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Ernesto Araújo diz que Brasil não teria problemas em trabalhar com Biden

Para chanceler, eventual derrota de Trump para adversário democrata não alteraria relações brasileiras com os EUA

Por Da Redação - Atualizado em 29 jul 2020, 06h19 - Publicado em 28 jul 2020, 15h22

Apesar do alinhamento automático ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o Brasil não terá problemas em lidar com Joe Biden caso o democrata seja eleito para a Casa Branca neste ano, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Em entrevista à Bloomberg publicada na segunda-feira 27, o chanceler disse que o Brasil está pronto para qualquer resultado em novembro, apesar de críticas da oposição americana às políticas ambientais e à situação de direitos humanos no Brasil, além de alertas recentes contra interferências na eleição. 

Segundo uma pesquisa recente da ABC News/Washington Post, Trump está quinze pontos porcentuais atrás do ex-vice-presidente Biden. Uma eventual mudança em Washington pode ser um golpe para o presidente Jair Bolsonaro, que, assim como seus filhos, tenta associar sua imagem à do americano. Bolsonaro mostra afinidade com o líder americano tanto na forma simples de se comunicar quanto no conteúdo de seus discursos. 

“Tenho certeza que, em um eventual governo democrata, com certos ajustes a gente conseguiria manter uma agenda muito positiva”, disse ele, em entrevista por vídeo. “Os presidentes Bolsonaro e Trump têm uma relação muito próxima, que tem trazido avanços muito importantes, mas esses avanços são entre Brasil e EUA, não entre os dois presidentes.”

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A relação entre a família Bolsonaro e Trump, no entanto, parece girar em grande parte em torno da figura do republicano. Em setembro de 2019, segundo o blog do jornalista Lauro Jardim, diplomatas presentes em uma reunião antes da Assembleia Geral das Nações Unidas relataram que o presidente brasileiro disparou “I love you” (eu te amo, em inglês) para o americano. Em troca, Trump teria respondido “nice to see you again” (bom te ver de novo). 

No mesmo dia da entrevista, o presidente do Comitê de Relações Internacionais da Câmara dos EUA, Eliot Engel, se manifestou fortemente contra o apoio do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) à reeleição de Trump 

“Já vimos esse roteiro antes. É vergonhoso e inaceitável. A família Bolsonaro precisa ficar fora das eleições nos EUA”, escreveu Engel no perfil do Comitê de Relações Exteriores, citando um post de Eduardo Bolsonaro em que aparece a frase “Trump 2020” e uma propaganda política de sua campanha. 

Não é a primeira vez que uma comissão da Câmara dos Deputados dos EUA se manifesta contra a relação entre Trump e Bolsonaro. Em junho, o Comitê de Assuntos Tributários mostrou-se contra os planos da Casa Branca de negociar acordos com o governo brasileiro. Entre as razões apontadas estão as políticas de direitos humanos e meio ambiente de Bolsonaro.

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O estilo comum foi acentuado pela pandemia, no início da qual ambos os líderes minimizaram, e ainda minimizam, a ameaça do vírus, que já deixou mais de 650.000 mortos em todo o mundo. 

Sob comando de Araújo, o governo brasileiro também se juntou aos EUA contra um “inimigo” em comum: a China. Antes mesmo de assumir, Bolsonaro já mobilizava uma retórica que apresentava a China como potencial ameaça, como forma de mobilizar sua base de apoio. No entanto, o volume das exportações brasileiras está muito concentrado no mercado chinês, à medida que 25% das exportações têm a China como destino. Além disso, as exportações encontram-se altamente concentradas em torno de três produtos: soja, minério de ferro e petróleo, que responderam em 2019 por 75% dos envios ao países. 

Apesar de ter rendido frutos, como a permissão para exportação de carne fresca brasileira aos EUA e acordos na área da Defesa, o alinhamento tem sido visto como “subserviência” por diversas figuras. Em artigo recente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os ex-chanceleres Aloysio Nunes Ferreira, Celso Amorim, Celso Lafer, Francisco Rezek e José Serra criticaram a postura brasileira, expressando preocupação com a “sistemática violação pela atual política externa dos princípios orientadores das relações internacionais do Brasil”. 

O texto, que também contou com o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero e o ex-secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência, Hussein Kalou, também cita o “desmoronamento da credibilidade externa, perdas de mercado e fuga de investimentos”.

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