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O fim da lua de mel de Joe Biden no governo americano

Presidente enfrenta crises e vê sua popularidade cair, o que é normal. Anormal é precisar pacificar o próprio partido para aprovar seus projetos

Por Julia Braun Atualizado em 15 out 2021, 11h23 - Publicado em 17 out 2021, 08h00

Eleito presidente com base em plataforma de uma nota só — derrotar Donald Trump —, Joe Biden, político experiente que é, deveria saber que precisava causar impacto para imprimir uma marca em seu governo. Nos primeiros seis meses, pôde contar com a curva descendente da pandemia, resultado da vacinação em massa contra a Covid-19, para se manter nas boas graças do eleitorado. Mas agora a inevitável realidade se impôs, trazendo consigo a também inexorável queda de popularidade — só que, no caso de Biden, deixando um gosto mais amargo do que o habitual. Em agosto, pela primeira vez desde que se instalou na Casa Branca, sua taxa de aprovação caiu abaixo dos 50%, produto de um grande — e desastrado — gesto: a caótica retirada das tropas americanas do Afeganistão e a retomada do poder pelos fundamentalistas do Talibã.

Um novo surto de casos de Covid-19 transmitidos pela variante delta e a divulgação de imagens chocantes de imigrantes haitianos desabrigados e sendo chicoteados por patrulheiros ao cruzar a fronteira com o México tiraram mais lascas do cacife do presidente, que amarga agora um recorde de desaprovação de 53%, com apenas 38% dos americanos a favor de sua atuação — o mais baixo índice neste estágio desde Bill Clinton, praticamente empatado com o do antecessor Trump. A crise da imigração continua a assombrar, intensificando-se a cada dia, sem solução à vista. E o enrolado Biden se debruça sobre mais um enrosco: a aprovação no Congresso de dois pacotes trilionários, cruciais para implementar sua agenda econômica e melhorar a imagem de sua administração, mas que viraram motivo de briga feia entre deputados e senadores de seu próprio partido.

A primeira iniciativa é um plano de 1,2 trilhão de dólares para renovação da infraestrutura com a construção e reforma de rodovias e sistemas de saneamento, projetos de moradia e expansão de energias renováveis — um pacote ambicioso que, de quebra, criaria empregos e daria fôlego à economia. Enxugado para metade da proposta original e aprovado pelo Senado há dois meses, o texto, antes de ser assi­na­do por Biden, precisa passar pela Câmara dos Deputados — e aí mora o perigo. Uma rixa ideológica entre as alas progressista e moderada do Partido Democrata está emperrando toda e qualquer votação na Casa, onde a maioria requer 218 votos e o bloco democrata inteiro tem 220 cadeiras.

CHOQUE - Imigrantes haitianos na fronteira: problema que se agrava a cada dia -
CHOQUE - Imigrantes haitianos na fronteira: problema que se agrava a cada dia – Paul Ratje/AFP

O pacote da infraestrutura nem é problema. Praticamente todo o Congresso, até os “inimigos” republicanos, concorda que ele contribuirá para uma saída mais rápida do abismo econômico cavado pela pandemia. Mas o estridente grupo da chamada esquerda democrata condiciona seu apoio à aprovação de um segundo pacote, mais farto — começou em 3,5 trilhões de dólares e está hoje no patamar dos 2,3 trilhões — e bem mais polêmico, voltado para a expansão dos investimentos em proteção do meio ambiente, garantias a imigrantes, expansão da educação e saúde gratuitas e outras questões sociais.

Batizado de Build Back Better (BBB), o projeto prevê bancar parte da gastança com um aumento dos impostos das corporações, de 21% para 28% ao ano, e dos milionários — quem ganha acima de 400 000 dólares anuais estaria sujeito a tributos de até 39,6%. Os democratas progressistas, puxados pela voz radical do senador Bernie Sanders, ainda não engoliram o corte de recursos já acertado por Biden e lutam por uns milhões de dólares a mais. Os moderados advogam gastos que caibam no orçamento federal e alta de tributos mais suave. Para piorar, dois senadores democratas, Joe Manchin e Kyrsten Sinema, batem o pé para que o total a ser investido não passe de 1,5 trilhão de dólares e os impostos cobrados das empresas tenham um teto máximo de 25%. “O impasse no Congresso tem a complexidade de um jogo de xadrez. Basta um voto contrário entre os democratas para afundar os dois projetos de uma vez só”, diz James Thurber, analista político da American University, na capital, Washington.

A tensão é tão grande que, durante uma reunião com o presidente, um deputado chegou a sugerir trancar Sanders e Manchin em uma sala até que eles chegassem a um acordo. “Seria como pedir para que um homicídio aconteça”, teria respondido Joe Biden, segundo fontes que acompanharam o diálogo. O presidente joga com a expectativa de que as duas alas em litígio no Partido Democrata deponham as armas, firmem uma trégua e aprovem pelo menos parte das medidas propostas em nome de um projeto maior: as eleições legislativas de 2022, na qual os democratas correm o risco de perder sua precaríssima maioria na Câmara e no Senado. E com o Congresso dominado pelos republicanos mão-­fechada, Biden pode dar adeus a seus planos trilionários.

Publicado em VEJA de 20 de outubro de 2021, edição nº 2760

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