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Argentina: a crise permanente mora ao lado

Por um momento, o combate eficiente ao novo coronavírus amealhou simpatias para o presidente Fernández. Mas agora o pesadelo da economia volta à tona

Por Ricardo Ferraz - Atualizado em 3 jul 2020, 12h10 - Publicado em 3 jul 2020, 06h00

Ao completar 200 dias de governo confinado na Quinta de Olivos, sob quarentena, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, está deixando para trás a prazerosa sensação de alta popularidade que o combate à pandemia lhe trouxe e mergulhando de volta, mascarado, na desastrosa situação econômica do país. Atolado em dívidas por todo os lados, o presidente que se julgava moderado e hábil nos acordos de bastidores vai mostrando a sua cara, e ela é parecidíssima — metaforicamente, claro — com a da vice Cristina Kirchner. Isso se evidencia no congelamento de vários preços, no gasto desenfreado de dinheiro público e até em uma rumorosa tentativa de estatização, que acabou abortada.

Com poucos casos de Covid-19, a Argentina chegou a ser apontada como exemplo no combate à doença. A aprovação de Fernández bateu em impressionantes 82%, em abril, mas caiu quinze pontos em junho e tem se deteriorado na medida em que a economia afunda. A rígida quarentena começou a ser relaxada, mas a contaminação aumentou, o governo voltou atrás e endureceu mais ainda as regras. Na Grande Buenos Aires, 70 000 estabelecimentos comerciais voltaram a fechar. Os bônus de ajuda financeira de 10 000 pesos (750 reais) beneficiaram 9 milhões de pessoas, mas esta e outras medidas do gênero elevaram a dívida pública em 1,2 bilhão de pesos em apenas três meses. No meio do furacão, Fernández determinou a expropriação das ações da Vicentin, exportadora de cereais falida, em nome da preservação de empregos. Nos bairros abastados, ressoaram novamente os cacerolazos, como é chamado lá o ato de bater panelas. No fim, o governo provincial propôs encampar a Vicentin na base de uma parceria público-privada.

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O nó da dívida externa, maior ponto de estrangulamento do país, permanece em compasso de espera. Em maio, o governo suspendeu o pagamento de títulos públicos comprados por investidores e fundos privados que somam 64 bilhões de dólares. Desta vez, até o FMI entrou na torcida contra o nono calote. Tecnicamente, a Argentina, que no total deve mais de 300 bilhões de dólares (90% do PIB), já entrou em default, mas nenhum credor oficializou a situação. O governo tem prazo até o fim do mês para chegar a um acordo sobre um pagamento dos papéis negociados há vinte anos em Nova York. Depois disso, os credores podem mover ações na Justiça americana que virão a complicar ainda mais a situação fiscal do país.

No âmbito comercial, o Brasil acaba de perder a posição de maior parceiro da Argentina para a China — um dos poucos países que se arriscam a financiar a longo prazo as compras argentinas. “A indústria automotiva, uma das mais importantes para o país, está parada. Há mais de três meses não se manda um carro de lá para o Brasil”, diz Federico Servideo, presidente da Câmara de Comércio Argentino-­Brasileira. Enquanto a antipatia entre o peronista Fernández e Jair Bolsonaro não dá sinais de arrefecer, a Casa Rosada nomeou um político de peso para sua embaixada no Brasil: Daniel Scioli, ex-governador da província de Buenos Aires. A missão dele em Brasília é considerada quase tão difícil quanto a recuperação da economia argentina.

Publicado em VEJA de 8 de julho de 2020, edição nº 2694

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