Minneapolis: o que se sabe sobre a segunda morte de um americano nas mãos do ICE
Alex Pretti, enfermeiro de 37 anos, sofreu dez disparos à queima-roupa durante confusão em protesto contra a agência de imigração
Alex Pretti, 37 anos, tornou-se no último sábado 24 o segundo americano morto a tiros em Minneapolis por agentes do ICE, a polícia de imigração dos Estados Unidos, em menos de três semanas. O enfermeiro de UTI perdeu a vida durante um protesto contra as operações da agência federal na cidade, que vêm gerando indignação em todo o país, pouco após Renee Nicole Macklin Good, outra cidadã americana de 37 anos, também ter sido baleada e morta em condições semelhantes.
Mesmo com vídeos e depoimentos de testemunhas oculares contando uma história bem diferente da narrativa preferida pelo governo de Donald Trump, a Casa Branca sustenta que Pretti estava armado quando abordou agentes do ICE, que teriam atuado em legítima defesa.
O que se sabe até agora
Vários vídeos que circulam nas redes sociais mostram Pretti filmando os agentes federais com seu celular durante um protesto perto do centro de Minneapolis, que no dia anterior foi palco de uma greve geral e uma marcha que atraiu 50 mil pessoas contra a presença do ICE na cidade.
Naquele momento, segundo disse mais tarde o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), havia uma perseguição em andamento contra “um imigrante ilegal procurado por agressão violenta”. Essa pessoa teria sido rastreada até a loja de donuts Glam Doll, às 9h locais (11h em Brasília). Então, membros dos chamados “grupos de observação do ICE” intervieram, usando apitos para denunciar a ação, como tem sido recorrente em Minneapolis.
Nos vídeos mais nítidos, Pretti, que também estava filmando a cena, guarda o celular para socorrer uma mulher que havia sido empurrado por um policial. Escorregando no gelo, ela lutava para se levantar. Momentos depois, o homem é atingido por spray de pimenta, derrubado na rua e imobilizado por vários agentes.
Pelo menos cinco policiais o cercam enquanto ele estava deitado. É possível ver um deles retirando a pistola semiautomática (Pretti tinha porte legal, e não tinha sacado a arma no desenrolar dos acontecimentos) do coldre na parte de trás de sua calça. Quase simultaneamente, outro agente de imigração saca sua arma e, com Pretti desarmado, parece atirar à queima-roupa. Em seguida, ouve-se uma saraivada de tiro. No total, foram dez disparos. Por fim, o corpo do enfermeiro fica completamente imóvel.
Outro vídeo, gravado momentos depois de Pretti ser baleado, mostra os agentes revistando seu corpo em busca da arma. “Onde está a p***a da arma?”, pergunta um deles. Apontando para outro policial, ele questiona: “Você pegou a arma?”, ao que o colega responde que sim, “eu peguei a arma”.
Duas testemunhas oculares – uma mulher que filmou os disparos a poucos metros de distância e um médico pediatra que assistiu à cena de um apartamento nas proximidades – afirmaram posteriormente, em depoimento às autoridades, que Pretti não estava portando nenhuma arma em nenhum momento. O médico também disse que os agentes federais inicialmente o impediu de prestar socorro e pareciam estar contando os ferimentos a bala em vez de tentar reanimar o enfermeiro.
“Finalmente, um agente concordou em me deixar avaliar a vítima. Ele me revistou para ‘garantir que eu não estivesse armado’ e então me deixou me aproximar. Vi que a vítima estava deitada de lado e cercada por vários agentes. Fiquei confuso sobre o motivo de a vítima estar de lado, pois essa não é a prática padrão quando uma vítima é baleada. Verificar o pulso e realizar RCP (Reanimação Cardiorrespiratória) são procedimentos padrão. Em vez de fazerem qualquer uma dessas coisas, os agentes pareciam estar contando seus ferimentos de bala”, disse o pediatra, segundo documento judicial.
A versão oficial
Funcionários do governo Trump apresentaram uma versão drasticamente diferente daquela mostrada nos vídeos. Kristi Noem, secretária de Segurança Interna, afirmou que Pretti abordou os agentes “com uma pistola semiautomática de 9 mm” e representava uma ameaça letal.
“Os policiais tentaram desarmar o suspeito, mas ele resistiu violentamente”, afirmou o DHS.
O presidente americano também o descreveu como um “homem armado”. Gregory Bovino, comandante-geral do CPB, a patrulha de fronteira, declarou que os disparos que mataram o enfermeiro impediram um potencial “massacre” de agentes da lei.
As imagens de vídeo, porém, mostraram Pretti segurando um telefone, não uma arma. Quando Bovino foi questionado sobre isso, disse apenas que os agentes do ICE “tiveram uma fração de segundo para tomar uma decisão”. “Há muita especulação envolvida”, acrescentou.
Um padrão semelhante ocorreu no caso da morte de Renee Good no início deste mês. Noem disse que a mulher usou seu carro como arma – uma alegação contestada por autoridades locais e testemunhas oculares, e contradita por um vídeo que parece mostrar seu veículo indo na direção contrária do agente que abriu fogo contra ela. Tricia McLaughlin, secretária adjunta do DHS, insistiu que vários membros do ICE ficaram feridos no incidente, quando os vídeos não mostraram nada disso. JD Vance, o vice-presidente, descreveu as ações de Renee como “um caso clássico de terrorismo doméstico”.
Em duas longas postagens em sua rede, a Truth Social, Trump culpou os democratas em Minnesota pelas mortes tanto de Good como de Pretti, acusando-os de alimentar “divisão, caos e violência” no estado.
“Cidades e estados santuários administrados por democratas estão se recusando a cooperar com o ICE e, na verdade, estão incentivando agitadores de esquerda a obstruir ilegalmente suas operações para prender as piores pessoas”, disse ele. “Tragicamente, dois cidadãos americanos perderam suas vidas como resultado desse caos provocado pelos democratas.”
No entanto, o presidente dos Estados Unidos se recusou a dizer se o agente federal que atirou em Pretti agiu corretamente. Quando pressionado pelo jornal The Wall Street Journal em uma entrevista por telefone publicada na noite de domingo ele respondeu: “Estamos analisando, estamos revisando tudo e chegaremos a uma conclusão”.
Opinião pública
Por muitos meses, as pesquisas indicavam que as políticas de imigração de Trump, que reduziram praticamente a zero as travessias da fronteira com o México, eram populares. Mas, Renee perder a vida, a opinião pública mudou.
Uma pesquisa YouGov revelou que 53% dos americanos consideram o atentado contra Renee injustificado, em comparação com 28% que o consideravam justificado. A taxa líquida de aprovação de Trump caiu para -17, a mais baixa de seu segundo mandato. Em Minneapolis, democratas incentivam a população a continuarem suas manifestações contra as operações do ICE. Tim Walz, o governador democrata de Minnesota, que foi o vice de Kamala Harris nas eleições de 2024, orientou habitantes do estado a continuarem usando seus celulares para filmar os agentes de imigração, para que as imagens possam ser usadas em investigações futuras.





