A Pont Neuf — que o nome não traia a informação — é a mais antiga ponte de Paris. Foi construída entre 1578 e 1607. No lado direito do Rio Sena beija o Museu do Louvre e atravessa a Île de la Cité, e na margem esquerda encosta na mítica região de Saint-Germain-des-Prés. Tanta antiguidade não a fez estagnar no tempo — a travessia não para de se renovar, como se fosse uma passarela para o futuro. Agora mesmo ela foi engolida por uma estrutura de tecido preenchida com ar. São 120 metros de comprimento e 18 metros de altura de uma obra intitulada A Caverna da Pont Neuf. A instalação é do artista plástico francês JR, uma espécie de Bansky das plagas de lá. O resultado é impressionante: para quem olha de pontos mais baixos do rio, o monumento parece ter desaparecido sob um penhasco pré-histórico, com suas aberturas de pedra transformadas em entradas escuras de grutas. A ideia é uma homenagem a outra transformação da estrutura, em 1985. Naquele ano, o artista búlgaro Christo embrulhou a construção com um tecido dourado, depois de uma década de discussões com a prefeitura, atraindo 3 milhões de curiosos em duas semanas. O atual trabalho poderá ser visto de 6 a 28 de junho. JR, em livre pensar, diz ter imaginado a invenção como referência à alegoria da Caverna de Platão, na qual prisioneiros confundem sombras em uma parede com o mundo real. “Quais são nossas cavernas hoje? Nossos celulares”, diz. É um bom ponto, e outros milhões devem brotar na cabeça de quem atravessar a escuridão artificial.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998





