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Egípcios contestam reforma da Praça Tahrir, berço da Primavera Árabe

Críticos ao governo dizem que projeto aumenta o controle sobre o espaço para evitar protestos futuros; arqueólogos temem danos a monumentos

Por Da Redação - 10 ago 2020, 18h10

A Praça Tahrir, palco dos protestos contra o governo do Egito durante a Primavera Árabe, foi reinaugurada após uma reforma sob duras críticas de parte da população. Com monumentos faraônicos e seguranças particulares, autoridades dizem que o objetivo é embelezar um dos pontos mais importantes do Cairo, mas a população teme que o projeto aumente o controle sobre o espaço e dificulte futuras manifestações.

O governo egípcio diz que a praça foi “melhorada”, inspirada em famosas praças da Europa, como a Plaza de la Merced, em Málaga, na Espanha – reformada no início deste ano. O efeito grandioso da reforma, que inclui desde nova iluminação e prédios repintados até um obelisco de 19 metros de altura descoberto em um sítio arqueológico no delta do Nilo, chegou a atrair elogios nas redes sociais.

Contudo, críticos do novo regime, que em 2013 destituiu o primeiro presidente eleito livremente do Egito após o levante dois anos antes, dizem que a reforma conduzida pelo Centro de Embelezamento do Governo do Cairo pretende varrer para baixo do tapete os tempos tumultuosos e o derramamento de sangue anteriores. Segundo o órgão governamental, a reforma “expressa um retorno à aparência que tinha no início, antes da revolução”.

“A mensagem principal é que as pessoas não pertencem à praça e a praça não pertence às pessoas. Esta é uma praça que pertence ao Estado”, disse Khaled Fahmy, professor de História da Universidade de Cambridge que participou dos protestos de 2011.

Milhares de manifestantes se aglomeraram em 2011 na Praça Tahrir para demandar reformas políticas e processos contra membros do governo do ex-ditador do Egito, Hosni Mubarak – 8/07/2011 Mohamed Abd El-Ghany/Reuters

Além do medo de que o projeto aumente o controle do espaço público pelo governo, alguns arqueólogos se preocupam com a preservação de quatro esfinges de arenito colocadas em uma rotatória movimentada.

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As quatro estátuas de 3.000 anos de idade, com o corpo de um leão e a cabeça de um carneiro, vêm do templo de Karnak, na cidade de Luxor. Sua transferência para o Cairo foi condenada por arqueólogos e conservacionistas, que dizem que a poluição da cidade vai danificar os monumentos históricos.

Simbolismo político

A Praça Tahrir ficou conhecida mundialmente como o berço da revolta que derrubou o ditador Hosni Mubarak em 2011. Dois anos depois, manifestantes ocuparam a praça novamente para demandar a remoção do presidente Mohamed Mursi, eleito após a queda de Mubarak.

Mursi foi substituído por Abdel Fattah al-Sisi, o então chefe do Exército, e seus apoiadores enxergam sua ascensão ao poder como uma correção que permitiu a estabilização do Egito após a Primavera Árabe.

Segundo uma inscrição na base do obelisco instalado no centro da praça, o lugar passou a simbolizar a “firmeza” da população, representada pela revolução anticolonial em 1919 e os eventos de 2011, mas “tornou-se um símbolo dos egípcios e de sua liberdade na revolução de 30 de junho (2013)”.

A singela distinção sugere o pensamento oficial. Para os oponentes de Sisi e da reforma em Tahrir, 2013 marcou o início de uma repressão abrangente que encerrou a atmosfera de liberdade no país.

Em setembro do ano passado, protestos anti-Sisi desencadearam um bloqueio de segurança em torno da praça e uma onda de prisões. A fiscalização de pedestres dentro e ao redor da praça se tornaram mais comuns. Nas últimas semanas, guardas de segurança da empresa egípcia Falcon Group tornaram-se presenças constantes na região.

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