Guerra no Irã: tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz despenca 90%, diz consultoria
Rota responde por cerca de 20% de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo
O tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz caiu 90% em apenas uma semana, segundo dados divulgados nesta quarta-feira, 4, pela consultoria de análise marítima Kpler. A retração ocorre em meio à escalada do conflito no Golfo Pérsico e à campanha de retaliação conduzida pelo Irã após os ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel.
Na segunda-feira, a Guarda Revolucionária iraniana anunciou o fechamento da rota e afirmou que qualquer navio que tentasse cruzá-la seria incendiado. O gesto elevou a tensão a um novo patamar e consolidou, na prática, a interrupção de uma das principais artérias energéticas globais.
Segundo a empresa, o bloqueio anunciado por Teerã e a disparada dos prêmios de seguro marítimo praticamente paralisaram a circulação de embarcações comerciais na rota estratégica, por onde escoa cerca de 20% de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo. Antes mesmo da declaração formal de fechamento, navios já evitavam a travessia diante do aumento do risco e das incertezas sobre cobertura securitária.
“Ao contrário de outros tipos de embarcações, cujos movimentos praticamente cessaram, alguns petroleiros ainda estão cruzando o estreito de leste para oeste, em parte com seus transponders desligados”, afirmou Matt Wright, analista da Kpler. O desligamento dos sistemas de rastreamento, usado para reduzir a exposição a ameaças, torna as operações menos transparentes em uma das áreas mais sensíveis do planeta.
Em resposta, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que a Marinha americana poderá escoltar petroleiros para garantir o fluxo global de energia. A Casa Branca também estuda oferecer garantias e seguros contra risco político para embarcações que operem na região, numa tentativa de conter o estrangulamento da rota.
O Estreito de Ormuz responde por cerca de 20% de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo. A passagem liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar da Arábia, separando o Irã da Península Arábica. Em seu ponto mais estreito, tem apenas 33 quilômetros de largura, com faixas de navegação de cerca de 3 quilômetros em cada direção.
Com mais de 20 milhões de barris de petróleo e derivados passando diariamente pelo estreito, qualquer interrupção prolongada tende a pressionar ainda mais os preços da commodity e a alimentar temores de um novo choque energético global. Analistas já projetam um cenário de alta adicional no barril caso o impasse se estenda pelas próximas semanas, ampliando os riscos para a inflação e para a estabilidade econômica internacional.
Os membros da OPEP, Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque, exportam a maior parte do seu petróleo bruto pelo estreito, principalmente para a Ásia. O Catar, um dos maiores exportadores mundiais de gás natural liquefeito, envia quase toda a sua produção por lá.
Para o economista Sylvain Bersinger, fundador do escritório Bersingéco, essa situação faz “surgir o risco de um terceiro choque petrolífero, depois dos de 1973 e 1979 e após o choque do gás de 2022”.
“O cenário de um barril de petróleo que suba até 110 dólares (…) pode ser considerado um cenário crível”, disse à agência de notícias AFP.
Para economistas do banco francês Natixis, “qualquer interrupção duradoura” no estreito “teria implicações relevantes não apenas para os mercados de energia, mas também para a dinâmica da inflação e a estabilidade econômica global”.





