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Crise na fronteira entre Tailândia e Camboja se agrava, deixa mortos e derruba primeira-ministra

Confrontos reabrem disputa centenária, deixam mortos nos dois lados, deslocam milhares e provocam crise política

Por Ernesto Neves 9 dez 2025, 08h12 • Atualizado em 9 dez 2025, 08h41
  • A escalada dos confrontos entre Tailândia e Camboja ao longo de uma fronteira disputada há mais de um século já deixou ao menos dez mortos e forçou a fuga de dezenas de milhares de pessoas em menos de 48 horas.

    A violência rompeu o frágil cessar-fogo costurado em julho pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentado à época como um feito diplomático histórico e celebrado por Phnom Penh, que chegou a indicá-lo ao Nobel da Paz.

    Os combates se espalharam por seis províncias do nordeste tailandês e cinco do norte cambojano. O governo do Camboja afirma que sete civis foram mortos por bombardeios tailandeses, com cerca de 20 feridos.

    Do lado tailandês, três soldados morreram, enquanto mais de 125 mil moradores foram levados a abrigos temporários. A força aérea da Tailândia confirmou ataques aéreos, mas não divulgou detalhes. Ambos os governos acusam o outro de disparar contra áreas civis com artilharia, foguetes e drones.

    A disputa territorial entre os dois países remonta ao período posterior à ocupação francesa do Camboja, quando a linha fronteiriça foi traçada.

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    O ponto mais sensível é a área que abriga um templo do século 11, cuja tentativa de registro pelo Camboja como patrimônio mundial da Unesco, em 2008, reacendeu tensões e gerou choques esporádicos ao longo dos anos. Só em julho, mais de 40 pessoas morreram em combates intensos após a morte de um soldado cambojano.

    O novo ciclo de violência tem repercussões políticas em Bangcoc. A então premiê Paetongtarn Shinawatra, herdeira de uma das dinastias mais influentes da política tailandesa, caiu em agosto após a divulgação de uma ligação telefônica com o ex-ditador cambojano Hun Sen, na qual o chamava de “tio” e criticava um comandante militar tailandês.

    O áudio vazou em meio ao agravamento das tensões na fronteira e alimentou críticas de que Paetongtarn teria favorecido interesses cambojanos. Sua queda encerrou um breve retorno da família Shinawatra ao poder.

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    A fragilidade do cessar-fogo mediado por Washington já era apontada por analistas regionais. Para Chhengpor Aun, do think tank cambojano Future Forum, não haveria vantagem para Phnom Penh em violar o acordo, já que o Camboja tem menor capacidade militar e econômica. Ele afirma que não é possível verificar quem disparou primeiro, mas diz que a trégua era impopular na Tailândia, onde o governo enfrenta eleições nos próximos meses.

    Especialistas cambojanos também descrevem o cenário como “muito alarmante” e pedem a mediação da Asean, cujo presidente rotativo, o premiê malaio Anwar Ibrahim, estaria disposto a intervir.

    No terreno, a expansão dos combates obrigou o reforço da segurança até em Bangcoc, a 150 quilômetros das áreas atingidas, que nesta semana sedia os Jogos do Sudeste Asiático.

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    A Tailândia prometeu proteção máxima aos atletas cambojanos, enquanto Phnom Penh retirou metade de sua delegação por medo de ataques, cancelando a participação em oito modalidades.

    As acusações de violações ao cessar-fogo se multiplicam. O Ministério da Informação do Camboja afirma que a Tailândia bombardeou “indiscriminadamente” uma cidade densamente povoada na província de Pursat, chamando o ataque de “desumano e brutal”. Bangcoc sustenta que apenas respondeu ao fogo vindo de Preah Vihear, em território cambojano.

    Com o recrudescimento da violência e a ausência de diálogo, cresce a pressão internacional para que o conflito seja mediado. Trump pediu que os dois países cumpram integralmente o acordo de julho, mas governos da região afirmam que, sem intervenção externa, o conflito pode se aprofundar.

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