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‘Não vamos pressionar Maduro a renunciar’, diz Celso Amorim ao ‘Guardian’

Assessor de Lula definiu a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de fechar o espaço aéreo venezuelano como 'um ato de guerra'

Por Paula Freitas Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 8 dez 2025, 14h31 •
  • O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, alertou que um conflito militar entre Estados Unidos e Venezuela poderia levar a América do Sul a um cenário semelhante ao da guerra no Vietnã. A declaração foi divulgada nesta segunda-feira, 8, pelo jornal britânico The Guardian. Amorim definiu a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de fechar o espaço aéreo venezuelano como “um ato de guerra”, além de ter adiantado que o Brasil não pressionará pela deposição do ditador Nicolás Maduro.

    “A última coisa que queremos é que a América do Sul se torne uma zona de guerra – e uma zona de guerra que inevitavelmente não seria apenas uma guerra entre os EUA e a Venezuela. Acabaria por ter envolvimento global e isso seria realmente lamentável”, disse ao The Guardian.

    “Se houvesse uma invasão, uma invasão de verdade… acho que sem dúvida veríamos algo semelhante ao Vietnã – em que escala é impossível dizer”, acrescentou ele, que disse acreditar que um ataque poderia reacender o sentimento anti-EUA na América Latina e unir figuras da oposição venezuelana contra uma interferência externa. “Eu conheço a América do Sul… todo o nosso continente existe graças à resistência contra invasores estrangeiros.”

    A reportagem apontou que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não aceitou a proclamação de vitória de Maduro nas eleições do ano passado “apesar dos laços de longa data com seu movimento político”. Amorim, segundo o jornal britânico, reconheceu problemas na contagem dos votos. Segundo a oposição, que apelou repetidamente para que o regime chavista liberasse as atas eleitorais, quem venceu a disputa foi o diplomata Edmundo González Urrutia. O assessor de Lula, contudo, destacou que o Brasil é contra uma deposição forçada.

    “Se cada eleição questionável desencadeasse uma invasão, o mundo estaria em chamas”, apontou Amorim, que não falava em nome de Brasília.

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    “Se Maduro chegar à conclusão de que deixar o poder é o melhor para ele e para a Venezuela, será uma conclusão dele… O Brasil jamais imporá isso; jamais dirá que isso é uma exigência… Não vamos pressionar Maduro para que renuncie ou abdique”, acrescentou o diplomata brasileiro, que admitiu que as relações entre os dois países não são tão “calorosas ou intensas” como antes.

    Trump teria dado um ultimato a Maduro: ele, sua família e aliados poderiam fugir desde que o fizessem imediatamente, afirmaram duas fontes familiarizadas com o assunto, sob condição de anonimato, ao jornal americano Miami Herald. O líder chavista, contudo, teria rejeitado a opção nos moldes americanos. Amorim foi questionado, então, pelo The Guardian se o Brasil seria uma opção de exílio, mas ele desconversou e disse que não especularia “para não parecer estar incentivando” a ideia.

    “No entanto, o asilo é uma instituição latino-americana (para) pessoas tanto de direita quanto de esquerda”, acrescentou, relembrando que o equatoriano Lucio Gutiérrez recebeu refúgio no Brasil após ser deposto da presidência em 2005, quando Amorim era ministro das Relações Exteriores. “Chegamos a enviar um avião para buscá-lo”.

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    O assessor de política externa demonstrou esperança de que Trump opte por uma “solução negociada” com Madura, permitindo uma transição de poder pacífica. Amorim também indicou que a mudança política provavelmente levaria tempo, fazendo menção à abertura “lenta, gradual e segura” da ditadura militar brasileira (1964-1985). Ele também apontou como um possível caminho um referendo revogatório, como o realizado na Venezuela em 2004, como forma de amenizar a crise no país.

    “(O então presidente Hugo) Chávez aceitou a ideia, com alguma relutância, mas aceitou. Houve um referendo e ele venceu”, disse Amorim, concluindo: “Não sei quem venceria agora”.

    + Imigração e Lula pressionado: os riscos para o Brasil de uma guerra entre EUA e Venezuela

    Tensão no Caribe

    No final de outubro, o líder americano revelou que havia autorizado a CIA a conduzir operações secretas dentro da Venezuela, aumentando as especulações em Caracas de que Washington quer derrubar Maduro. Fontes próximas à Casa Branca afirmam que o Pentágono apresentou a Trump diferentes opções, incluindo ataques a instalações militares venezuelanas — como pistas de pouso — sob a justificativa de vínculos entre setores das Forças Armadas e o narcotráfico.

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    Os EUA acusam Maduro de liderar o Cartel de los Soles e oferecem uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à captura do chefe do regime chavista. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também foi acusado por Trump de ser “líder do tráfico de drogas” e “bandido”. Em paralelo, intensificam-se os ataques a barcos de Organizações Terroristas Designadas, como define o governo americano, no Caribe e Pacífico.

    Há poucas semanas, militares americanos de alto escalão apresentaram opções de operações contra Caracas a Trump. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, e outros oficiais entregaram planos atualizados, que incluíam ataques por terra. Segundo a emissora CBS News, a comunidade de Inteligência dos EUA contribuiu com o fornecimento de informações para as possíveis ofensivas na Venezuela, que variam em intensidade.

    O planejamento militar ocorre em meio à crescente mobilização militar americana na América Latina e ao aumento das expectativas de uma possível ampliação das operações na região, em atos considerados como “execuções extrajudiciais” pela Organização das Nações Unidas (ONU). Além do porta-aviões, destróieres com mísseis guiados, caças F-35, um submarino nuclear e cerca de 6.500 soldados foram despachados para o Caribe, enquanto Trump intensifica o jogo de quem pisca primeiro com o governo venezuelano.

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    Os incidentes geraram alarme entre alguns juristas e legisladores democratas, que denunciaram os casos como violações do direito internacional. Em contrapartida, Trump argumentou que os EUA já estão envolvidos em uma guerra com grupos narcoterroristas da Venezuela, o que torna os ataques legítimos. Autoridades afirmaram ainda que disparos letais são necessários porque ações tradicionais para prender os tripulantes e apreender as cargas ilícitas falharam em conter o fluxo de narcóticos em direção ao país.

    Dados das Nações Unidas enfraquecem o discurso de caça às drogas. O Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 indica que o fentanil — principal responsável pelas overdoses nos EUA — tem origem no México, e não na Venezuela, que praticamente não participa da produção ou do contrabando do opioide para o país. O documento também aponta que as drogas mais usadas pelos americanos não têm origem na Venezuela — a cocaína, por exemplo, é consumida por cerca de 2% da população e vem majoritariamente de Colômbia, Bolívia e Peru.

    Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na última sexta-feira, 14, revelou que apenas 29% dos americanos apoiam o uso das Forças Armadas dos Estados Unidos para matar suspeitos de narcotráfico, sem o devido processo judicial, uma crítica às ações de Trump. Em um sinal de divisão entre os apoiadores do presidente, 27% dos republicanos entrevistados se opuseram à prática, enquanto 58% a apoiaram e o restante não tinha opinião formada. No Partido Democrata, cerca de 75% dos eleitores são contra as operações, e 10% a favor.

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