Como ataques de Trump a latinos e a show de Bad Bunny podem ser tiro no pé de republicanos
Alienação de eleitores latinos pode ser risco para seu partido nas midterms, eleições onde o controle do Congresso está em jogo
Quando Donald Trump venceu as eleições presidenciais dos Estados Unidos 2024, um grupo de eleitores inusitado, por seu histórico apoio ao Partido Democrata, o ajudou a cruzar a linha de chegada. No pleito, ele recebeu a maior porcentagem de votos latinos (46%) do que qualquer outro republicano na história do país.
Mas após um ano de cerco implacável e brutal à imigração, coroado no último domingo 8 com críticas contumazes ao show do cantor porto-riquenho Bad Bunny no intervalo do Super Bowl (uma belíssima homenagem à América Latina, mas que o presidente descreveu como “afronta à grandeza americana”), o cenário está virando. O Partido Republicano teme que o desdém de seu líder custe a maioria da legenda no Congresso daqui a nove meses, quando acontecem as midterms.
O voto latino é vasto e diverso, abrangendo comunidades de diferentes origens, poder econômico e tamanho. Coletivamente, no entanto, eles formam o maior bloco eleitoral não branco do país, totalizando mais de 36 milhões de pessoas. Um retorno substancial de hispânicos arrependidos ao Partido Democrata — movimento ainda tímido, mas que já ganhou apelido de nueva onda — complicaria ainda mais as eleições de meio de mandato para os republicanos.
Uma pesquisa recente da emissora americana CBS News revelou que o apoio a Trump entre os americanos de origem hispânica caiu para 38%, um declínio acentuado em relação ao pico de 49% no início de 2025, quando ele retornou à Casa Branca (outra, da YouGov, mostra uma queda de 13 pontos, de 41% para 28%).
Os dados mostram que esses eleitores apoiaram inicialmente o republicano, em sua maioria, pela insatisfação com a economia durante o governo Joe Biden. Agora, 61% deles desaprovam a maneira como o presidente americano gere a economia, e mais ainda (69%) reclamam das políticas direcionadas ao combate à inflação.
Tensão pós-críticas
Diante desse cenário, pode não ter sido boa ideia bater em Bad Bunny. Ele não fez no Super Bowl protestos políticos da mesma natureza de seu discurso ao ganhar o principal prêmio no Grammy (quando bradou contra a polícia de imigração americana: “Fora ICE!”), mas, com uma mensagem de união nacional, emocionou o público mundo afora com referências à cultura da América Latina, convidados amados como Ricky Martin e Pedro Pascal, o recado de que “América” é um continente e não apenas um país, e alimentou o combalido orgulho latino. Com ao menos 135 milhões de espectadores, segundo dados preliminares, bateu o recorde de audiência alcançado ano passado pelo rapper Kendrick Lamar.
“O show do intervalo do Super Bowl é absolutamente terrível, um dos piores DE TODOS OS TEMPOS! Não faz sentido, é uma afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência”, reagiu Trump em uma publicação na sua rede, a Truth Social. “Este ‘show’ é apenas um ‘tapa na cara’ do nosso país, que está estabelecendo novos padrões e recordes todos os dias.”
O presidente americano não compareceu ao Super Bowl. Na semana passada, disse que o porto-riquenho era uma “escolha terrível” para o show do intervalo e sugeriu que a atração principal era um dos motivos pelos quais ele evitaria ir à final do campeonato da National Football League (NFL) na Califórnia (onde o Seattle Seahawks atropelou o New England Patriots).
“Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo, e a dança é repugnante, especialmente para as crianças pequenas que estão assistindo em todos os Estados Unidos e no mundo inteiro”, ele disparou. “Não há nada de inspirador nessa bagunça de show do intervalo e, podem apostar, vai receber ótimas críticas da mídia de fake news, porque eles não têm a menor ideia do que está acontecendo no MUNDO REAL.”
Não caiu bem nem entre os republicanos. O portal de notícias Politico destacou a indignação de figuras de peso dentro do partido, como Vianca Rodriguez, estrategista da campanha em 2024 para os latinos, que afirmou que “alienar a base conservadora porto-riquenha é erro crasso”. Alexis Wilkins, cantora e namorada do diretor do FBI, Kash Patel, alertou os republicanos de que eles “precisam melhorar sua mensagem, pois a de união nacional, proposta por Bad Bunny, foi fantástica”.
Harrison Fields, ex-conselheiro de Comunicação da atual Casa Branca, disse que “minha avó porto-riquenha é 100% americana e votou em Trump”. Emily Austin, guru conservadora, lembrou ser “possível celebrar diferentes origens e amar este país”. E até Logan Paul, influenciador alinhado ao movimento MAGA (“Make America Great Again“), ponderou que “porto-riquenhos são americanos e deve-se celebrar a oportunidade de mostrar o incrível talento da ilha”.
Risco nas eleições
O voto arrependido dos hispânicos garantiu as vitórias de democratas nas disputas para o governo de Nova Jersey em 2025 e, neste ano, à vaga para o Senado estadual no Texas, com migração de 26 pontos percentuais de eleitores de Trump para o candidato democrata, um líder sindical, em distrito conservador — segundo pesquisas e analistas, muitos deles insatisfeitos com a alta no custo de vida.
Uma repetição em novembro dessa margem no estado, que tem substantiva população latina, e nos vizinhos Arizona e Novo México, provocaria um terremoto no trumpismo.
Ainda assim, a Casa Branca vê como válida a estratégia de instigar a polarização com o tema da imigração e críticas a latinos descritos como “criminosos” que “invadem” os Estados Unidos pela fronteira como isca para a base MAGA ir às urnas em novembro. O comparecimento nas midterms costuma ser menor que nas eleições presidenciais, o partido de oposição é geralmente favorecido e a direita não contará com Trump nas cédulas. Então, para incentivar eleitores republicanos a saírem de casa, ataques como os que houve ao show de Bad Bunny poderão ser a arma de escolha para reduzir o possível tombo.
Mas pode haver um efeito contrário. Somado ao desprezo para com o ídolo de americanos de todas as cores e as promessas econômicas que não se concretizaram, o cerco a imigrantes com operações cada vez mais truculentas do ICE, que já levaram à morte de dois ativistas em Minnesota, pode galvanizar a base democrata e levar muito mais hispânicos do que o esperado às urnas contra os republicanos. Se a tendência se confirmar, seria um enorme tiro pela culatra.





