O fogo dramático da Guatemala
O Fuego, a mais ativa montanha aquecida da América Central, de 3 763 metros de altitude, entrou em erupção, durante 72 horas
Os vulcões fazem parte da paisagem, da história, dos dramas, da prosa e poesia da Guatemala. O escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1899-1974), vencedor do Nobel de Literatura de 1967, anotou, em Autoquiromancia: “Leio na palma da minha mão, pátria, tua doce geografia. Sobe a linha da minha vida com traço igual aos teus vulcões e logo desce como linha de coração até os meus dedos”. Na segunda-feira 3, o Fuego, a mais ativa montanha aquecida da América Central, de 3 763 metros de altitude, entrou em erupção, durante 72 horas. O governo, diante da violência da movimentação, trágica e impressionante, decretou estado de perigo — o segundo nível mais alto de emergência. No jargão científico, deu-se a etapa de “paroxismo”, a de maior intensidade. Durante o pico, a lava chegou a 300 metros de altura acima da cratera, com dispersão a distâncias de 130 quilômetros — o que obrigou o esvaziamento de cidades ao redor da região turística de Antigua. Até a quarta-feira 5, não havia mortos, como ocorreu em 2018, com 197 vidas perdidas. Contudo, mais de 1 000 pessoas foram forçadas a sair de suas casas. O fogo do Fuego, assustador e ruidoso, com a natureza em revolta, serve de recado para a humanidade, forçada a cada vez mais zelar pelo ambiente, porque as mudanças climáticas são de fato um problema incontestável. Mas é também, como intuiu Ángel Asturias, alimento para as narrativas de mágica irrealidade de um pedaço do mundo bonito, mas por vezes perigoso, de geografia nem tão doce assim.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007







