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Itália bloqueia declaração comum da UE sobre a Venezuela

Governo italiano se recusa a reconhecer opositor Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela; entenda o porquê

Apesar de grande parte dos países da União Europeia (UE) ter reconhecido Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, o bloco não emitirá nenhuma declaração comum sobre o tema. Isso porque, segundo fontes diplomáticas, o posicionamento unânime foi bloqueado pela Itália, que vem se recusando a legitimar a liderança do opositor de Nicolás Maduro.

“Está claro que não haverá uma declaração comum no momento, já que ainda há os que se opõem a ele”, disse na segunda-feira 4 o chanceler espanhol Josep Borrell.

Várias fontes diplomáticas europeias explicaram que, embora a Grécia também tenha expressado suas reservas em relação à declaração comum proposta, foi a Itália que a bloqueou.

Em 26 de janeiro, vários membros da UE cobraram o atual presidente Nicolás Maduro para que iniciasse o procedimento legal para a convocação de eleições presidenciais democráticas “dentro de um prazo de oito dias”. O chavista, contudo, rejeitou o ultimato.

Ao todo, dezenove países do bloco legitimaram Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela: Alemanha, Áustria, Bélgica, Croácia, Dinamarca, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Holanda, Hungria, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Polônia, Reino Unido, República Checa, Portugal e Suécia.

O objetivo de algum desses países era que o bloco emitisse uma declaração comum, reconhecendo e apoiando o opositor “a fim de que convoque eleições presidenciais livres, justas e democráticas”. O bloqueio italiano e as ressalvas levantadas pela Grécia, contudo, brecaram a iniciativa.

Na UE, as posições comuns sobre política externa devem ser aprovadas por unanimidade.

Por que a Itália se recusa a reconhecer Guaidó?

O governo italiano, liderado pela coalizão entre o partido antissistema 5 Estrelas e o eurocético Liga Norte, se recusa a legitimar Guaidó, apesar de se identificar com a direita e muitas vezes criticar a esquerda radical.

Segundo o subsecretário de Relações Exteriores Manlio Di Stefano, a Itália tem buscado seguir o princípio de não-interferência, reconhecido pelas Nações Unidas.

“A Itália não reconhece Guaidó porque somos totalmente contra o fato de que um país ou um grupo de países terceiros pode determinar as políticas internas de outro país”, afirmou em entrevista ao canal TV2000.

Ainda segundo Di Stefano, o maior objetivo de seu governo em relação à Venezuela atualmente é impedir que uma guerra se instale no país, assim como aconteceu na Líbia após o início da interferência externa em 2011.

Há, contudo, desencontros dentro do próprio governo. O 5 Estrelas e o atual vice-premiê Luigi Di Maio defendem uma posição contrária à política externa dos Estados Unidos e sua atitude em relação à Venezuela, por isso se recusam a apoiar Guaidó.

Matteo Salvini, líder da Liga e atual ministro do Interior, quer o fim do regime de Maduro, segundo fontes do governo italiano.

Em entrevista nesta segunda, Salvini reconheceu que a Itália não está causando uma boa impressão. “Entendo que há sensibilidades diversas no governo e que parte de nossos aliados creem que devemos ser mais prudentes”, afirmou, sobre os outros países da UE.

Outras reservas

Apesar de terem sido os italianos quem bloquearam uma decisão comum europeia, países como Grécia e Irlanda também não reconheceram Guaidó como presidente interino.

Assim como a Itália, a Grécia rejeitou qualquer interferência nos assuntos internos da Venezuela e insistiu no diálogo entre as partes como solução para a crise no país bolivariano.

“Uma solução democrática significa que o povo da Venezuela decide seu próprio futuro. Qualquer tipo de interferência estrangeira deve ser evitado “, afirmou o ministro das Relações Exteriores do país, George Katrougalos, em um comunicado divulgado nesta segunda.

Já o chanceler da Irlanda, Simon Coveney, afirmou que, apesar de o seu país não ter pronunciado até agora, vê “com interesse” a atitude das outras nações europeias que legitimaram Guaidó. O ministro afirmou que discutiria a questão com o resto do Executivo irlandês.

 (Com AFP)