‘Lolita’, Gates e Chomsky: Câmara dos EUA divulga mais fotos do espólio de Epstein; veja
Epstein conviveu com milionários de Wall Street, membros da realeza e celebridades antes de se declarar culpado de exploração sexual de menores em 2008
O Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos, liderado por democratas, divulgou nesta quinta-feira, 18, novas fotos do espólio de Jeffrey Epstein, bilionário acusado de tráfico sexual de adolescentes morto por suicídio na prisão em 2019. As 68 imagens foram divulgadas sem qualquer contexto. Entre elas, estão uma de um pé feminino marcado com trechos em caneta do livro Lolita (1955), que aparece ao fundo; uma do filósofo Noam Chomsky em um avião com Epstein; uma do cofundador da Microsoft, Bill Gates, com uma mulher não identificada.
“Os democratas da Comissão de Supervisão continuarão a divulgar fotografias e documentos do acervo de Epstein para garantir transparência ao povo americano”, disse o deputado democrata Robert Garcia em comunicado. “À medida que nos aproximamos do prazo final da Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, essas novas imagens levantam mais dúvidas sobre o que exatamente o Departamento de Justiça tem em sua posse. Devemos acabar com esse acobertamento da Casa Branca, e o Departamento de Justiça deve divulgar os arquivos de Epstein agora.”
O trecho de Lolita, um romance do russo Vladimir Nabokov sobre a obsessão sexual de um homem por uma menina de 12 anos, que aparece estampado em um pé de uma mulher, que não se sabe a identidade, é o seguinte: “Ela era Lo, simplesmente Lo, pela manhã, com um metro e quarenta e sete de altura e usando apenas uma meia”. Há mais fotos de corpos femininos com partes da obra. Uma mostrava palavras que pareciam estar escritas nas costas de alguém: “Ela era Dolores na linha pontilhada”; Outra, um pescoço com a frase: “Ela era Polly na escola”.
Também foi divulgada uma captura de tela de uma conversa no WhatsApp, na qual uma pessoa discute o envio de meninas. O texto diz: “Não sei, tente mandar outra pessoa. Tenho uma amiga olheira que me mandou umas garotas hoje. Mas ela cobra 1000 dólares por garota. Vou te mandar garotas agora. Talvez alguma sirva para o J?”, em possível referência a Epstein. Em seguida, são enviados o nome — que, como de praxe, foi ocultado –, altura, medidas e peso. Na conversa, também é informado que a jovem tem 18 anos e que seu local de partida é a Rússia.
Como nos lotes anteriores, há fotografias de pessoas influentes do cenário americano. Um conjunto de fotos dos arquivos de Epstein divulgadas na semana passada mostra, além de Gates, o presidente Donald Trump ao lado de seis mulheres; o ex-estrategista de Trump, Steve Bannon; o ex-presidente Bill Clinton, do Partido Democrata; o cofundador da Microsoft, Bill Gates; o ex-presidente de Harvard, Larry Summers; além do cineasta americano Woody Allen.
A liberação dos documentos ocorre após a sanção, no mês passado, da Lei de Transparência dos Arquivos Epstein. Em declarações anteriores, um porta-voz de Clinton disse que o democrata cortou relações com o financista em 2019 e não tinha conhecimento dos abusos. Gates, por sua vez, indicou que estava arrependido de ter sido amigo de Epstein durante entrevista à emissora americana CNN em 2021: “Foi um grande erro passar tempo com ele, dar-lhe a credibilidade de estar lá”. Veja abaixo novas fotos de Gates e Chomsky.
Entenda o caso
Epstein conviveu com milionários de Wall Street, membros da realeza (notadamente, o príncipe Andrew) e celebridades antes de se declarar culpado de exploração sexual de menores em 2008. As acusações que o levaram à prisão em 2019 ocorreram mais de uma década após um acordo judicial que o protegia. Ele foi encontrado morto por enforcamento pouco mais de um mês após parar atrás das grades.
Como promessa de campanha, Trump disse que liberaria os documentos relacionados ao caso se retornasse à Casa Branca. Em janeiro, quando o republicano publicou arquivos sobre a investigação, um clima de insatisfação tomou conta: as informações divulgadas já eram conhecidas. Pressionado, o presidente dos EUA virou alvo de uma teoria da conspiração dentro da sua base política, a Make America Great Again (MAGA), de que está em uma lista secreta de pessoas que se beneficiavam do esquema de Epstein.
Em setembro, os democratas da Câmara divulgaram uma suposta carta de Trump a Epstein. O documento já havia sido publicado pelo jornal americano The Wall Street Journal em julho, mas o republicano negou a veracidade. Tratava-se de um desenho de uma mulher nua com mensagens insinuantes, parte de um álbum de aniversário organizado para o financista em 2003.
No X, antigo Twitter, os democratas afirmam que receberam o “bilhete de aniversário de Trump para Jeffrey Epstein, que o presidente disse não existir”, questionando: “O que ele está escondendo? Divulgue os arquivos!”, em referência aos apelos para que todos os documentos relacionados ao caso Epstein sejam tornados públicos. A nota assinada por Trump diz, dentro dos contornos de um corpo feminino: “Feliz aniversário – e que cada dia seja outro segredo maravilhoso”.
Em resposta, o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Taylor Budowich, alegou que a assinatura na carta não é de Trump. Também no X, ele compartilhou documentos assinados recentemente pelo presidente dos EUA numa tentativa de comprovar a falsificação. Mas uma reportagem do jornal americano The New York Times, publicada em 2016, mostra que a assinatura do republicano evoluiu e mudou com o passar do tempo. Os documentos obtidos pelo NYT mostram assinaturas muito parecidas com a do bilhete a Epstein.
A relação entre os dois é antiga: eles faziam parte de círculos sociais de elite de Nova York e da Flórida. Em 2002, Trump disse à revista New York que o financista era “fantástico” e “muito divertido de se estar por perto”. Ele também contou que a dupla se conhecia há 15 anos, acrescentando: “Dizem até que ele gosta de mulheres bonitas tanto quanto eu, e muitas delas são do tipo mais jovem”.





