Com conflito no Irã e alta do petróleo, o mundo treme diante da ameaça de crise econômica
Cabe agora a Trump apontar algum caminho — que, em suas palavras, será glorioso — para a luz no fim do túnel
Prestes a entrar em sua terceira semana, a guerra deslanchada por Estados Unidos e Israel contra o Irã repercute com intensidade planeta afora, como não podia deixar de ser diante de uma turbulência de tal dimensão estremecendo um dos pontos mais voláteis do mundo. Enquanto as bombas seguem caindo sobre Teerã e fraturando o poderio militar do país, o governo dos aiatolás não dá indícios de capitulação — pelo contrário. A retaliação do regime transborda para além do território israelense e das bases americanas no Oriente Médio e mira hotéis, aeroportos e — crucial neste e em qualquer contexto — a infraestrutura petrolífera no Golfo Pérsico, arrastando pelo menos quinze países e 7,5 milhões de pessoas para o furacão. Em termos globais, a consequência mais gritante do conflito na região assentada sobre imensas reservas de petróleo é a convulsão nos preços do combustível que continua a mover Ocidente e Oriente. A impressão geral é que, justificadas ou não, as bombas precisam parar de cair. A questão é: como sair dessa?
Isolado depois que seu “eixo da resistência” — Hamas, Hezbollah e outros grupos em países vizinhos que armou e subsidiou — não resistiu e se esfacelou (leia a coluna de Vilma Gryzinski), e agora enfraquecido por ataques aéreos ininterruptos que mataram o líder supremo, Ali Khamenei, e dezenas de integrantes da elite do poder, dizimaram sua Marinha (a força aérea já havia sido destroçada na “guerra dos doze dias”, em junho passado) e afetaram a capacidade de lançar mísseis, o regime iraniano se mantém fechado a negociações. No domingo 8, Mojtaba Khamenei, 56 anos, foi nomeado sucessor do pai, em mensagem desafiadora do regime. “Fiquei decepcionado”, declarou Donald Trump, que já havia qualificado a indicação de “inaceitável”.
Usando o petróleo como arma, para aflição geral, o governo iraniano está danificando petroleiros — na quinta-feira 12, lanchas carregadas de explosivos incendiaram três embarcações a caminho do Estreito de Ormuz, nesga oceânica de menos de 40 quilômetros de largura por onde passa 20% do combustível que abastece o planeta, onde teria começado a plantar minas. Ainda que a capacidade de lançar mísseis esteja reduzida, o Irã dispõe de imenso arsenal de drones camicases — o país é praticamente o inventor desse armamento, com o pioneiro Shahed, mambembe, mas mortífero. Segundo a Agência Internacional de Energia, as escaramuças de agora representam “a maior perturbação do fornecimento em toda a história”, com a oferta reduzida em 10 milhões de barris por dia. Para amenizar o corte, a AIE liberou, na quarta-feira 11, 400 milhões de barris de reservas emergenciais. “Nós vamos determinar o fim da guerra”, declarou a Guarda Revolucionária Islâmica, sem muito fundamento na realidade bélica, mas evidenciando a disposição de elevar o custo global do conflito para pressionar os Estados Unidos a pisar no freio, mesmo sufocando sua principal fonte de renda.
De uma hora para outra, o barril de Brent, referência mundial que custava cerca de 60 dólares antes da guerra, dobrou de preço, para 120 dólares (veja o gráfico), o maior patamar desde o início da invasão da Ucrânia, há quatro anos. Trump, sendo Trump, passou a semana dando sinais contraditórios. Primeiro afirmou em entrevista que “a guerra está quase concluída” — levando a cotação a recuar para 90 dólares. Horas depois, voltou atrás: “Já ganhamos muito, mas não o suficiente”. E mais adiante: “Vai acabar quando eu quiser que acabe”. Sempre sujeito a solavancos, o mercado reagiu ao incêndio de petroleiros elevando novamente o preço para além dos 100 dólares, uma gangorra sem prazo para se estabilizar, com impacto global. No palco do conflito, mísseis e drones iranianos atingiram a estrutura de extração de gás do Catar (que abastece 20% da demanda mundial), a principal refinaria de Bahrein e a de Ras Tanura, ligada à produção da saudita Aramco, e instalações no Iraque.
