Cerco aos aiatolás: ameaça de intervenção dos EUA coloca lenha na fogueira da crise no Irã
Enquanto isso, as mais abrangentes e furiosas manifestações populares já vistas no país abalam o governo islâmico
Há quase meio século, em 1979, uma turba incontrolável, insuflada pelos sermões do exilado aiatolá Khomeini, depôs o xá Reza Pahlavi e instalou o clérigo xiita no comando do Irã, inaugurando um governo de tintas religiosas radicais. O apoio popular sustentou o regime por algumas décadas, mas, sobretudo nos últimos quinze anos, os sinais de corrosão foram ficando evidentes, e o povo voltou às ruas. Por motivos variados — um assassinato, uma eleição fraudada, uma jovem morta por não usar véu —, a insatisfação da população com os chefões que a subjugam desaguou diversas vezes em protestos contra os quais, quase sempre, o governo recorreu a arsenal repressivo, despachando forças armadas até os dentes atirando para matar, bloqueando comunicações e prendendo gente indiscriminadamente. A enorme onda de manifestações que tomou conta do país neste início ruidoso de 2026 não seria, portanto, novidade, não fossem ingredientes explosivos, os mais ameaçadores já encarados pela teocracia de turbante.
Desta vez, todos os estratos da população, à exceção da elite, expressam diariamente, no país inteiro, descontentamento com os excessos da polícia religiosa, a corrupção dos poderosos, a inflação que não para de subir, a moeda que só faz cair — tudo junto ao mesmo tempo. Para piorar a vida dos aiatolás, o levante se desenrola em um momento de aguda fragilidade para o “eixo da resistência” em torno do qual o líder supremo, Ali Khamenei, construiu seu poder. E, pairando acima de tudo, o fator mais excepcional leva o nome de Donald Trump, para surpresa de ninguém, mentor de uma política externa calcada no império da lei do mais forte. Após a ousada operação que tirou o ditador Nicolás Maduro do poder e da Venezuela, ele agora ameaça intervir no Irã em favor dos manifestantes para se livrar de um segundo adversário (leia a coluna de Vilma Gryzinski na pág. 59). E olha que o ano mal começou.
A revolta popular atual teve início em 28 de dezembro, movida por comerciantes de Teerã inconformados com o derretimento do rial, a moeda local, que inviabilizou importações e acumulou prejuízos. Da capital, as manifestações se disseminaram por mais de uma centena de cidades em todas as 31 províncias do país, com coro reforçado entre os jovens (de 40% a 45% dos iranianos têm menos de 20 anos), que não conseguem emprego na economia atrofiada, e as mulheres, sufocadas pela tirania de túnica. Nos últimos dias, os gritos na rua eram de “morte ao ditador”, com fotos de Khamenei em chamas. A reação veio na forma de matança — ao final da terceira semana, contavam-se mais de 3 500 mortos, a imensa maioria manifestantes baleados na cabeça, além de prisões em massa (de 15 000 a 20 000).
O presidente americano seguiu a rotina habitual de morder (muito) e assoprar (pouco). Avisou que analisava “opções muito fortes” contra o Irã, depois disse (via porta-voz) que preferia o caminho da diplomacia com os persas. Em seguida baixou seu porrete preferencial de intimidação — tarifas de 25% a nações que negociem com iranianos, incluídas aí Brasil e a rival China —, até subir o tom de vez. Na terça-feira 13, cancelou todas as conversas com alguma perspectiva de negociação e foi às redes. “Patriotas iranianos, continuem a protestar — TOMEM SUAS INSTITUIÇÕES! A ajuda está a caminho”, convocou, em letras maiúsculas. A perspectiva de uma operação militar cresceu horas depois, quando o pessoal posicionado em bases americanas na região, inclusive na maior de todas, no Catar, foi orientado a deixar os locais, possível medida preventiva contra retaliações iranianas a um ataque. Até a última quinta, 15, as ameaças americanas não haviam se materializado.
O foco no Irã não impediu Trump de manter o olho em seus outros sacos de pancada de estimação. Embalado pela operação venezuelana, começou brandindo ameaças de intervenção no México. “Vamos começar a agir em terra contra os cartéis”, antecipou em entrevista. Aparentemente, foi acalmado em uma conversa por telefone com a presidente Claudia Sheinbaum. Depois pôs os olhos em Cuba, avisando que é bom o governo “chegar a um acordo” com Washington “antes que seja tarde demais”. O grosso das coerções, no entanto, recaiu sobre a Groenlândia, ilha da qual, segundo ele, os Estados Unidos tomarão posse “por bem ou por mal”. Uma reunião das duas partes na Casa Branca confirmou “divergências fundamentais” e determinou a criação de um “grupo de trabalho de alto nível” para tratar da questão.
No caso do Irã (e em vários outros também), a pressão inédita dos Estados Unidos reflete o interesse da Casa Branca de afastar do rico Oriente Médio, sentado em um oceano de petróleo, os adversários China e Rússia. O modo trator com que as hostes trumpistas impõem sua vontade faz tremer os países da região, incluindo aliados de Washington como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Por mais que apoiem a queda dos aiatolás, os petroestados temem que o regime islâmico, provocado, feche o Estreito de Ormuz, passagem de 50 quilômetros de largura controlada por Irã e Omã, por onde trafegam cerca de 20% do petróleo e gás que abastecem o planeta.
