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Chineses se revoltam com morte de médico que alertou sobre coronavírus

Críticas ao governo e pedidos por liberdade de expressão explodiram nas redes sociais da China; governo usou censura para apagar postagens

Por Da Redação - Atualizado em 7 fev 2020, 11h52 - Publicado em 7 fev 2020, 11h28

As redes sociais da China foram tomadas por uma onda de fúria contra o governo nesta sexta-feira, 7, pela morte de Li Wenliang, o médico que tentou alertar o público sobre a epidemia de coronavírus e foi silenciado pelas autoridades. Para tentar conter a revolta, o governo chinês censurou muitas das postagens sobre o tema. 

O falecimento de Li foi confirmado pelo Hospital Central de Wuhan na quinta-feira 6, onde estava internado por coronavírus. Desde então, postagens sobre o acontecimento foram vistas mais de 270 milhões de vezes no Weibo, plataforma chinesa semelhante ao Twitter.

Segundo o jornal americano The New York Times, muitos usuários reproduziram a citação do escritor chinês Murong Xuecun, publicada sete anos atrás, quando estava arrecadando dinheiro para famílias de presos políticos: “Quem detém a lenha para as massas é quem morre de frio no vento e na neve”.

“[A morte de Li Wenliang] me deixou desesperado”, escreveu em chinês um usuário do Weibo. Também houve acusações mais incisivas e conspiratórias, como a de que o governo é o responsável pela epidemia de coronavírus. “Todos sabemos que não é o morcego que mata as pessoas”, publicou um internauta, em referência ao suposto primeiro veículo do vírus. “O governo fez de Wuhan um inferno”, escreveu outro, em uma postagem divulgada pelo jornal britânico Financial Times.

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A hashtag #QueremosLiberdadeDeExpressão foi criada na madrugada de sexta-feira, e tinha mais de 2 milhões de visualizações e 5.500 postagens quando foi excluída pelos censores, cinco horas depois. Também acabaram censurados posts relacionados, como os que afirmam que o governo de Wuhan devia desculpas ao médico.

“Wuhan realmente deve desculpas a Li Wenliang”, escreveu Hu Xijin, editor do tablóide Global Times, que tem apoio do governo, no aplicativo de mensagens WeChat. “As autoridades de Wuhan e Hubei também devem desculpas solenes ao povo de Hubei e a este país.”

Um dos textos censurados pelo governo dizia: “Eu amo meu país profundamente, mas não gosto do seu sistema atual e do estilo de governo. Cobriu meus olhos, meus ouvidos e minha boca”, reportou o NYT.

Muitos usuários homenagearam Wenliang com a letra da canção Do You Hear the People Sing (“Você escuta o povo cantar?”), do musical Os Miseráveis. O hino que sintetiza a luta popular da Revolução Francesa conta com versos como “Essa é a música do povo / Que não será escravo novamente!”. 

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A morte do médico oftalmologista ocorreu no momento em que o presidente da China, Xi Jinping, assegurava ao presidente americano, Donald Trump, que seu país está fazendo tudo o que pode para conter o vírus que já matou quase 640 pessoas e tem mais de 31.000 casos confirmados.

“Lamentamos profundamente a morte do médico de Wuhan Li Wenliang. Após um resgate em que se tentou de tudo, Li faleceu”, disse o no Twitter o Diário do Povo do Partido Comunista chinês.

Após Li alertar em dezembro sobre o surgimento de um novo coronavírus, em uma postagem em um grupo de ex-alunos na rede social WeChat, foi acusado pela polícia de Wuhan de disseminar rumores e convocado a assinar uma carta de reprimenda na qual foi responsabilizado por “espalhar boatos online” e “perturbar gravemente a ordem social”.

Li foi internado em 12 de janeiro, após contrair o vírus de um paciente, e em 1º de fevereiro foi oficializado que ele portava o vírus. Após sua morte, tornou-se um herói, com pedidos pelas redes de que o governo o considerasse um mártir e realizasse um funeral de Estado com a presença dos líderes da nação. Resta ver se o sentimento de revolta vai se dissipar, ou chacoalhar o modelo de governo autoritário chinês.

(Com Reuters)

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