Os baques levaram os quatro países a suspender ou limitar exportações de combustíveis. A alta dos preços expõe especialmente a Europa, ainda se adaptando à perda do gás russo pós-invasão da Ucrânia, o Japão e a Coreia do Sul, dependentes do petróleo do Golfo Pérsico. Mesmo investidores americanos, protegidos pela produção doméstica e por vastas reservas estratégicas, estão apreensivos. Trump deprecia o estrago: garante que a alta é temporária e que os Estados Unidos, maiores exportadores de petróleo, estão ganhando “rios de dinheiro”. Para restabelecer o fluxo no Estreito de Ormuz, a França fala em formar uma coalizão “defensiva” para escoltar embarcações, o que empurraria a relutante Europa para o centro do conflito.
Além do solavanco na economia mundial, Trump tem vários e convincentes incentivos internos para parar os ataques. Um deles é o custo da operação. O Congresso discute financiamento adicional de defesa de até 50 bilhões de dólares, sobretudo para repor o estoque dos eficientes, mas caros, interceptadores dos sistemas de defesa regionais. Outro, mais forte ainda, é a proximidade das midterms, as eleições de meio de mandato que acontecem em novembro, quando o controle do Congresso estará em disputa. Pesquisas indicam que os americanos desaprovam a ação militar e temem que ela torne seu país menos seguro, sobretudo após seguidos ataques, sem vítimas ou maiores danos, a embaixadas e consulados dos Estados Unidos. Mais grave: tremem diante de seu possível efeito nas bombas dos postos de gasolina (em alguns locais, o preço já subiu 20%), em um ano eleitoral em que o custo de vida é o ponto fraco do governo.
Trump já foi e voltou várias vezes (nenhuma novidade) sobre os objetivos da operação: derrubada do regime, sublevação popular, obliteração (de novo) de instalações e depósitos nucleares, anulação da capacidade militar do Irã. Ao fim de duas semanas de ataques, a aprovação popular na casa dos 30% contrasta com guerras passadas: quando George W. Bush enviou tropas ao Afeganistão, 92% dos americanos chancelaram a decisão. Mesmo a Guerra do Iraque, que depois se tornaria impopular, começou com 76% de apoio. De todos os envolvidos, só mesmo o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu quer ver o circo pegar fogo. Seu prestígio, que andava em baixa, disparou diante da perspectiva de se acabar de vez com o regime fundamentalista iraniano, que tem como objetivo tirar Israel do mapa. Aliás, não é só ele — nos bastidores, o russo Vladimir Putin celebra o aumento das encomendas de seu petróleo.
Em seu primeiro pronunciamento à nação, na quinta-feira 12, lido na TV por um apresentador, Mojtaba Khamenei, o novo líder supremo, prometeu vingança, citando o míssil que arrasou uma escola de meninas e matou quase duas centenas de pessoas, a maioria crianças. Há cada vez mais evidências de que ele foi mesmo disparado pelas forças americanas. Figura reclusa, que nunca ocupou cargos oficiais, ele ainda não foi visto em público — há suspeitas de que tenha sido ferido no bombardeio inicial — e deve permanecer escondido, já que tem uma bomba pairando sobre a cabeça (Israel prometeu assassinar qualquer sucessor do regime). “Os clérigos sabem disso e indicaram este novo alvo mesmo assim, para transmitir uma mensagem de continuidade, de ‘ainda estamos aqui’”, avalia Louise Kettle, especialista do think tank RUSI, em Londres. Entre a resistência do aiatolá alquebrado e disposto ao martírio, a sanha do parceiro Netanyahu, os arrepios com o rumo do preço do petróleo e a falta de empolgação dos eleitores, cabe agora a Trump apontar algum caminho — que, em suas palavras, será glorioso — para a luz no fim do túnel.
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986






