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O barraco familiar da intelectualidade francesa

Uma autobiografia disfarçada de romance envolvendo nomes ilustres — e, de quebra, Carla Bruni — está dando o que falar em Paris

Por Ernesto Neves - Atualizado em 16 out 2020, 18h09 - Publicado em 16 out 2020, 06h00

Em plena ebulição de La rentrée, a volta da França à vida normal depois das férias de verão — e, este ano, da quarentena que segue pairando como ameaça sobre os franceses —, um livro virou tema de todas as conversas nos meios intelectuais, tanto pelas revelações que traz quanto pelos personagens escondidos sob pseudônimos perfeitamente identificáveis. Trata-se de Les Temps Gagné (O tempo ganho, jogo de palavras com o proustiano tempo perdido), escrito pelo filósofo Raphaël Enthoven, que vem a ser ex-­marido de Justine, filha do filósofo Bernard-Henri Lévy, a quem largou para ficar com Carla Bruni, que hoje está casada com o ex-presidente Nicolas Sarkozy, mas que, na época, era companheira de — adivinhem — outro filósofo, Jean-Paul Enthoven, e o sobrenome não engana: ele é pai de Raphaël. Nessa quadrilha literária, sobra espaço no recém-lançado roman à clef, como o gênero tipo diz-­mas-não-diz é chamado, para petardos a torto e a direito, devidamente mastigados e digeridos com gosto pela elite intelectual da França.

Elogios, mesmo, o jovem Enthoven (ou melhor, “Adrien”) só dedica a Bruni (“Beatrice”), com quem tem um filho. Além da inteligência, simplicidade e humor, que fazem dela “a mulher ideal”, o autor tece loas ao bumbum da ex-modelo — “Nunca tinha visto nada igual”. Em entrevista a VEJA na edição passada, ela disse ainda não ter lido o livro, mas adiantou sua aprovação à obra: “Cada um pode escrever sobre o que quiser”. Figura conhecida na França, assíduo em debates em rádio e TV, o bonitão Enthoven, de 46 anos, relata no romance, inclusive, o momento em que, ainda menino, viu sua imagem na janela de um trem e percebeu que era “objetivamente bonito”.

Mas o grosso do livro de 500 páginas envolve lembranças e definições pouco elogiosas sobre o círculo íntimo do autor, a começar pelo pai. Jean-­Paul Enthoven, 71, “um homem que gosta de dinheiro, mas não tem” e que sempre esteve “ocupado demais se queixando da vida” para lhe dar atenção. Conta haver achado em uma gaveta uma carta do pai a seu padrasto, o também conhecido psicanalista Isi Beller, ameaçando matá-lo se voltasse a bater no pequeno “Adrian” — só que a carta nunca foi mandada. Beller, ou “Isidore”, classificado de “asqueroso” no livro, pede na Justiça indenização de 70 000 euros por difamação. Já Enthoven sênior, que havia perdoado o incidente Bruni, sobre o livro se diz “de luto” pela atitude “abominável” do filho e resume o deslize edipiano (na classificação imediata do mundo literário): “É um momento terrível para aqueles que, como eu, amaram Raphaël e agora se afogam em um oceano de ingratidão”.

Manifestar interesse por fofocas da vida alheia é uma atividade recente na França. O ex-presidente François Mitterrand teve uma amante e uma filha não reconhecida e todo mundo sabia, mas ninguém descia ao nível de tecer comentários em público. Foi justamente o advento da bela Carla Bruni no Élysée que enfim jogou os franceses na vala comum dos fofoqueiros — ainda com certa reserva, mas incontestável joie de vivre, como mostra a repercussão de Le Temps Gagné. O livro trata muito mal de Justine Lévy, talvez uma pouco edificante vingança contra o fato de ela também haver escrito um livro arrasador sobre Raphaël, o ex-marido. No romance, ela é descrita como “não muito bonita” e de “cara comprida”. O casamento “durou quatro anos e dez milhões de dias” e ele a deixou “com a frieza culpada de um diretor de relações humanas lidando com uma falência e sabendo que ele próprio dispõe de um paraquedas dourado (Bruni)”. O enlace, aliás, teria sido menos dele e mais de “meu pai com seu melhor amigo” — no caso, Bernard Henri-Lévy, o BHL, que no livro surge como “Elie” e a definição de “cobaia narcisista”, cuja obra estaria repleta de “frases sem verbo, citações inúteis e o estilo de um machado”. “Sua vaidade o protege da realidade”, acrescenta maldosamente “Adrien” sobre “Elie” — em cuja vila marroquina, aliás, ele diz ter se apaixonado por Beatrice-­Bruni. Na reabertura do cenário intelectual parisiense neste atípico 2020, nada como um barraco filosófico para aliviar as tensões.

Publicado em VEJA de 21 de outubro de 2020, edição nº 2709

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