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Divórcio à italiana

O direitista Matteo Salvini manobra para antecipar eleições, o governo cai e, de novo, buscam-se partidos que formem uma coalizão

Por Caio Mattos Atualizado em 30 jul 2020, 19h40 - Publicado em 23 ago 2019, 06h30

A notícia nem tem novidade: desfez-se mais uma coalizão na Itália e o país se prepara para a formação de seu 65º governo pós-II Guerra (que acabou há 74 anos). O que tornou esta crise diferente das outras foram seus protagonistas, dois novatos na cena política, e a evidente manobra de um deles, Matteo Salvini, para tentar colocar a extrema direita, pela primeira vez, no comando de um país da linha de frente da União Europeia. Não deu certo, mas, na fragmentada política de uma nação vergada por uma avassaladora crise econômica, a ameaça continua presente. Na quinta-feira 22, o presidente Sergio Mattarella se preparava para anunciar uma coalizão entre o populista antitudo Movimento 5 Estrelas (M5S) e o Partido Democrático (PD), um agrupamento de legendas de centro-esquerda, para formar um novo governo.

Como até ontem os agora prováveis parceiros só trocavam insultos, Salvini, a mais poderosa motoniveladora da política italiana hoje, conta com desentendimentos futuros para a aliança se esfacelar e o Parlamento ser obrigado a convocar o que ele mais deseja: eleições antecipadas. A ultradireitista Liga, que ele lidera, tem hoje 39% das intenções de voto, uma façanha para os padrões locais. O líder direitista repartia a coalizão que se desfez com Luigi Di Maio, do M5S, a agremiação que teve mais votos na eleição de março de 2018 (mas não o suficiente para governar sozinha). Como os dois também não se suportam, acordou-se que seriam vices de um primeiro-ministro de fachada, Giuseppe Conte. No começo do mês, com pouco mais de um ano de mandato corrido, Salvini deu o bote: denunciou a “incompetência e falta de ação” do M5S e encaminhou ao Parlamento uma inusitada moção de não confiança em sua própria coalizão — o primeiro passo para o voto antecipado. Na terça-feira 20, diante dos deputados reunidos, o apagado primeiro-ministro Conte fez desandar a massa que Salvini colocara no forno: renunciou ao cargo e pôs em marcha o movimento para a formação de um novo governo.

Além de atrapalhar os planos de Salvini, Conte, no discurso de renúncia, passou-lhe um sabão de uma hora — com ele bem ao lado, fazendo cara de paisagem. “É irresponsável deflagrar uma crise de governo por interesses pessoais e partidários”, bradou. Na mesma noite o líder da Liga teria outro desgosto: um procurador da Justiça autorizou o desembarque no porto de Lampedusa, na Sicília, de cerca de oitenta imigrantes, em sua maioria africanos, que havia dezenove dias vagavam no barco de uma ONG em águas italianas, nas piores condições possíveis. Salvini, que também era ministro do Interior, fez da imigração seu saco de pancadas preferencial e pouco antes comemorara, rosário em punho (um gesto habitual), a aprovação de uma lei que endurece as punições a navios e organizações que prestem ajuda para cruzar o Mediterrâneo.

Rezando, além do rosário, na bíblia do nacionalismo extremado, o líder da Liga, enquanto esteve no governo, também tratou de desafiar a União Euro­peia recusando-se a conter o descontrolado déficit público de 2,2 trilhões de euros, comprando briga com a França ao posar com os coletes-amarelos e aproximando-se de partidos irmãos na Polônia e na Hungria. Carismático, histriônico, contador de vantagens, um ás nas redes sociais, Salvini, com seus gestos grandiosos, engoliu Di Maio, 33 anos, político inexperiente que, até se candidatar, tinha como emprego levar torcedores aos seus lugares em um estádio de futebol. Nas eleições para o Parlamento Europeu, em maio, a Liga fez 28 deputados e o M5S, catorze. “Salvini soube explorar o medo em relação à economia e à segurança para fortalecer sua base”, avalia Francesco Clementi, cientista político da Universidade de Perugia.

Com crescimento zero, desemprego nas alturas, um déficit equivalente a 130% do PIB, a Itália preparava-se agora para, encerradas as férias de verão, discutir o Orçamento de 2020, peça fundamental em qualquer esforço para estimular investimentos e tirar o país do buraco. Em vez disso, enfrenta mais uma crise de liderança. Um governo dividido por Di Maio e Nicola Zingaretti, o líder do Democrático (e quem sabe tendo Conte de volta, na função de bombeiro), pode vingar — tirando Salvini, ninguém quer antecipar eleições. Mas não promete, pelos ressentimentos acumulados: o M5S saiu do nada para ser o mais votado em 2018 desancando as instituições e o governo da época, liderado justamente pelo PD. Nem Maquiavel daria conta do ninho de cobras que sibilam no Parlamento da Itália hoje em dia.

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2019, edição nº 2649

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