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À sombra do medo: a árida realidade dos 2 milhões de brasileiros que vivem nos EUA

Reportagem de VEJA colheu relatos que retratam cotidiano de terror entre imigrantes que não sabem se, ao sair de casa, voltarão a ver a família

Por Amanda Péchy e Jamil Chade, de Boston 31 jan 2026, 09h00 •
  • A vida para a comunidade brasileira nos Estados Unidos, estimada hoje em cerca de 2 milhões de pessoas, transcorre sob uma tensão sem precedentes. O que antes era a busca pelo “sonho americano” converteu-se em um cotidiano de vigilância e retraimento, reflexo da política migratória agressiva do governo Donald Trump e da atuação do ICE, a polícia de imigração americana. Nas ruas, o clima é de medo, onde qualquer pessoa com “aparência de estrangeiro” pode se tornar alvo de abordagens, independentemente de sua situação documental.

    Conforme apurado pela reportagem de VEJA, o cenário atual é de uma verdadeira “caçada”, e os brasileiros têm adotado estratégias de sobrevivência que beiram a invisibilidade para evitar o radar das autoridades. Em redutos como a Little Brazil, em Boston, cidade onde vivem cerca de 400 mil deles (a maior comunidade de imigrantes lá), é comum observar pessoas que evitam falar português em público para esconder o sotaque ou que se vestem como o “americano típico” para tentar se mesclar à multidão.

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    Vidas partidas: o fim abrupto de décadas de história

    A crueza do sistema é ilustrada por depoimentos colhidos por VEJA, que revelam como famílias estruturadas estão sendo desmanteladas em poucos dias. Um dos casos mais impactantes é o de Frilei Brás, de 39 anos. Morando em Boston há duas décadas, Frilei era um membro ativo da comunidade: um dos proprietários do popular Boston Athletic Soccer Club, ele possuía autorização de trabalho, pagava impostos e mantinha uma ficha criminal intocável.

    Ao comparecer a uma audiência de rotina para regularizar sua situação em junho passado, Brás foi surpreendido com uma tornozeleira eletrônica e o prazo de quinze dias para deixar o país. Em outubro, ele retornou ao Brasil com a esposa e cinco dos seis filhos, deixando para trás apenas a filha mais velha para concluir a universidade. “Foi profundamente triste ser arrancado do lugar onde vivi por duas décadas. Minha família ficou destruída”, desabafou à reportagem.

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    A estratégia deliberada e explícita do segundo mandato do presidente passou a impor duas impiedosas opções aos estrangeiros: permanecer nos Estados Unidos e, eventualmente, ter de deixar os filhos americanos para trás, ou simplesmente ir embora com toda a família. O dilema afeta Sara Pereira, 34 anos. Há mais de dois anos, ela deixou o Brasil, com o marido, Deivisson, em direção a Boston. Um ano depois, após uma gravidez de alto risco, veio o primeiro filho.

    Apesar das dificuldades, o casal conseguiu se sustentar — ela como atendente do McDonald’s, ele como entregador — até agosto, quando Deivisson foi parado em uma blitz e precisou se apresentar à Justiça sob o argumento de uma multa em atraso. No tribunal, os agentes do ICE transformaram a infração de trânsito em um caso de imigração irregular. Menos de um mês depois, teve de partir para Belo Horizonte. Ela optou por voltar junto, para não dividir a família. “Desisti da América. Não quis ficar sem meu marido”, afirmou Sara.

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    “O impacto é direto sobre os migrantes, é claro, mas vai muito além disso. Muitos dos visados ​​são cidadãos americanos ou imigrantes completamente legais. O efeito na sociedade em geral é corrosivo: assemelha-se ao que fazem os países autoritários”, explicou o historiador Moshik Temkin, de Harvard, em entrevista a VEJA.

    A armadilha da regularização e o horror nos centros de detenção

    Nem mesmo quem busca a legalidade está seguro. O carioca Matheus Silveira, de 31 anos, vivia em San Diego desde 2019 e estava casado com uma americana, Hannah Silveira. Durante uma entrevista de ajuste de status para obter o green card em novembro de 2025, Matheus foi detido pelo ICE.

    Sem qualquer aviso à família ou advogados, ele foi transferido para o Centro Correcional de Richwood, na Louisiana, a mais de 3 mil quilômetros de distância de sua casa. Em relatos feitos à esposa, Matheus descreveu condições “deploráveis” na unidade: falta de higiene básica, infraestrutura precária e restrições severas de comunicação que dificultam sua defesa. Especialistas apontam que essas transferências para centros distantes são uma prática recorrente para isolar o imigrante e acelerar a deportação.

