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A disputa entre China e EUA se acirra — e pode ser vantajosa para o Brasil

Briga por hegemonia vai longe e pode trazer benefícios para os países que assistem ao embate

Por Ernesto Neves, Machado da Costa - Atualizado em 7 ago 2020, 11h47 - Publicado em 7 ago 2020, 06h00
SAI DA FRENTE - Xi Jinping: de censura a espionagem, vale tudo na escalada para ser o primeiro do mundo – Mikhail Svetlov/Getty Images

A se julgar pelas declarações contundentes de parte a parte nas últimas semanas, China e Estados Unidos, as duas maiores economias do planeta, estão a um passo de sair no tapa. Mas na verdade o bate-cabeça, seguido de afagos, atropelados por outro bate-cabeça, é o novo normal, para usar um termo da moda, nas relações entre os dois países. A queda de braço em diversas áreas — tecnologia, comércio, defesa, combate à pandemia, até postagem de vídeos engraçadinhos no aplicativo TikTok — faz lembrar os tempos da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética que rachou o mundo em dois durante décadas. “O mundo livre tem que se erguer contra esta nova tirania”, bradou o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, tomando emprestada a linguagem daqueles tempos. “A política dos Estados Unidos para a China se baseia em uma estratégia desinformada e equivocada e está repleta de comoção, capricho e intolerância macartista”, rebateu no mesmo tom o ministro das Relações Exteriores chinês Wang Yi.

ALTO LÁ – Trump: pressão e barreiras para conter o avanço da motoniveladora chinesa – Drew Angerer/Getty Images

No entanto, a briga agora é outra, mais moderna, mais sorrateira e muito mais intrincada — até porque não se antevê um final em que um dos lados apodreça e caia, como aconteceu com a URSS. De um lado está a China, com a extraordinária multiplicação de seu PIB alavancando a decisão de se tornar superpotência — o que não conseguirá sem pisar no calo dos Estados Unidos, que já o são e ainda estão longe de perder o posto de primeiro do mundo (veja o quadro na pág. 54). Os dois estão no páreo por dinheiro, controle de mercado e de redes de fornecimento e, em última instância, pelo poder de deter a palavra final em questões delicadas. Nesse balé, os coadjuvantes que pegarem o ritmo e capricharem nos passos podem sair ganhando. O Brasil já está na dança: tem na China seu primeiro parceiro comercial e nos Estados Unidos, o segundo. “A internacionalização da China vai continuar, o que implicará em novas batalhas com os Estados Unidos. Estamos assistindo à formação de um novo mundo, bem mais competitivo”, avalia Roberto Dumas, professor de economia chinesa do Insper.

A renhida batalha do TikTok travada no início do mês, em que Trump disse que iria banir o aplicativo chinês dos Estados Unidos por seu potencial de acumular e repassar dados de usuários a Pequim e pôr em risco a segurança nacional, entra na conta das ameaças rumorosas em ano eleitoral. O presidente foi eleito prometendo deter a China e agora reforça a tática. Trump acabou dando prazo até 15 de setembro para a ByteDance, dona da popularíssima plataforma de vídeos de 800 milhões de usuários no mundo, vender a operação americana a uma empresa do país (a Microsoft, que já negociava a compra, é primeira da fila) — e ainda está exigindo “comissão” pelo negócio. O tempo de animosidade mútua fechou (desta vez — já houve outras) no fim de julho, quando o governo americano mandou esvaziar o consulado chinês em Houston, definido como “um centro de espionagem e roubo de propriedade intelectual”, pouco depois de Estados Unidos, Reino Unido e Canadá denunciarem uma tentativa de hackers chineses roubarem dados de pesquisas de vacinas contra o novo coronavírus.

A China, de fato, tem um exército de hackers à disposição. E copiar, então, nem se fala — está no DNA da produção nacional. Mas neste momento o real confronto americano envolvendo espionagem e tecnologia — e negócios, altos negócios — tem outro alvo principal: a rede 5G, nova geração de internet de altíssima velocidade que já é realidade na China. Atrasados na corrida, os Estados Unidos vêm pressionando aliados para que impeçam o alastramento da infraestrutura oferecida pela Huawei, gigante chinês de telecomunicações com suspeitos laços governamentais (uma constante nas grandes empresas chinesas). Por pressão americana, que ameaça sanções para todo lado, desde maio a Huawei está banida dos projetos de 5G no Reino Unido, Canadá e Singapura.

