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Exército nigeriano abusou de mulheres resgatadas do Boko Haram

Documento da Anistia Internacional acusa as forças de segurança de confinar as mulheres, ameaçá-las e violentá-las

Por EFE 24 Maio 2018, 13h13

Milhares de mulheres e meninas nigerianas que sobreviveram à “dominação brutal” do grupo armado Boko Haram foram submetidas a abusos pelas forças de segurança da Nigéria, denunciou nesta quinta-feira (24) a Anistia Internacional (AI) em um novo relatório.

O documento acusa o exército nigeriano e a milícia Força Especial Conjunta Civil de separar as mulheres de seus maridos e de confiná-las em “campos-satélites” remotos, onde as violentavam. Às vezes, em troca de comida. A organização diz que suas conclusões foram enviadas às autoridades nigerianas, mas que, até agora, não recebeu nenhuma resposta.

A Anistia Internacional diz ter recopilado provas de que milhares de pessoas morreram de inanição nos campos de acolhida de Borno, estado do nordeste da Nigéria, desde 2015.

“É estarrecedor que pessoas que sofreram tanto com o Boko Haram tenham sido condenadas a sofrer também terríveis abusos nas mãos do exército nigeriano”, lamenta Osai Ojigho, diretora da AI na Nigéria, segundo um comunicado de imprensa. “Em vez de receber proteção das autoridades, as mulheres e as meninas foram obrigadas a submeterem-se ao estupro para não morrer de fome”, acrescenta.

Segundo a organização, em alguns casos, os abusos parecem ser parte de uma campanha de perseguição a toda pessoa que pareça ter algo a ver com o Boko Haram. Muitas das mulheres detidas desde 2015 tinham sido vítimas de sequestro ou casamento forçado pelas mãos do grupo armado e, ao em vez  de resgatá-las, o exército as deteve por as consideraram “esposas do Boko Haram”, acrescenta a ONG.

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  • A AI informa que seu relatório foi o resultado de uma investigação para a qual foram realizadas mais de 250 entrevistas e que abrangeu os campos-satélites estabelecidos pelo exército em sete cidades do estado de Borno, entre elas Bama, Banki, Rann e Dikwa.

    O documento contém também entrevistas com 48 mulheres e meninas que estiveram detidas e um material de vídeos, fotografias e imagens de satélite. As mulheres afirmam ter sido espancadas e chamadas de “esposas do Boko Haram” pelos agentes dos serviços de segurança ao denunciar o tratamento que tinham recebido, segundo a ONG.

    A AI acrescenta que dezenas de mulheres descreveram como soldados e membros da Força Especial Conjunta Civil valiam-se da força e de ameaças para violentá-las nos campos-satélites, em muitos casos se aproveitando da fome para obrigá-las a serem suas “namoradas”, o que significava estar sexualmente à sua disposição o tempo todo.

    A ONG denuncia ainda que as pessoas confinadas nos campos-satélites sofreram uma grave falta de alimentos entre o início de 2015 e meados de 2016, quando aumentou a assistência humanitária. Apenas no campo do hospital de Bama morreram pelo menos centenas, embora possivelmente fossem milhares, durante esse período, segundo a AI.

    O Boko Haram luta para impor um Estado islâmico na Nigéria, país de maioria muçulmana no norte e predominantemente cristão no sul, uma região rica em petróleo. Mais de 20.000 pessoas morreram desde o começo da insurgência jihadista em 2009 e, segundo a ONU, cerca de 1,6 milhão de pessoas se viram forçadas a deixar seus lares.

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