O novo caso que expõe a herança maldita da pilhagem de obras de arte por nazistas
O esconde-esconde na Argentina de uma tela roubada ilumina as dificuldades de enfrentar uma vergonha histórica
A pilhagem de obras de arte pelas autoridades nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, foi um dos efeitos colaterais perversos deixados como legado por Hitler e seus asseclas. O Führer, artista frustrado e sem talento, foi o mentor intelectual dessa violência cultural cujo único objetivo era destruir a memória e a identidade de comunidades inteiras, especialmente a judaica. De forma desdenhosa e cínica, os trabalhos furtados eram chamados de “arte degenerada”. Tendo como alvo sinagogas, propriedades particulares e coleções que, para os reais proprietários, eram a única ligação com o passado, as consequências deletérias são sentidas até hoje, quando obras roubadas ou fragmentos delas são encontrados.
Um caso recente reacendeu o debate em torno do silêncio dos descendentes de oficiais nazistas que herdaram obras surrupiadas. A tela Retrato da Condessa Colleoni, do artista barroco italiano Giuseppe Ghislandi, foi encontrada de uma maneira inusitada. A obra estava desaparecida havia oitenta anos e foi localizada por meio de um anúncio imobiliário de uma casa à beira-mar, em Mar del Plata, na Argentina. Jornalistas holandeses do diário Algemeen Dagblad identificaram-na em uma fotografia da sala, acima de um sofá verde. O imóvel pertencia a Patricia Kadgien, filha de Friedrich Kadgien, um alto funcionário do governo de Hitler que se mudou para o país depois do fim da guerra, em 1945.
As autoridades argentinas realizaram buscas na casa de Mar del Plata na semana passada, mas não conseguiram localizar a pintura imediatamente. Patricia Kadgien e seu marido foram questionados, mas negaram qualquer envolvimento e retiram o anúncio do ar. Quando os agentes chegaram à residência, a pintura havia desaparecido, e um grande tapete estava em seu lugar. No entanto, um tribunal federal ordenou a prisão domiciliar de Patricia e seu companheiro por 72 horas, sob a acusação de obstrução da investigação para localizar a pintura. Um dia depois, o casal concordou em entregar a obra.
Membro do Partido Nazista e oficial das temidas SS, Friedrich Kadgien esteve profundamente envolvido no confisco de bens de todo tipo, inclusive telas, é claro. Após o fim do conflito, ele se mudou da Alemanha para a Argentina, onde morreu, em 1979. Ele estabeleceu negócios na América do Sul, incluindo a fundação de empresas no Rio de Janeiro e Buenos Aires. Suspeita-se ter usado os antigos cargos e conhecimento para acessar e se apoderar de contas secretas do regime nazista em bancos suíços, levando os valores para Brasil e Argentina.
A recuperação da obra é um marco na busca contínua por bens culturais roubados durante o Holocausto. Marei von Saher, nora de Jacques Goudstikker e herdeira da coleção do celebrado marchand holandês, de onde teria saído o Retrato da Condessa, expressou inúmeras vezes sua determinação em recuperar cada obra roubada, afirmando nunca pretender desistir de restaurar o legado de Goudstikker. Mais de 200 quadros da coleção já foram restituídos aos herdeiros em 2006, mas centenas de outras peças ainda continuam desaparecidas ou em coleções privadas e museus ao redor do mundo.
Há pedidos de devolução de quadros de Gustav Klimt na Áustria e de outras obras na Holanda e nos Estados Unidos. Esses casos revelam a dificuldade e o caráter dispendioso e exaustivo do procedimento de restituição, muitas vezes dificultado pelo interesse dos próprios países em manter as obras em seus domínios. O caso da tela encontrada na Argentina expõe a relevância dos esforços globais para a recuperação de bens culturais, processo que busca não apenas justiça patrimonial, mas também a restauração do vínculo psicológico dos herdeiros com sua cultura e lembranças. A herança maldita exige ser eliminada.
Publicado em VEJA de 12 de setembro de 2025, edição nº 2961





