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Como o lockdown total de Xangai impacta economias em todo o globo

Mal planejado, o fechamento da cidade resultou em caos, com supermercados desabastecidos e atendimento médico nulo para quem não sofre de Covid

Por Ernesto Neves Atualizado em 4 jun 2024, 12h12 - Publicado em 23 abr 2022, 08h00
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  • CONTROLE - Guarda monitora avenida da cidade: todos em casa -
    CONTROLE - Guarda monitora avenida da cidade: todos em casa - (Hector Retamal/AFP)

    Metrópole dinâmica e cosmopolita, centro avançado de finanças e manufaturas, um nível de riqueza patente na quantidade de Teslas de luxo circulando nas ruas, Xangai é uma das raras cidades da China que nunca param. Ou era. Por força de uma aceleração dos casos de Covid-19, hoje na faixa dos 25 000 diários, o governo baixou lá o rigoroso lockdown com que insiste em combater o novo coronavírus e, da noite para o dia, fez dos 25 milhões de habitantes prisioneiros em suas casas. O destino dos que testam positivo é pior: são isolados em enormes galpões e em prédios de apartamentos confiscados,onde passam dias amontoados, sem ter o que fazer.

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    Mal planejado, o fechamento da cidade resultou em caos, com supermercados desabastecidos, farmácias sem remédios e atendimento médico nulo para quem não sofre de Covid. A entrega de comida porta a porta padece de atrasos e erros de programação. Em rara mostra de insatisfação, ousadia fiscalizada pelo mais eficiente aparato repressivo do planeta, que pode render anos de cadeia, desde o início de abril os moradores protestam diariamente nas janelas e abarrotam o Weibo, o Facebook chinês, com críticas e relatos de sufoco.

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    arte Xangai

    A política de Covid zero seguida na China, que consiste em lockdowns seletivos por bairros, testagem em massa e centros de isolamento, já foi motivo de orgulho para o governo do presidente Xi Jinping, por ter mantido o país funcionando enquanto o resto do mundo amargava infecção descontrolada e recessão. Mas a variante ômicron, altamente transmissível, reativou o intragável lockdown total, que afeta cidades inteiras (por aplicar apenas as vacinas nacionais, menos eficazes, a China continua a controlar a epidemia através do bloqueio de contágio). “Precisamos superar o medo. Não podemos deixar as coisas ao acaso”, justificou Xi ao ordenar uma intervenção federal em Xangai. Crianças contagiadas chegaram a ser separadas dos pais e isoladas, mas a medida causou tamanha indignação que foi revogada. Guardas e drones controlam cada esquina, transmitindo avisos ameaçadores. “Xangai é uma cidade globalizada e sofisticada”, diz Jane Duckett, cientista política da Universidade de Glasgow, na Escócia. “A falta de comida e o rigor das autoridades chocaram os moradores”.

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    Megalópole equivalente a três Nova Yorks, Xangai é o coração da frenética máquina de produção chinesa. Na área metropolitana, montadoras e fábricas de semicondutores, celulares, cosméticos e eletroeletrônicos produzem mercadoria escoada pelo porto mais movimentado do planeta e por um dos três maiores aeroportos do mundo, onde circulam 100 milhões de passageiros por ano. Além de sediar as principais empresas do país, a cidade tem a terceira maior bolsa de valores, atrás apenas da de Nova York e da Nasdaq. Com tudo isso paralisado, estima-se que o prejuízo do PIB nacional alcance 46 bilhões de dólares mensais. Sem produção, a demanda por commodities, inclusive minério de ferro brasileiro, despencou, impactando gigantes do setor, como a Vale. A suspensão de linhas de montagem afetou a Pegatron, crucial produtora de iPhones, que deixou de montar 3 milhões de aparelhos, ameaçando os estoques da Apple. “O lockdown de Xangai é mais uma grande dor de cabeça para a cadeia de suprimentos global, já impactada pela guerra da Ucrânia, a inflação em toda parte e paralisações anteriores devido à pandemia”, diz Alfred Wu, professor de políticas públicas da Universidade Nacional de Singapura.

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    CAOS - Prateleira vazia: corrida às compras antes do fechamento -
    CAOS Prateleira vazia: corrida às compras antes do fechamento // (Alex Plavevksi/EPA/EFE)

    Por causa da ômicron, o freio brusco na locomotiva chinesa se repetiu em outras regiões. De acordo com a consultoria financeira Nomura, do Japão, 200 milhões de pessoas estão sob alguma forma de lockdown na China, o que deve inviabilizar a meta de 5% — modesta para os padrões locais — de crescimento do PIB neste ano. A nova variante também explicitou as falhas na distribuição de vacinas — cálculos do próprio governo mostram que 92 milhões de chineses com mais de 65 anos não tomaram todas as doses recomendadas. Os desafios internos ocorrem em um momento crítico para Xi, que espera ser reeleito para seu terceiro mandato no segundo semestre. “As ocorrências em Xangai criaram um ambiente desafiador”, diz Victor Shih, especialista em China, da Universidade da Califórnia em San Diego. É complicação suficiente para multiplicar os ainda milagrosamente raros fios brancos na cabeça do presidente.

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    Publicado em VEJA de 27 de abril de 2022, edição nº 2786

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