Como o escândalo Epstein atinge o coração do governo trabalhista do Reino Unido
Caso arrasta para o cadafalso um diplomata muito próximo ao primeiro-ministro Keir Starmer
Parece infindável, e cada vez mais assustador, o tsunâmi provocado com a divulgação, pelo Departamento de Justiça americano, de 3 milhões de arquivos atrelados à investigação dos crimes do financista Jeffrey Epstein, que colecionava meninas para seu prazer sexual e de amigos e que foi encontrado morto na cadeia em 2019. Na rede já caíram personagens como o ex-ministro francês da Cultura Jack Lang; o bilionário Bill Gates, criador da Microsoft; e o príncipe destituído de suas funções na Inglaterra, Andrew Mountbatten-Windsor. Houve até manchas na reputação de figuras supostamente impolutas, como o pensador Noam Chomsky, hoje com 97 anos, um dos ídolos da esquerda mundial. Todos, sem exceção, hoje lamentam a proximidade com o abusador, como se só pudessem medir o risco da amizade depois de iluminado o estrago.
Uma nova página do escândalo acaba de atingir o coração do governo do primeiro-ministro trabalhista do Reino Unido, Keir Starmer, cuja administração caminha para o cadafalso — até a quinta-feira 12, ele permanecia no cargo, em balança mas não cai. O abalo sísmico foi provocado por um lorde curiosamente apelidado de “príncipe das trevas”, dada sua desenvoltura nas sombras da política: Peter Mandelson. Dono de cargos de destaque no Partido Trabalhista pelas últimas quatro décadas, o que não mudou sob Starmer, ele foi demitido do posto de embaixador em Washington em setembro do ano passado, quando parte dos arquivos de Epstein mostrou que manteve proximidade com o violador mesmo depois de sua condenação por prostituição de menores, em 2008. O imbróglio, porém, ganhou proporções inéditas agora. Entre piadas sobre strippers e menções a um tal “jovem bem dotado”, o diplomata compartilhou informações sigilosas com Epstein na época em que era secretário de Negócios e Comércio do trabalhista Gordon Brown (2007-2010). O marido de Mandelson, o brasileiro Reinaldo Ávila da Silva, também teria recebido 10 000 libras do bilionário americano.
Embora Starmer jamais tenha conhecido Epstein, visitado sua ilha (onde se acredita que a maior parte dos abusos tenha acontecido) ou trocado e-mails com ele, a indignação foi instantânea e generalizada. “Um líder mais forte talvez pudesse superar o que se desenha como o mais grave escândalo político britânico do século, mas ele coleciona fracassos e perdeu a confiança dos eleitores”, diz Tim Bale, professor de ciência política na Queen Mary University de Londres. Starmer assumiu o leme do número 10 da Downing Street, em julho de 2024, com 61% de popularidade, segundo as pesquisas. Tem agora escassos 17%, e não há dúvida de que descerá a ladeira ainda mais nas próximas sondagens.
A polícia de Londres abriu uma investigação contra Mandelson, que se desligou da sigla na tentativa de conter a chaga. Não funcionou. No domingo 8, Morgan McSweeney, o chefe de gabinete e braço direito de Starmer, que fez lobby pela nomeação à embaixada americana daquele que era seu mentor, deixou o cargo, seguido pelo chefe de comunicação da atual gestão. “É um governo completamente à deriva, com o primeiro-ministro sendo levado pelo vento como um saco plástico. Ele deveria sair”, disse a oposicionista Kemi Badenoch, do Partido Conservador. Anas Sarwar, chefe do braço escocês do Partido Trabalhista, teve coragem de ecoar as críticas. “A liderança precisa mudar. Houve erros demais”, afirmou. O premiê fez o de sempre: acusou o parceiro de “trair o país” e se disse incomodado com o fato de ele ter escondido a profundidade do relacionamento com Epstein. “Me arrependo de ter acreditado nas mentiras dele. Peço perdão”, disse perante o Parlamento, que exige acesso aos documentos relacionados à contratação do ex-embaixador, para muitos a autoridade mais apta a lidar com o vaivém tarifário de Donald Trump (que, aliás, passou razoavelmente ileso pelo escândalo).
A estrada pela frente para Starmer é péssima, quando se olha para o retrovisor do que entregou. Com os ingleses sentindo no bolso os efeitos de uma economia ainda sob o impacto do Brexit, a saída da União Europeia, em 2020, ele não mostrou força para tirar do papel as medidas necessárias para uma virada. No ano passado, enfrentou uma rebelião dentro do próprio partido devido às tentativas de reforma do sistema de bem-estar social, que acabou sendo aprovada em formato desidratado.
A pressão pela renúncia é imensa. Uma possibilidade, para não arrastar para a lama todo o trabalhismo, seria convencer oitenta parlamentares do partido a convocar uma eleição interna e votar em um novo líder, que pelas regras do sistema parlamentarista se tornaria primeiro-ministro. Os próximos dias serão decisivos.
Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982





