Conflito no Irã expõe fissuras entre grupo do Brics, com posição complicada do Brasil
Enquanto Rússia e China mantêm relações estreitas com o Irã, Índia e alguns membros árabes têm vínculos mais próximos com EUA e Israel
A escalada do conflito no Oriente Médio, desencadeado por ataques americanos e israelenses ao Irã, provocou reações diplomáticas divergentes entre os países do Brics. Enquanto Rússia e China mantêm relações estreitas com Teerã e se opõem à influência militar dos Estados Unidos na região, posição que vem sendo parcialmente ecoada pelo Brasil – cheirando a encrenca para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — a Índia e alguns membros árabes do bloco têm vínculos políticos e militares mais próximos de Washington e de Israel.
Brasília, Moscou e Pequim foram os integrantes que reagiram de forma mais dura à ofensiva conjunta contra a nação persa, que vem sendo bombardeada desde o último sábado 28 por Israel e Estados Unidos. O Ministério das Relações Exteriores brasileiro emitiu uma nota sobre os ataques no sábado, condenando a ação israelo-americana.
“O governo brasileiro condena e expressa grave preocupação com os ataques realizados hoje (28/2) por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã. Os ataques ocorreram em meio a um processo de negociação entre as partes, que é o único caminho viável para a paz, posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região”, disse o Itamaraty.
Na segunda-feira, o Brasil divulgou uma segunda nota sobre o conflito no Oriente Médio na qual condenou os ataques de retaliação do Irã.
“O Brasil insta todas as partes a respeitar o Direito Internacional e condena quaisquer medidas que violem a soberania de terceiros Estados ou que possam ampliar o conflito, tais como ações retaliatórias e ataques contra áreas civis (…) o Brasil se solidariza com a Arábia Saudita, o Bahrein, o Catar, os Emirados Árabes Unidos, o Iraque, o Kuwait e a Jordânia — objetos de ataques retaliatórios do Irã em 28 de fevereiro”, disse a nota.
O presidente russo, Vladimir Putin por sua vez, classificou a ofensiva e a morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, como uma “violação cínica de todas as normas de moralidade humana e do direito internacional”, segundo a agência de notícias russa Tass. Moscou mantém uma relação estratégica com Teerã, especialmente na área militar. O Irã é um dos principais fornecedores de drones utilizados pela Rússia na guerra na Ucrânia, o que tem aprofundado a cooperação entre os dois países nos últimos anos.
A China, que é um dos maiores compradores do petróleo iraniano sancionado, também condenou a ofensiva contra a República Islâmica. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Mao Ning, afirmou que o ataque e a morte do líder iraniano representam uma “grave violação da soberania e da segurança do Irã”, e declarou que Pequim “se opõe firmemente” à ação.
Outros integrantes do Brics, no entanto, adotaram posições diferentes. Nova Délhi evitou condenar diretamente a ofensiva conduzida pelos Estados Unidos e Israel, mas o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, criticou posteriormente os ataques realizados pelo Irã contra bases americanas em países do Golfo. Seu governo, além disso, tem ampliado nos últimos anos sua cooperação estratégica com Israel, sobretudo na área de defesa.
“A Índia condena os recentes ataques à Arábia Saudita em violação da sua soberania e integridade territorial”, disse o premiê em seu perfil no X.
Entre os países árabes que mais recentemente passaram a integrar o Brics, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, as declarações oficiais concentraram-se principalmente nas retaliações iranianas. Ambos condenaram os disparos de mísseis contra bases militares localizadas em seus territórios e classificaram as ações como uma violação de sua soberania.
Em junho de 2025, quando o Irã também foi alvo de ataques aéreos dos EUA e Israel, o Brics divulgou uma nota conjunta sobre o episódio. Segundo a BBC News Brasil, porém, a adoção de uma posição única sobre o conflito deste ano é mais improvável. Segundo uma fonte do governo brasileiro que conversou com a emissora, fatores como a dimensão atual da crise e o fato de a presidência rotativa do bloco de países em desenvolvimento estar nas mãos da Índia dificultariam um posicionamento semelhante ao adotado no ano passado.





