Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Covid-19 na Europa: não é a segunda onda

Países mostram que quanto mais se sabe sobre o novo coronavírus, melhor se combate a subida da curva e menos pessoas morrem

Por Julia Braun Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 25 mar 2021, 22h34 - Publicado em 9 out 2020, 06h00

Quase oito meses se passaram desde que o primeiro caso de contágio pelo novo coronavírus foi detectado na Europa, no fim de janeiro, importado da China para a Bavária. Superada a fase mais dramática de contaminação e mortes, que impulsionou um isolamento em massa das famílias em suas casas como o mundo nunca viu, o continente que virou espelho da pandemia para o mundo ocidental obser­va agora uma moderada, mas ainda preocupante, retomada na curva de infectados pela Covid-19. Na segunda semana de setembro, os países europeus em bloco registraram 41 000 novos casos diários, 12% mais do que na pior semana de abril. No fim do mês, a França contabilizou seu recorde de novas infecções em 24 horas, levando o governo a temporariamente fechar bares e cafés, limitar o movimento nas lojas e estimular o home office. Estatísticas semelhantes elevaram o alerta no Reino Unido, Espanha, Holanda e Bélgica, igualmente afetados pela reimposição de quarentenas nas áreas de maior incidência.

Especialistas, porém, não configuram esse conjunto de ocorrências como uma segunda onda, considerando que sua extensão e potencial de estrago não se equiparam à violência do princípio. “O que temos agora são surtos localizados que podem ser contidos com base no conhecimento já acumulado sobre a doença”, diz David Heymann, epidemiologista e ex-diretor executivo do Grupo de Doenças Transmissíveis da Organização Mundial da Saúde (OMS). Além de os contágios não se espalharem por toda parte como nos primeiros meses, a Europa exibe índices de lotação de hospitais e de mortalidade pelo vírus muito menores. No pico da epidemia europeia, a média diária de óbitos girava em torno de 2 130 — agora está em 185. Na Espanha, onde o número de mortes por 100 000 habitantes ainda se encontra quase 2 pontos porcentuais acima do restante da Europa, a taxa hoje representa 11% dos trágicos dados de abril. Em Paris, as unidades de terapia intensiva se esvaziaram: foram 74 internações desde 16 de julho, contra mais de 200 por dia no primeiro semestre. A queda nas taxas de mortalidade reflete vários fatores que se afunilam em uma conquista da ciência: a Covid-19 deixou de ser um mistério.

A medicina conhece melhor o novo coronavírus e aplica esse avanço nos tratamentos hospitalares — pacientes virados de bruços, por exemplo, conseguem receber mais oxigênio nos pulmões. Medicamentos existentes, como o antiviral Remdesivir, e terapias experimentais, como a dexametasona — ambos aplicados no presidente americano Donald Trump (veja reportagem na pág. 58) —, provaram fazer efeito nos casos mais graves. Também ficou comprovada a importância de combater o vírus logo cedo, o que levou a comunidade médica a rever protocolos e recomendar a busca por socorro assim que os primeiros sintomas forem identificados. Conta ainda o fato de os mais vulneráveis, principalmente idosos, seguirem rigidamente o isolamento social. Nos últimos meses, os alvos principais do vírus têm sido os jovens entre 20 e 39 anos, resistentes à doença.

BASTA - Protesto contra restrições: a OMS alerta para a “fadiga pandêmica” -
BASTA - Protesto contra restrições: a OMS alerta para a “fadiga pandêmica” – (Marcos del Mazo/Getty Images)

O aumento da testagem, em comparação com a subnotificação do início da pandemia, é mais um fator de peso na virada para cima da curva de contágio na Europa. A Alemanha, desde o início referência em controle da pandemia, pulou de 20 000 para 150 000 testes por dia, em média. A França e a Espanha foram de 40 000 para 145 000 e 90 000, respectivamente. “Acreditamos que, no início, o total de casos era até quinze vezes maior do que o documentado e a taxa de mortalidade calculada não era real. Agora, com mais testes disponíveis nas ruas, farmácias e escolas, a proporção de óbitos está diminuindo”, diz o brasileiro Pércio de Souza, engenheiro e presidente do Instituto Estáter, que vem compilando dados e análises sobre a pandemia desde o marco zero.

A forma como a Europa tem lidado com a subida recente nos números de contágio tem sido implantar quarentenas menos radicais e mais concentradas na área de risco — até porque os europeus não estão dispostos a encarar um novo isolamento drástico. As ruas de Paris, Berlim, Londres e outras cidades lotaram de pessoas nos últimos dias protestando contra o fechamento de bares e lojas e, no caso do nordeste britânico, contra um lockdown quase total — evidência de um fenômeno que a Organização Mundial da Saúde batizou de “fadiga pandêmica”. “Os países conseguem rastrear com mais eficácia os casos e possíveis contatos, limitando os bloqueios a áreas e comunidades em que há um real perigo de surto”, explica Heymann. A abordagem se aproxima da que foi aplicada na Suécia, muito criticada ao optar por manter lojas e restaurantes abertos e não interromper o ano escolar. O distanciamento social e as máscaras lá nunca foram obrigatórios, apenas recomendados em locais de maior contágio. O número de mortos per capita chegou a ser o mais alto do mundo em maio, mas as taxas caíram lentamente desde então. “O isolamento radical provou ser eficiente para atrasar a curva pandêmica e ajudar o sistema de saúde a se preparar para o combate ao vírus. Mas ele não vai livrar os países da doença”, ressalta Souza. O novo coronavírus continua presente, mas, felizmente, já se sabe mais como lidar com ele e freá-lo. Ainda bem.

Publicado em VEJA de 14 de outubro de 2020, edição nº 2708

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.