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Disparada de casos de coronavírus testa sistema de saúde da Espanha

Médicos e enfermeiros espanhóis têm denunciado a situação caótica vivida nos hospitais, além da falta de materiais e respiradores para atender pacientes

Por Da Redação - Atualizado em 26 mar 2020, 18h38 - Publicado em 26 mar 2020, 18h09

A pandemia de coronavírus tem uma nova vítima na Europa: a Espanha. O país já registrou 56.197 casos desde o início da crise, além de 4.145 mortes. Somente nas últimas 24 horas, foram 655 óbitos no país. O aumento dos números foi vertiginoso na última semana e está testando o sistema de saúde nacional.

O governo instaurou um confinamento quase total desde 14 de março para reduzir o risco de transmissão. A quarentena deve durar até, pelo menos, 11 de abril. Mesmo assim, desde sexta-feira 20, o número de mortos quadruplicou.

A Espanha é o segundo país do mundo com mais mortos pela Covid-19, atrás apenas da Itália. No entanto, as autoridades destacaram o forte aumento de pessoas curadas e a redução nos números diários de mortos que, nesta quinta-feira, 26, aumentou 19%. Na quarta-feira, quando se alcançou um recorde de 738 mortos, a elevação fora de 27%.

O ritmo de infecções também tem sido moderado. Nesta quinta-feira, o aumento de casos foi de 18%, dois pontos porcentuais a menos do que nos dois últimos dias. Fernando Simón, diretor do Centro de Emergências Sanitárias, indicou que “87% dos mortos têm mais de 70 anos”.

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Com muita cautela, o ministro da Saúde, Salvador Illa, disse que “os dados dos últimos dias indicam uma mudança de tendência”, e que “o número de casos pode estar se aproximando de seu limite”. No entanto, alertou que, uma vez ultrapassado esse limite, haverá “um efeito de acumulação” nos hospitais, devido ao prolongado período de internação que muitos pacientes necessitam.

Sistema no limite

O sistema de saúde, contudo, já está no limite, e o governo vem sendo cada vez mais cobrado sobre a questão. A situação é crítica em diversos hospitais do país, onde profissionais de especialidades distintas foram mobilizados para atender o fluxo de pacientes, e as unidades de cuidados intensivos estão sobrecarregadas.

Os profissionais denunciam, além disso, uma falta aguda de material de proteção, principalmente máscaras, assim como respiradores e equipamentos para fazer mais diagnósticos.

A Espanha pediu nesta semana ajuda à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para obter máscaras, testes rápidos e ventiladores para assistência respiratória. O país ainda comprou milhões de testes de uma empresa chinesa – mas, segundo o jornal El País, os exames realizados com esses kits de diagnósticos mostraram eficácia de apenas 30%.

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Muitas das Unidades de Terapia Intensiva (UTI) do país operam com o dobro de sua capacidade, segundo o El País. Para dar conta da demanda, alguns hospitais passaram até mesmo a comprar respiradores diretamente dos fornecedores, sem passar pelo Ministério da Saúde.

Há também problemas em outros serviços prestados pelo Ministério. Mais de 450.000 idosos no país recebem atendimento domiciliar, segundo dados de 2018. Há semanas, os sindicatos dos trabalhadores da área de saúde se queixam da falta de equipamentos de proteção para que seus funcionários entrem nas casas dos dependentes. Até o momento, a situação não foi completamente resolvida.

‘Estão morrendo pessoas que poderiam ser salvas’

Médicos e enfermeiros espanhóis têm denunciado a situação caótica vivida nos hospitais. Sara Chinchilla é pediatra, tem 32 anos, e trabalha em Móstoles, perto de Madri. O fluxo de pacientes em seu hospital levou a equipe médica a privilegiar a admissão nas UTIs daqueles com maior chance de sobrevivência, ou seja, os mais jovens e sem patologias prévias.

“Eu tenho cinco pacientes e apenas um leito. Então tenho que escolher. Estão morrendo pessoas que poderiam ser salvas, mas que não podem entrar na UTI”, explica. Sara lamenta a falta de material em seu centro. Nos últimos dias, há “mais máscaras”, porém “o que mais precisamos são respiradores. Muito mais vidas poderiam ser salvas se houvesse respiradores”.

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Regina Dalmau, de 48 anos, é cardiologista do hospital de La Paz, em Madri, e há semanas trata pacientes com o novo coronavírus. “Quando você sai do hospital, fica mais triste. Estão sozinhos (os pacientes), quando morrem, morrem sozinhos. Quando você chega em casa, precisa digerir, chorar. Ninguém imaginaria isso”.

Regina diz que vê “situações muito dramáticas”, como as dos pacientes que estão morrendo, cuja despedida será cruelmente breve. “Você pede que um membro da família venha e diga adeus, com a condição de não apresentar sintomas ou de ter convivido com o paciente nos últimos cinco dias. Pode ficar dez minutos, mas não se aproximar. “A solidão é bilateral e é imensa”.

Ecoando essas preocupações, o sindicato de enfermeiras pediu kits de exames e medidas drásticas para ajudar a amparar os hospitais de Madri, que estão à beira do colapso.

Cerca de 14% de todas as infecções afetam agentes de saúde, o que o chefe de Emergências de Saúde, Fernando Simon, atribuiu à disponibilidade limitada de equipamentos de proteção e a vários surtos iniciais do vírus em hospitais.

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Sonia Pacho, uma enfermeira de 48 anos, trabalha no hospital Galdácano, perto de Bilbao, onde trabalhava a primeira agente de saúde falecida por coronavírus na Espanha, uma enfermeira de 52 anos. “Foi um golpe, você sente muita impotência”. “Há colegas que estão reutilizando a máscara até a eternidade”. No entanto, ela recorda: “uma máscara não é eterna”. No hospital, “a atmosfera de tensão é palpável”, embora haja “muita vontade” e solidariedade entre os colegas.

Irene Sanz, pediatra de um hospital de Valladolid, está em casa com seus dois filhos pequenos desde que testou positivo para coronavírus em 13 de março. “Eu tive 39 graus de febre por vários dias, um total de 10 dias completos de febre, com muita dor muscular, cansaço e um pouco de tosse. Fiquei exausta”.

Agora está melhor e na próxima semana espera testar negativo. “Quero voltar ao trabalho, porque muitos profissionais estão ficando doentes. Mas também tenho medo do que vou encontrar”, acrescenta a médica de 35 anos.

(Com AFP e Reuters)

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