de uma dezena de navios que tentavam atravessar a região. O resultado foi uma redução drástica do fluxo de embarcações nesta nesga oceânica de menos de 40 quilômetros de largura, diminuindo a oferta global de energia e pressionando os preços do petróleo.
O barril de Brent, referência internacional que custava cerca de US$ 60 no final de 2025, ultrapassou os US$ 100 e chegou a picos de quase US$ 120. Quando o petróleo sobe, o efeito é imediato nos combustíveis e em toda a economia.
Em uma semana, o Brasil registrou um aumento de 11% no valor do diesel, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Como a logística do país depende fortemente do transporte rodoviário, o encarecimento do combustível eleva o custo do frete e, consequentemente, dos produtos transportados, como alimentos, roupas e eletrodomésticos. A gasolina, que tem peso relevante na inflação, também tende a acompanhar esse movimento.
Além dos combustíveis, a crise afeta a indústria e o agronegócio. O petróleo é matéria-prima de itens como plásticos, borracha e medicamentos, o que pressiona os custos de produção. No campo, o problema é agravado pelo encarecimento de adubos e fertilizantes químicos — responsáveis por 93,5% do total importado pelo Brasil do Irã em janeiro deste ano.
Outro fator que pesa no bolso é o dólar. Em momentos de instabilidade global, investidores buscam ativos mais seguros, como a moeda americana. Com isso, ela se valoriza frente ao real, encarecendo importações e insumos usados pela indústria brasileira. Antes do início do conflito, o dólar estava na casa dos R$ 5,12, mas agora beira os R$ 5,30. Esse aumento de custos costuma ser repassado ao consumidor.
O efeito combinado de petróleo caro e dólar alto tende a pressionar a inflação nos próximos meses. O Banco Central brasileiro divulgou na quinta-feira 26 um aumento na estimativa do índice de preços e a manutenção da projeção de crescimento do PIB para 2026 (1,6%) — o que representaria o menor resultado em seis anos.
Cenário global
O conflito no Oriente Médio também reduziu as perspectivas de crescimento da economia global, segundo um relatório divulgado na quinta-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). De acordo com a entidade, a guerra aumentou o risco de alta na inflação e interrompeu uma trajetória de recuperação mais forte da economia mundial.
Antes da escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã, a OCDE avaliava que o crescimento global poderia superar as expectativas. Agora, no entanto, a projeção é de desaceleração do PIB internacional, que deve cair de 3,3%, no ano passado, para 2,9% em 2026. Em 2027, a estimativa é de uma leve recuperação, para 3,0%.
O relatório foi divulgado após o presidente americano, Donald Trump, afirmar que assumir o controle do petróleo iraniano era uma “opção”, comparando-a ao acordo que Washington fez com a Venezuela após a queda de Nicolás Maduro. Ao mesmo tempo, lançou um novo ataque contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) pela hesitação em responder aos seus apelos por ajuda militar no Oriente Médio.
Os mercados se acalmaram na quinta-feira, quando o republicano disse que o regime iraniano permitiu que dez petroleiros atravessassem o Estreito de Ormuz como um “presente” em sinal de boa-fé, em meio a tentativas de negociação para um cessar-fogo. No entanto, seus acenos a investidores americanos e internacionais podem não ser suficientes para gerenciar a situação caso o conflito continue. “Os mercados toleram incertezas momentâneas, mas não no longo prazo”, explicou a VEJA Monica Guerra, chefe de Política dos Estados Unidos da Morgan Stanley.





