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Eles chegaram. E agora?

A caravana de migrantes da América Central está na fronteira com a Califórnia, pronta para pedir asilo. É um desafio para Trump

Por Thais Navarro - 23 nov 2018, 07h00

Começou. Após mais de um mês de viagem a pé, de carro, de carona, na carroceria de caminhões e em ônibus, a primeira leva dos cerca de 10 000 migrantes da América Central que seguem em caravana para os Estados Unidos está fincando acampamento em Tijuana, no México. No cobiçado outro lado da fronteira situa-se San Diego, cidade da Califórnia que fica a quinze minutos de carro (e duas cercas, sensores, câmeras e holofotes) de distância. Desde que a marcha se iniciou, em meados de outubro, na cidade hondurenha de San Pedro Sula, o presidente Donald Trump, um cruzado contra a imigração, despejou tuítes e declarações alertando para o perigo de “hordas de criminosos” invadirem o país. A poucos dias da eleição legislativa de 6 de novembro, ele despachou quase 6 000 soldados para a fronteira com ordens para usar a força — “inclusive letal” — na proteção das patrulhas e dos funcionários americanos.

Os migrantes se dizem ameaçados pelas gangues sanguinárias que proliferam na América Central e reivindicam asilo. O risco de vida é um dos argumentos mais prontamente atendidos pela imigração americana. “Asilo está previsto em leis internacionais. Essas pessoas fogem desesperadas”, diz o sociólogo Philip Kasinitz, da Universidade da Cidade de Nova York. A burocracia nos Estados Unidos era mínima: bastava entrar no território e se entregar a uma patrulha para ter o pedido encaminhado. No dia 9 deste mês, Trump assinou um decreto exigindo que cada candidato a asilo se inscreva em um posto de fronteira e aguarde permissão para entrar nos país. Na terça 20, um juiz concedeu liminar suspendendo o decreto de Trump, por ser inconstitucional.

EM MARCHA –  Migrantes a caminho dos EUA: fugindo da violência Pedro Pardo/AFP
Arte/VEJA

Pelo sim, pelo não, os migrantes em Tijuana estão registrando o nome na lista em vez de simplesmente entrar em território americano. O posto em San Diego tem capacidade para processar 100 pedidos por dia, e demora em média seis semanas para o processo começar a andar. Segundo cálculos do prefeito de Tijuana, Juan Manuel Gastélu, vai levar no mínimo seis meses para que todos os migrantes sejam atendidos. O primeiro abrigo montado para eles, em um ginásio esportivo, já está lotado. O México ofereceu acolhida permanente e 7 000 empregos, mas o diretor de serviços migratórios de Tijuana, César Anibal Chávez, queixa-se de que a oferta não teve andamento. “Estamos sozinhos para resolver isso”, diz. Pior: a população da cidade, conhecida pela hospitalidade, alarmou-se com o número de recém-chegados e foi às ruas protestar. Ninguém arrisca um palpite sobre como essa situação — a um só tempo explosiva e dramática — vai acabar.

Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2018, edição nº 2610

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