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A era dos presidentes bossa-nova

Não basta ser sorridente e original; tem de mudar a jato

O polo magnético da Terra está se deslocando de maneira estranha. Os cientistas já sabiam que ia acontecer o momento X, quando ele ultrapassaria o meridiano 180, ou antimeridiano, mas foi mais rápido do que pensavam. A coisa viajou do Canadá para a Sibéria. Dá um certo alívio saber que, desta vez, os culpados não somos nós, os humanos, diariamente acusados de derreter geleiras, exter­minar baleias, emporcalhar rios e ainda insistir em tomar caipirinha com canudo de plástico, um sacrilégio severamente castigado por garçons ecologistas. O polo magnético é regido pelo núcleo externo de ferro líquido da Terra, um infernal oceano com temperaturas de mais de 5 000 graus. Fora os sismólogos, todos nascemos, vivemos e morremos sem nos dar conta de que esse ebuliente caldo metálico está sob nossos pés, ainda que a milhares de quilômetros, emitindo a corrente elétrica responsável pelo magnetismo terrestre, essencial para a atmosfera e, portanto, para a vida.

Não é preciso ser nenhum gênio das ciências sociais para constatar que o polo político também anda mais acelerado. Movidos pelas redes que conectam o mundo neotecnológico, tão ferventes quanto ferro líquido, os novos fenômenos promovem políticos que sabem usar sistemicamente o Twitter e fazer lives, independentemente de seus defeitos ou qualidades. O precursor foi um septuagenário chamado Donald Trump, que demorou para dominar aquelas teclas pequenininhas quando ainda era empresário da construção civil e da autopromoção. A Trump com sinal invertido é a jovem deputada Alexandria Ocasio-Cortez, que fala barbaridades o tempo todo e propõe maluquices baseadas na Teoria Monetária Moderna, um tipo de responsabilidade fiscal ao contrário. O importante é que ocupa espaços e passa autenticidade. O Brasil também tem um presidente dessa nova era, uma espécie de bossa nova digital.

Os mesmos mecanismos que fazem bombar líderes políticos inviáveis até recentemente também criaram um novo tipo de clientela. Com um celular na mão, o cidadão comum que apenas recebia passivamente os velhos truques da propaganda política ganhou uma voz ativa sem precedentes. O tio do WhatsApp é hoje, com o perdão da palavra, um influencer.

A velocidade dos humores — bons ou maus — das redes sociais pegou de surpresa até um político jovem, teoricamente da nova era, como Emma­nuel Macron. Em menos de dois anos, ele passou de garoto prodígio a presidente desprestigiado, desprezado e até guilhotinado em encenações macabras dos coletes-amarelos. Tão ou mais odiados são os parlamentares de primeira viagem, franceses que se entusiasmaram com as propostas de Macron, candidataram-se e conseguiram uma excepcional maioria na Assembleia Nacional para o novo partido do presidente. De esperança de transformação viraram rapidamente alvo de ameaças de morte, estupro e outras violências. E nem pensar em argumentar que o tempo dos processos políticos tem seu ritmo, ninguém transforma um país em um ou dois anos, as reformas só começam a dar frutos depois de certo período e outros blá-blá-blás.

O povo quer mudanças a jato, para ontem, tipo polo magnético, talkey?

Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2019, edição nº 2619

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