Em meio à escalada com a Venezuela, chefe militar dos EUA na América Latina deixa cargo
Segundo agência de notícias Reuters, Alvin Holsey foi pressionado pelo secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, a renunciar
O almirante responsável pelas forças militares dos Estados Unidos na América Latina, Alvin Holsey, se aposentou nesta sexta-feira, 12, dois anos antes do previsto. A saída ocorre em meio à escalada das tensões entre EUA e Venezuela, reflexo do envio de forças americanas ao Caribe e Pacífico em suposto cerco ao narcotráfico. Na quarta-feira, 10, o presidente Donald Trump informou que havia apreendido um petroleiro na costa venezuelana, uma ação definida como “ato de pirataria internacional” pelo regime de Nicolás Maduro.
Três autoridades americanas e duas pessoas familiarizadas com o assunto disseram, sob condição de anonimato, à agência de notícias Reuters que Holsey foi pressionado a deixar o cargo pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth. Segundo as fontes, Hegseth estava frustrado com o Comando Sul por desejar flexibilizar as operações militares na América Latina.
Holsey anunciou em 16 de outubro que renunciaria ao posto em dezembro. Um funcionário afirmou à Reuters que Hegseth avaliou demitir o almirante duas semanas antes do anúncio surpresa de sua saída. Em discurso na cerimônia de aposentadoria, o almirante apelou para que os EUA continuem a apoiar aliados na defesa da democracia.
“Devemos sempre estar presentes para parceiros com ideias semelhantes, nações com ideias semelhantes que compartilham nossos valores: democracia, estado de direito e direitos humanos”, disse Holsey no quartel-general do Comando Sul em Miami.
Parte das fontes especularam que Holsey, na verdade, era contrário aos recentes ataques americanos contra supostos navios de narcotráfico no Caribe — ao menos 83 tripulantes foram mortos nas explosões. O militar, contudo, descartou discordâncias durante uma reunião a portas fechadas com parlamentares de alto escalão na última terça-feira, 9, informou o deputado republicano Mike Rogers ao portal de notícias americano Politico.
Acredita-se que Frank Donovan, vice-comandante do Comando de Operações Especiais dos EUA, será nomeado pelo presidente Donald Trump como sucessor. A escolha deverá ser aprovada pelo Senado. No momento, o vice de Holsey, Evan Pettus, assume como chefe interino.
Não é a primeira vez, contudo, que um almirante renuncia em meio a um momento tenso da história americana. Em 2008, o comandante do Comando Central, William Fallon, se aposentou um ano após assumir o comando do braço no Oriente Médio, pouco depois de fazer comentários que irritaram o governo de George W. Bush.
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Tensão no Caribe
No final de outubro, Trump revelou que havia autorizado a CIA a conduzir operações secretas dentro da Venezuela, aumentando as especulações em Caracas de que Washington quer derrubar o ditador Nicolás Maduro. Fontes próximas à Casa Branca afirmam que o Pentágono apresentou a Trump diferentes opções, incluindo ataques a instalações militares venezuelanas — como pistas de pouso — sob a justificativa de vínculos entre setores das Forças Armadas e o narcotráfico.
Os EUA acusam Maduro de liderar o Cartel de los Soles — designado organização terrorista estrangeira em novembro — e oferecem uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à captura do chefe do regime chavista. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também foi acusado por Trump de ser “líder do tráfico de drogas” e “bandido”. Em paralelo, intensificam-se os ataques a barcos de Organizações Terroristas Designadas, como define o governo americano, no Caribe e no Pacífico. Ao menos 83 tripulantes foram mortos.
Há poucas semanas, militares americanos de alto escalão apresentaram opções de operações contra Caracas a Trump. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, e outros oficiais entregaram planos atualizados, que incluíam ataques por terra. Segundo a emissora CBS News, a comunidade de Inteligência dos EUA contribuiu com o fornecimento de informações para as possíveis ofensivas na Venezuela, que variam em intensidade.
O planejamento militar ocorre em meio à crescente mobilização militar americana na América Latina e ao aumento das expectativas de uma possível ampliação das operações na região, em atos considerados como “execuções extrajudiciais” pela Organização das Nações Unidas (ONU). Além do porta-aviões, destróieres com mísseis guiados, caças F-35, um submarino nuclear e cerca de 6.500 soldados foram despachados para o Caribe, enquanto Trump intensifica o jogo de quem pisca primeiro com o governo venezuelano.
Os incidentes geraram alarme entre alguns juristas e legisladores democratas, que denunciaram os casos como violações do direito internacional. Em contrapartida, Trump argumentou que os EUA já estão envolvidos em uma guerra com grupos narcoterroristas da Venezuela, o que torna os ataques legítimos. Autoridades afirmaram ainda que disparos letais são necessários porque ações tradicionais para prender os tripulantes e apreender as cargas ilícitas falharam em conter o fluxo de narcóticos em direção ao país.
Dados das Nações Unidas enfraquecem o discurso de caça às drogas. O Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 indica que o fentanil — principal responsável pelas overdoses nos EUA — tem origem no México, e não na Venezuela, que praticamente não participa da produção ou do contrabando do opioide para o país. O documento também aponta que as drogas mais usadas pelos americanos não têm origem na Venezuela — a cocaína, por exemplo, é consumida por cerca de 2% da população e vem majoritariamente de Colômbia, Bolívia e Peru.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na última sexta-feira, 14, revelou que apenas 29% dos americanos apoiam o uso das Forças Armadas dos Estados Unidos para matar suspeitos de narcotráfico, sem o devido processo judicial, uma crítica às ações de Trump. Em um sinal de divisão entre os apoiadores do presidente, 27% dos republicanos entrevistados se opuseram à prática, enquanto 58% a apoiaram e o restante não tinha opinião formada. No Partido Democrata, cerca de 75% dos eleitores são contra as operações, e 10% a favor.





