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Marine paz e amor. Quem acredita?

O que existe por trás da aparente transformação da representante da ultradireita francesa

Por Julia Braun Atualizado em 11 jun 2021, 12h40 - Publicado em 11 jun 2021, 06h00

Foi falando em “união nacional” e “grande alternativa para reerguer a França” que Marine Le Pen, representante da ultradireita francesa conhecida pelos discursos inflamados, postura agressiva e declarações abertamente racistas, anunciou em meados de maio que disputaria a eleição presidencial do ano que vem, depois de duas derrotas consecutivas em 2012 e 2017. A aparente transformação de Marine, 52 anos, faz parte de uma reformulação de “marca articulada para atrair a simpatia dos eleitores decepcionados com Emmanuel Macron, mas resistentes em confiar na parlamentar de passado familiar controverso, opiniões polêmicas e personalidade das mais desafiadoras.

Um dos primeiros movimentos de Marine nessa direção foi a mudança do nome de seu partido, de Frente Nacional para Reunião Nacional, com a intenção de descolá-lo das insanidades proferidas por seu pai, Jean-Marie Le Pen, quando era líder da legenda. Por suas diatribes, sobretudo as de caráter antissemita — entre outras barbaridades, qualificou as câmaras de gás dos campos de concentração nazistas como “um detalhe da história” —, o político de 92 anos foi condenado em diversas ocasiões pela Justiça francesa. Em 2015, em flagrante guerra familiar, foi expulso pela própria filha da agremiação que fundou. “Nosso partido teve início como um ato de protesto, tornou-se um movimento de oposição e agora é um projeto de governo”, proclama Marine.

AFASTADO - Le Pen, o radical: expulso pela própria filha para suavizar a imagem do partido -
AFASTADO - Le Pen, o radical: expulso pela própria filha para suavizar a imagem do partido – Joel Saget/AFP

Pondo mãos à obra, ela começou a alterar pontos da plataforma radical que seu grupo sempre defendeu. A Reunião Nacional passou a aprovar o casamento gay e o aborto em qualquer circunstância e deixou de apoiar a pena de morte. Marine continua empenhada em dar fim à “deletéria” influência dos Estados Unidos sobre a França, mas, pondo de lado a ardorosa defesa da saída do país da União Europeia e da zona do euro, resolveu promover, em vez do “Frexit”, a realização de uma vasta reforma interna na UE. Também adotou o argumento de que substituir a moeda neste momento causaria indesejável instabilidade econômica. “Chegou a hora de abandonar minha armadura”, afirmou em entrevista recente. “Tenho maturidade suficiente para deixar de lado a dureza.” A cruzada contra os imigrantes e a abertura das fronteiras para refugiados, que estariam desvirtuando a identidade nacional e ameaçando a sobrevivência dos franceses puros, segue firme no furioso tom de sempre. Numa frase célebre, ela comparou a visão de muçulmanos recitando suas preces nas praças do país à ocupação da França pelos nazistas. Mas o reposicionamento em outras áreas parece estar tendo efeito sobre parte do eleitorado que duvidava da capacidade de Marine de ocupar a Presidência. Uma pesquisa da Fundação Jean-Jaurès mostrou que a rejeição à Reunião Nacional atingiu este ano seu ponto mais baixo desde que o partido foi renomeado, em 2018: caiu de 50% para 34%. Embora 60% dos entrevistados continuem a rechaçar a postura xenofóbica da legenda e vejam sua líder como ameaça à democracia, “Marine paz e amor” conta com deslizes de Macron para alcançar o impensável: pôr a extrema direita no Palácio do Eliseu.

Publicado em VEJA de 16 de junho de 2021, edição nº 2742

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