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O novo caso que expõe a herança maldita da pilhagem de obras de arte por nazistas

O esconde-esconde na Argentina de uma tela roubada ilumina as dificuldades de enfrentar uma vergonha histórica

Por Alessandro Giannini Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 13 set 2025, 08h00 •
  • A pilhagem de obras de arte pelas autoridades nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, foi um dos efeitos colaterais perversos deixados como legado por Hitler e seus asseclas. O Führer, artista frustrado e sem talento, foi o mentor intelectual dessa violência cultural cujo único objetivo era destruir a memória e a identidade de comunidades inteiras, especialmente a judaica. De forma desdenhosa e cínica, os trabalhos furtados eram chamados de “arte degenerada”. Tendo como alvo sinagogas, propriedades particulares e coleções que, para os reais proprietários, eram a única ligação com o passado, as consequências deletérias são sentidas até hoje, quando obras roubadas ou fragmentos delas são encontrados.

    Um caso recente reacendeu o debate em torno do silêncio dos descendentes de oficiais nazistas que herdaram obras surrupiadas. A tela Retrato da Condessa Colleoni, do artista barroco italiano Giuseppe Ghislandi, foi encontrada de uma maneira inusitada. A obra estava desaparecida havia oitenta anos e foi localizada por meio de um anúncio imobiliário de uma casa à beira-mar, em Mar del Plata, na Argentina. Jornalistas holandeses do diário Algemeen Dagblad identificaram-na em uma fotografia da sala, acima de um sofá verde. O imóvel pertencia a Patricia Kadgien, filha de Friedrich Kadgien, um alto funcionário do governo de Hitler que se mudou para o país depois do fim da guerra, em 1945.

    ESTUPIDEZ - Hitler em visita à infame exposição de “arte degenerada”: eterno ódio ao que é diferente e original
    ESTUPIDEZ - Hitler em visita à infame exposição de “arte degenerada”: eterno ódio ao que é diferente e original (Library of Congress/Corbis/VCG/Getty Images)

    As autoridades argentinas realizaram buscas na casa de Mar del Plata na semana passada, mas não conseguiram localizar a pintura imediatamente. Patricia Kadgien e seu marido foram questionados, mas negaram qualquer envolvimento e retiram o anúncio do ar. Quando os agentes chegaram à residência, a pintura havia desaparecido, e um grande tapete estava em seu lugar. No entanto, um tribunal federal ordenou a prisão domiciliar de Patricia e seu companheiro por 72 horas, sob a acusação de obstrução da investigação para localizar a pintura. Um dia depois, o casal concordou em entregar a obra.

    Membro do Partido Nazista e oficial das temidas SS, Friedrich Kadgien esteve profundamente envolvido no confisco de bens de todo tipo, inclusive telas, é claro. Após o fim do conflito, ele se mudou da Alemanha para a Argentina, onde morreu, em 1979. Ele estabeleceu negócios na América do Sul, incluindo a fundação de empresas no Rio de Janeiro e Buenos Aires. Suspeita-se ter usado os antigos cargos e conhecimento para acessar e se apoderar de contas secretas do regime nazista em bancos suíços, levando os valores para Brasil e Argentina.

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    Crédito: Reprodução - - - https://www.lanacion.com.ar/lifestyle/una-serpiente-de-la-peor-calana-la-historia-de-friedrich-kadgien-el-nazi-detras-del-cuadro-hallado-nid27082025/
    FUGA - Identidade de Friedrich Kadgien, oficial da SS, em português: negócios (//Reprodução)

    A recuperação da obra é um marco na busca contínua por bens culturais roubados durante o Holocausto. Marei von Saher, nora de Jacques Goudstikker e herdeira da coleção do celebrado marchand holandês, de onde teria saído o Retrato da Condessa, expressou inúmeras vezes sua determinação em recuperar cada obra roubada, afirmando nunca pretender desistir de restaurar o legado de Goudstikker. Mais de 200 quadros da coleção já foram restituídos aos herdeiros em 2006, mas centenas de outras peças ainda continuam desaparecidas ou em coleções privadas e museus ao redor do mundo.

    Há pedidos de devolução de quadros de Gustav Klimt na Áustria e de outras obras na Holanda e nos Estados Unidos. Esses casos revelam a dificuldade e o caráter dispendioso e exaustivo do procedimento de restituição, muitas vezes dificultado pelo interesse dos próprios países em manter as obras em seus domínios. O caso da tela encontrada na Argentina expõe a relevância dos esforços globais para a recuperação de bens culturais, processo que busca não apenas justiça patrimonial, mas também a restauração do vínculo psicológico dos herdeiros com sua cultura e lembranças. A herança maldita exige ser eliminada.

    Publicado em VEJA de 12 de setembro de 2025, edição nº 2961

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