O governo de Teerã já havia ameaçado levar a medida a cabo no ano passado, durante a guerra de doze dias em que Israel matou autoridades e também civis, ao bombardear prédios da capital. Mas recuou após os Estados Unidos despacharem sua Força Aérea para explodir instalações nucleares iranianas e desenharem um cessar-fogo — por ora. “O fechamento do estreito seria um desastre”, diz Ahmed Ben Salem, analista do banco Oddo BHF. “Apesar da produção acelerada do petróleo de xisto nos Estados Unidos, os países do Golfo continuam indispensáveis para o fornecimento mundial.”
Tamanho é o descontentamento dos iranianos que décadas de pregação contra o “demônio americano” deixaram de surtir efeito, e os manifestantes de hoje fazem de Trump um símbolo de esperança: seu papel foi exaltado, em oposição a insultos aos aiatolás, e populares foram de rua em rua “trocando” os nomes das vias pelo dele. A marcha antigoverno é empurrada por uma conjuntura que mistura uma economia em frangalhos após décadas de sanções comerciais, uma seca devastadora que pode obrigar parte da população a deixar Teerã e fez disparar o preço dos alimentos (a inflação atingiu estonteantes 45%) e um altíssimo índice de desemprego, que afeta 23% dos jovens. Tudo isso se acelerou com os ataques de parte a parte entre Irã e Israel em junho passado, quando o país voltou a ser alvo das mais severas sanções da ONU em uma década, diante da acusação de que continua a enriquecer urânio para fins militares.
A onda de protestos em massa dos iranianos começou em 2009, quando a chamada Revolução Verde contestou uma eleição roubada; teve novo impulso em 2019, contra um aumento de 200% no preço da gasolina; e ganhou o país em 2022, quando uma jovem foi presa e morreu sob a guarda da temida “polícia da moralidade” porque seu hijab, o obrigatório véu muçulmano que cobre os cabelos, deixava algumas mechas à mostra. A marcha atual segue um roteiro conhecido, mas é vista pelos especialistas como maior, mais abrangente e mais grave do que as anteriores. “A insatisfação do povo está claramente em um nível inédito e o regime vive uma situação econômica e geopolítica especialmente frágil”, diz Trita Parsi, do think tank Quincy Institute.
Além do embargo da ONU, das capacidades de defesa debilitadas por ataques israelenses e rombos nas redes de poder, o Irã viu minguar o alcance de seu “eixo de resistência” contra inimigos variados (veja o mapa). Grupos sob seu guarda-chuva — o Hamas, em Gaza, o Hezbollah, no Líbano, milícias xiitas no Iraque e os rebeldes hutis, no Iêmen — ruíram e a queda do aliado Bashar al-Assad, na Síria, privou os aiatolás de um corredor essencial para treinar e armar facções anti-Israel.
A fúria da reação do regime islâmico resultou em cenas dramáticas de dezenas de sacos plásticos contendo mortos e enfileirados em hospitais e necrotérios, onde pessoas tentavam ver o rosto das vítimas e reconhecer familiares — tudo revelado em vídeos e fotos divulgados a duras penas, em conexões esporádicas da internet, já que o governo cortou todas as comunicações. Se as estimativas estiverem corretas, os protestos deste ano já são os mais mortais desde a Revolução Iraniana, de 1979, que derrubou a monarquia, e o governo anunciou que retomará as execuções, das quais usa e abusa como punição exemplar. Ou não. Depois da série de ameaças veladas, Trump declarou, na quarta-feira 14, ter informação “de fonte segura” de que as execuções foram canceladas e as mortes “estão diminuindo”, sem entrar em detalhes. Toda a violência, na propaganda de Teerã, é obra de grupos “terroristas” infiltrados, apoiados pelos Estados Unidos, Europa e Israel.
O problema da presença do hostil Irã em um Oriente Médio quase todo cooptado por Trump foi mantido em banho-maria durante a segunda metade do ano passado, mas voltou a ser levantado em dezembro: ao fim de um encontro com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em Mar-a-Lago, o presidente americano prometeu “erradicar” qualquer esforço iraniano para reconstruir seu programa nuclear e seu arsenal de mísseis. Analistas acreditam, sempre fazendo a ressalva de que Trump é Trump, que opções de ataque militar neste momento são limitadas, até pela falta de oposição definida e sucessor aparente para Khamenei — fatores que dificultam uma troca de comando na venezuelana. Faz mais sentido, nessa linha de pensamento, esperar que a pressão popular afaste o debilitado aiatolá de 86 anos e alinhave alguma substituição interna, palatável para a Casa Branca.
A fragmentada oposição no exterior sonda a possibilidade de se unir em torno de uma figura improvável: o filho exilado do xá deposto em 1979, também chamado Reza Pahlavi. Criado entre Paris e Washington desde a adolescência, o herdeiro de 65 anos tem se apresentado como alternativa aos clérigos em Teerã e, apesar de seguir controverso, sobretudo pela repulsa geral à ideia de um retorno à monarquia derrubada justamente pela opressão, manifestantes já entoaram seu nome nas ruas e levantaram a bandeira do Leão e do Sol, ligada à dinastia. Diante do agravamento da situação, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, escolado na resistência a pressões, afirmou que o país está “pronto para a guerra”, mas segue aberto a negociações “justas e respeitosas”. “Mesmo que o regime sobreviva desta vez, só estará ganhando tempo até um novo, e talvez decisivo, confronto com a sociedade”, avalia Ali Vaez, do think tank International Crisis Group. É aguardar a próxima explosão.
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978