    “O nível de violência contra cidadãos e imigrantes atingiu um pico histórico. O direito ao habeas corpus, a presunção de inocência, as prisões arbitrárias, e o uso de gás lacrimogêneo e mostarda contra manifestantes pacíficos pelas forças de segurança são violações da Constituição americana e dos direitos individuais. Essas medidas criaram pânico e medo na população. Os imigrantes, em particular, estão ficando em casa, impossibilitados de ir ao trabalho, à escola e ao supermercado”, afirmou a VEJA Shailja Sharma, professora de estudos sobre refugiados e migração forçada da Universidade DePaul, em Chicago.

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    Há ainda o drama de Maria, de 27 anos, que pediu para ter o nome trocado por medo de represálias. No ano passado, ela foi separada de sua filha de apenas 18 meses sem ter a chance de se despedir. A bebê aguardava no colo do pai, do lado de fora de uma sala do serviço de imigração, em Newark, New Jersey, enquanto ela passava por uma entrevista.

    Seguindo o roteiro comum entre os “brazucas” que tentam a vida na economia mais próspera do mundo, ela buscava obter uma autorização de permanência mesmo depois de ter violado as regras de imigração e ficar no país para trabalhar sem permissão formal, com um visto vencido de turista. Para ser perdoada, bastava concluir o questionário e optar pela via legal, um procedimento oferecido a milhões de imigrantes num passado não tão distante. Após 15 perguntas, no entanto, a conversa foi interrompida por agentes do ICE que a levaram para um centro de detenção. O marido apenas foi avisado que sua mulher não mais retornaria. Quinze dias depois, ela foi transferida para Karnes, no Texas, ampliando a angústia e a distância da filha e do marido.

    Maria chorava e parecia desmaiar, mas a agente a alertou para não fazer cena. A família pretende entrar com um processo para pedir que ela aguarde a deportação em liberdade, sob fiança, pois aguarda há meses uma audiência — recém remarcada para 28 de fevereiro. “Qualquer desfecho é possível, não há mais certeza de nada”, disse a VEJA Kelly Fontoura, à frente da ONG Imigra Foundation, que representa a causa.

    Terror psicológico

    Veículos internacionais corroboram essa percepção de um “terror psicológico” instaurado nas comunidades. Segundo o jornal americano The New York Times, uma pesquisa nacional revelou que cerca de 59% dos imigrantes sem documentos agora evitam atividades básicas do dia a dia, como buscar atendimento médico, viajar ou até mesmo ir ao trabalho por medo de deportação. A rádio francesa RFI reportou operações surpresas em locais antes considerados seguros, como Charlotte, na Carolina do Norte, onde batidas resultaram na prisão de brasileiros dentro de supermercados e igrejas, situação que membros da comunidade descreveram como “surreal”.

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    “Infelizmente, as operações do ICE em todas as cidades americanas deixam claro que seus esforços não visam remover imigrantes que representam um perigo para a sociedade, mas sim aterrorizar comunidades inteiras. Os agentes receberam a mensagem de seus superiores de que gozarão de impunidade, independentemente do que fizerem, e isso tem levado a abusos cada vez maiores por parte deles”, alertou a VEJA Karen Musalo, professora e diretora do Centro de Estudos de Gênero e Refugiados da Universidade da Califórnia, em São Francisco.

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    O impacto social e econômico é visível. A rede alemã Deutsche Welle (DW) destacou que, no bairro de Ironbound, em Newark, o fluxo comercial despencou e igrejas estão cada vez mais vazias. Comerciantes locais relatam uma queda de até 25% nas vendas, enquanto o setor de serviços sofre com a escassez de mão de obra. De acordo com a BBC, influenciadores da comunidade brasileira alertam para o risco do “dano colateral”, onde imigrantes sem antecedentes criminais acabam sendo detidos junto a alvos primários das operações.

    “Intensificar a repressão à imigração vai além da simples aplicação da lei imigratória; trata-se também de afirmar poder e sinalizar que qualquer pessoa que desafie as prerrogativas do governo Trump não será tolerada e sofrerá as consequências, inclusive consequências que extrapolam os limites da lei”, disse a VEJA Francisco Pedraza, cientista político da Universidade do Arizona.

    No último ano, mais de 3 000 brasileiros foram deportados, de acordo com o Itamaraty, um aumento de quase 100% em relação a 2024. Diante desse cenário, fontes nacionais brasileiras observam um aumento generalizado na procura por serviços consulares, com brasileiros buscando renovar passaportes e registros de nascimento como uma forma de preparação para um possível retorno forçado. O clima de incerteza é alimentado por boatos constantes em grupos de redes sociais, que muitas vezes amplificam o pânico.

    Embora Trump tenha feito acenos táticos para abrandar a retórica devido às eleições de meio de mandato, especialistas ouvidos por VEJA alertam que a meta de realizar a “maior deportação em massa da história” permanece inalterada. Para os brasileiros que ainda tentam manter o sonho americano vivo, a realidade agora é de um pesadelo constante, onde a família pode ser separada a qualquer momento por uma simples abordagem na esquina.

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