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O avanço do coronavírus em Nova York: parece filme catástrofe

Na cidade mais cosmopolita do mundo, um vazio jamais visto tomou o lugar dos engarrafamentos eternos e das calçadas sempre lotadas

Por Felipe Carneiro, de Nova York Atualizado em 27 mar 2020, 09h51 - Publicado em 27 mar 2020, 06h00

O início da primavera, com as primeiras folhas verdes e flores brotando nas árvores, costuma encher as ruas e parques de Nova York de turistas e moradores fartos de casacões, cachecóis e ambientes aquecidos demais. Pois neste ano a mudança de estação passou batido, e entende-se por quê: no domingo 22, fincou-se ali a bandeira de cidade com o maior número de pessoas contaminadas pelo novo coronavírus no mundo, e as medidas para tentar conter a disseminação, como vem acontecendo em toda parte, esvaziaram a metrópole. As balsas que levam diariamente 10 000 visitantes à Estátua da Liberdade permanecem atracadas, sem passageiros. Na sempre lotada Times Square, três ou quatro pessoas de máscara tiram selfies com os famosos telões ao fundo, nos quais a publicidade foi trocada por orientações e apelos para que a população fique em casa. Na Quinta Avenida, onde em dias normais mal se consegue andar na calçada, até os porteiros uniformizados desapareceram e a douradíssima entrada da Trump Tower fica às moscas. Longe dos pontos turísticos, esportistas correndo e pessoas passeando com cachorros mantêm distância das pequenas filas na frente dos cafés e mercadinhos com cartazes na entrada que limitam a quatro o número de fregueses no interior. À noite, nem isso. Por ordem do governo, tudo fecha às 20 horas. E aí o inimaginável acontece: a cidade que nunca dormia tranca a porta de casa e se recolhe.

  • Na quinta-feira 26, a cidade de Nova York contabilizava 21 393 casos confirmados de contaminação. No estado são 37 258 — mais da metade dos infectados nos Estados Unidos e 7% do total mundial —, e o número vem dobrando a cada dois ou três dias. “Não estamos achatando a curva. Ao contrário, ela está subindo. O pico será mais alto e chegará mais rápido do que pensávamos”, alertou o governador Andrew Cuomo, que prevê o apogeu da epidemia em seu estado para as próximas duas ou três semanas. Um dos motivos citados pelos epidemiologistas para esse turbilhão viral na maior metrópole americana é a quantidade de estrangeiros que ela recebe. Não se anda nem por cinco minutos pelas ruas de Manhattan sem ouvir ao menos um idioma diverso do inglês. Nova York recebe mais de 60 milhões de turistas por ano e abriga vibrantes comunidades de moradores de todos os países.

    O intenso fluxo de visitantes faz inflar um segundo fator de alimentação do contágio: o movimentadíssimo metrô, o principal meio de locomoção local. Com as ruas permanentemente em obras e engarrafadas e a falta de garagem nos charmosos brown­stones, prédios baixos do século XIX que são marca da cidade, quem circula por lá vence curtas distâncias a pé e, se o destino é mais longe, embarca no transporte subterrâneo, que chega a toda parte. Os apartamentos minúsculos, por sua vez, contribuem para que a metrópole registre a maior densidade populacional dos Estados Unidos, com 11 000 habitantes por quilômetro quadrado — a segunda colocada, São Francisco, tem 6 500. “Nova York foi a primeira a ser atingida em tal proporção e vem sendo a primeira a reagir com rigor. É bom que o resto do país aprenda o que tem de ser feito”, aconselha Thomas Frieden, especialista em doenças infecciosas e ex-diretor do Departamento da Saúde de Nova York e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão que comanda o combate ao novo coronavírus.

    Cuomo teve o cuidado de coordenar suas ações com os dois estados vizinhos, Nova Jersey e Connecticut, que, pelo menos ao longo da divisa, são praticamente uma extensão de Nova York. Os três tomaram em conjunto a decisão de fechar primeiro as escolas e universidades, depois o comércio em geral. Trens e metrôs continuaram funcionando, mas é chocante ver a Penn Station — a maior estação de trens do Ocidente, com 600 000 passageiros diários, onde os commuters das cidades vizinhas desembarcam para em seguida mergulhar na malha metroviária urbana — ocupada agora apenas por mendigos que fogem do frio e policiais de luvas e máscara. Com a situação se agravando, o governo estadual determinou que todos os hospitais ampliem sua capacidade em 50% e deu início à instalação de quatro estruturas temporárias de atendimento, com a ajuda do Exército. Também foram estocadas 70 000 doses de hidroxicloroquina, 10 000 doses de zitromax e 750 000 de cloroquina, para entrar em uso assim que o medicamento for aprovado no tratamento da Covid-19 (veja a reportagem na p·g. 68).

    Abafando o protagonismo do prefeito Bill de Blasio (o que não é fácil), o democrata Cuomo dá entrevistas diárias para atualizar informações sobre a epidemia que, segundo ele, pode contaminar 80% da população do estado. Vira e mexe, faz críticas ao governo federal e a Donald Trump, pela demora em suprir o estado com kits de teste, respiradores e recursos financeiros. Tanta assertividade tem lá suas segundas intenções. O Partido Democrata ainda não oficializou seu candidato na eleição de novembro. O senador Joe Biden ia de vento em popa nas primárias e tinha a indicação quase garantida na convenção de julho, até tudo ficar em suspenso por causa do coronavírus. Em paralelo, Trump, que busca a reeleição, sofre as consequências de, em um primeiro momento, subestimar o tamanho do problema e acusar a imprensa (lembra alguém?) de promover histeria. Mesmo depois de mudar o tom, arrisca improvisos que não batem com a realidade e agora quer acabar com a quarentena e pôr o país para andar “até a Páscoa”. Nesse contexto, abre-se a fresta de uma janela de oportunidade eleitoral para quem sobressair na crise. O vírus da política não dá trégua.

    Publicado em VEJA de 1 de abril de 2020, edição nº 2680

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