Europa acusa EUA de minar Otan e ordem global; Washington nega e reage com cobrança
Relatório da Conferência de Segurança de Munique alerta que maior ameaça ao sistema internacional vem de Washington e fala em 'autoritarismo' de Trump
O embaixador americano na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Matthew Whittaker, rejeitou nesta segunda-feira, 9, o diagnóstico do relatório da Conferência de Segurança de Munique, que afirmou que a maior ameaça à ordem internacional “vem de dentro” devido à mudança de postura dos Estados Unidos em relação às suas alianças. O diplomata insistiu que Washington não deseja desmantelar a Otan nem minar o sistema internacional, mas voltou a exigir que a Europa “assuma o ônus” de sua defesa.
Whittaker afirmou que o objetivo americano é simplesmente “equilibrar” a forma como as obrigações de segurança recaem sobre os diferentes membros da Otan, pressionando os europeus a “fazerem mais e a serem capazes e fortes, porque essa força é o que garante a paz”.
“Essa é a primeira coisa que rejeito; estamos tentando fortalecer a Otan, não nos retirar ou rejeitá-la, mas sim fazê-la funcionar como deveria, como uma aliança de 32 aliados fortes e capazes”, disse ele ao ser questionado sobre o tema por repórteres em Munique.
Ele acrescentou, dias antes da conferência que acontecerá a partir desta sexta-feira, que os parceiros europeus precisam de fato aumentar seus gastos com defesa e demonstrar que podem “cumprir” suas promessas, incluindo as novas metas orçamentárias estabelecidas no ano passado após pressão do governo Donald Trump.
A expectativa é que a Europa “se iguale, pois esperamos que ela se fortaleça e compartilhe o ônus da segurança europeia com os Estados Unidos, assumindo, em última instância, a defesa convencional do continente europeu, juntamente com o abrangente guarda-chuva nuclear americano”, declarou o embaixador.
Whitaker também afirmou que, em relação ao comércio, pretende contestar o acordo comercial “injusto” com a Europa, acusando os países do velho continente de “se aproveitarem” dos Estados Unidos por meio de “um enorme superávit comercial”. Ele disse ainda que Washington fica frustrada com o fato dos europeus terem “muito discurso e pouca ação”, acusando os aliados da Otan de gastarem mais tempo discutindo problemas do que resolvendo-os.
Relatório revela “dolorosa” constatação da Europa
O relatório lançado na cerimônia de abertura da Conferência de Segurança de Munique destacou que a Europa precisa ser mais assertiva para responder à mudança de postura dos Estados Unidos, algo que o texto qualificou como uma “constatação dolorosa”. A necessidade de maior autonomia militar também é reconhecida.
O documento, que prepara o terreno para um confronto ideológico total com a Casa Branca na conferência desta sexta, acusa Trump de ter sede de destruição e de se aliar ao presidente russo, Vladimir Putin. “A maior parte da Europa observa a descida dos Estados Unidos rumo ao ‘autoritarismo competitivo’ com crescente preocupação, ou mesmo horror, questionando a resiliência da democracia americana”, diz.
Segundo o relatório, os Estados Unidos se afastaram dos princípios liberais que sustentaram a ordem pós-Segunda Guerra Mundial e que Washington pode estar criando agora uma ordem pós-americana. “Enquanto os defensores das políticas do presidente Trump acreditam que elas ‘tornarão a América grande novamente’, os críticos argumentam que elas equivalem, essencialmente, ao ‘suicídio de uma superpotência'”, o texto diz.
O diagnóstico acrescenta que lideranças europeias perceberam que a dependência das Forças Armadas americanas e a “política de acomodação” estão chegando ao limite, pois “é quase impossível” fazer frente a exigências do governo Trump, como “acordos comerciais que contrariam as regras do livre comércio”, ou a “violações flagrantes da soberania de outros países” quando a Europa está suscetível a “táticas coercitivas”.
O relatório sugere que líderes europeus precisam se adaptar às técnicas do governo Trump e serem mais ousados na forma como tomam decisões.
“Para resistir aos demolidores de forma eficaz, é preciso muito mais coragem política e pensamento inovador. Os atores que defendem as regras e instituições internacionais precisam ser tão ousados quanto aqueles que buscam destruí-las”, observa o relatório. “Em uma era de política de demolição, aqueles que simplesmente se omitem correm o risco constante de serem sepultados.”
Baques para a aliança transatlântica
Em um discurso agora infame na Conferência de Segurança de Munique do ano passado, o vice-presidente americano, J.D. Vance, afirmou que as elites europeias estavam suprimindo a liberdade de expressão e “abrindo as portas” para a imigração em massa. O discurso marcou o momento em que a Europa percebeu que o governo Trump não seria mais um parceiro confiável em termos comerciais e de segurança.
Desde então, lideranças europeias e o governo americano têm travado uma série de batalhas contínuas sobre temas como a pressão dos Estados Unidos para forçar a Ucrânia a fazer concessões territoriais à Rússia, as ameaças de Trump de anexar a Groenlândia e uma série de medidas protecionistas de Washington, como tarifas e proibições de investimento estrangeiro.
O baque à aliança transatlântica, que definiu a ordem mundial como se conhece hoje, ficou evidente em um discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, no mês passado, do primeiro-ministro canadense, Mark Carney. Ele alertou para uma ruptura entre os Estados Unidos e seus históricos parceiros ocidentais.
A avaliação de Vance sobre o declínio da Europa foi reforçada na mais recente estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, que acusou líderes europeus de supervisionarem um “apagamento civilizacional”. Mais recentemente, Trump menosprezou a coragem com que os soldados europeus da Otan lutaram no Afeganistão, declarações que causaram profunda indignação entre militares no continente.






