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Esquerda, volver

Indo contra a corrente do populismo de direita, Espanha aumenta presença dos socialistas no Parlamento e reforça posição do primeiro-ministro Pedro Sánchez

Na contramão da tendência política que avança na Europa e em outras partes do mundo, os espanhóis foram às urnas no domingo 28, nas eleições legislativas, e deram uma vitória expressiva ao socialista PSOE, que estava no poder mas em condições precárias. Mesmo fortalecidos com o resultado, os socialistas moderados terão trabalho para debelar as duas crises do país: a que sacode a economia, com desemprego preocupante, e a que desafia a unidade nacional, com o recrudescimento do separatismo catalão.

Chamou atenção a presença maciça de eleitores (76%, mobilização excepcional em qualquer país onde o voto não é obrigatório). A baixa abstenção é indício de que há uma vontade real de impedir o avanço de polos radicais, à esquerda e à direita. O próximo governo, mais uma vez, terá de fazer alianças. O PSOE do primeiro-ministro Pedro Sánchez, o rosto jovem — 47 anos — de um partido tradicional, passou de 84 para 123 parlamentares. O Partido Popular, a direita moderada que compõe a segunda maior força política, perdeu metade de seus 134 assentos (agora são 66), o pior desempenho de sua história. Na extrema esquerda, o Podemos encolheu de 71 para 42 cadeiras. Na extrema direita, que conseguiu transpor o trauma deixado por quase meio século de ditadura franquista, o novato Vox fez 24 legisladores, mas ficou abaixo do previsto nas pesquisas. “É a primeira vez desde o fim do franquismo que a extrema direita consegue entrar no Parlamento”, disse a VEJA Maria Dantas, advogada brasileira naturalizada espanhola que também se elegeu. Sergipana de origem humilde que vive na Espanha há 25 anos e trabalha em movimentos sociais, Maria foi votar vestindo uma camiseta estampada com o rosto de Marielle Franco, vereadora carioca assassinada há um ano, e diz ter como bandeira a defesa dos direitos humanos e dos imigrantes.

O partido de Maria, Esquerda Republicana da Catalunha, cresceu de nove para quinze parlamentares, tornando-se a maior representação catalã no Parlamento. Seu líder, Oriol Junqueras, é um dos separatistas que estão sendo julgados em Madri por promoverem um referendo unilateral e proclamarem a independência da Catalunha em 2017. A questão foi um tema central de campanha — segundo as pesquisas, a maioria dos espanhóis é contra a separação e, na Catalunha, as opiniões se dividem meio a meio — e impulsionou tanto a consolidação do Vox, virulentamente nacionalista, quanto o avanço do PSOE, mais favorável a compromissos. “O crescimento do Vox ajudou muito a mobilização da esquerda, que o viu como uma ameaça à democracia”, diz o cientista político Fernando Bertoa.

Além do separatismo, que também varre regiões como a Andaluzia e o País Basco, o novo governo terá de lidar com o desemprego acima de 15%, a necessidade de uma reforma previdenciária e a queda do crescimento econômico, que está em 2,4% e não deve passar de 1,9% no ano que vem. Para formar o gabinete, a aliança mais provável de Sánchez é com o Podemos. Mas ele, como todos os dirigentes da Europa, não deve decidir nada antes da eleição para o Parlamento Europeu, que ocorrerá no fim do mês — termômetro da política na União Europeia aguardado com grande expectativa.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2019, edição nº 2633

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