A FORÇA DO DRAGÃO – Tropas da China em Hong Kong: nova lei esmagou a resistência ao domínio de Pequim – Tyrone Siu/Reuters

Por mais que falem mal um do outro, China e Estados Unidos, responsáveis por 40% de tudo que se produz no mundo, têm economias entrelaçadas, o que reforça a previsão de que essa rivalidade não tem hora para acabar. As linhas de montagem chinesas produzem os eletrônicos de Apple, Microsoft e muitas outras empresas americanas (e não só elas como o planeta sentiram na carne quando o parque fabril chinês parou por causa do novo coronavírus). Pequim acumula 1 trilhão de dólares em títulos do Tesouro americano, perdendo apenas para o Japão. O mercado americano, por sua vez, é o maior sorvedouro dos produtos made in China e os Estados Unidos, um porto seguro para investimentos chineses: acionistas de lá controlam ao menos 2 400 empresas americanas, em setores que vão de cadeias de cinema a tecnologia aeroespacial. “A Guerra Fria original foi definida pela oposição entre os pactos militares de um lado e do outro”, diz Pascal Boniface, professor de geopolítica do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, de Paris. “Nunca se viu uma disputa com a complexidade da que assistimos hoje.”

Enredados em uma guerra comercial sempre a um fio de explodir, em que uma trégua acordada em janeiro não baixou nenhuma tarifa, Washing­ton e Pequim transferiram sua briga para os organismos internacionais. Em plena pandemia, a Organização Mundial da Saúde se viu no meio do furacão: os Estados Unidos, seu maior financiador, saíram por discordar da excessiva ascendência que a China (de fato) exerce na cúpula da instituição. Na Organização Mundial do Comércio, americanos usam sua influência para praticamente suspender os trabalhos, não só porque o governo Trump favorece acordos bilaterais alheios à OMC, como para tirar da China os benefícios competitivos de estar incluída indevidamente, sem dúvida, na lista de países em desenvolvimento. Nesse ponto, o lobby americano tem funcionado. Em junho, a União Europeia deixou de reconhecer a classificação e o Japão pediu aos bancos de incentivos que reduzam os empréstimos a juros baixos dados aos chineses. A China esperneia para tentar provar, apesar de todas as evidências em contrário, que merece ser tratada com privilégios no comércio mundial. “O Ocidente tem pela frente um dilema inédito: lidar com uma potência tecnológica com valores muito diversos dos nossos”, analisa Robert Hannigan, ex-chefe de um dos setores do serviço de inteligência britânico.

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A estratégia de rolo compressor da China para se impor como potência manifestou-se em toda a sua ferocidade na pequena Hong Kong, a ex-colônia britânica tomada no último ano por um movimento popular dedicado a se contrapor à dominação do governo central. Com a ilha semiautônoma mal saída da quarentena, Pequim aprovou uma lei de segurança que, na prática, desbaratou a mobilização e instalou tropas e agências de fiscalização no território. O mundo chiou, Trump despejou sanções, mas a ocupação continua e o presidente Xi Jinping conta com o tempo para tirar o assunto do holofote internacional. Também faz parte da agenda geopolítica de Pequim fincar posição em áreas de fronteira mal definidas, como fez recentemente em um remoto ponto do Himalaia que disputa com a Índia (resposta indiana: proibir o TikTok) e como faz periodicamente com exercícios militares no estratégico Mar do Sul da China.

Paciência é a alma da tática chinesa em seus diversos projetos de longo prazo para desenvolver rotas de dominação de comércio e tecnologia. À frente de um governo ditatorial, que recorre à truculência contra detratores e censura abertamente os meios de comunicação e a própria internet, Xi Jinping pode se dar ao luxo de não ter pressa, contando com a facilidade de impor metas e fazê-las ser cumpridas sem oposição, com imensa e barata mão de obra disponível, com a moeda desvalorizada e dispondo de dinheiro de sobra.

GELO QUEBRADO – Nixon, com Chu Enlai (à esq.), em 1972: o fim da inimizade fez a China começar a olhar para fora de suas fronteiras – Bettmann Archive/Getty Images

Com Trump ou com Joe Biden, o candidato democrata à frente nas pesquisas para a eleição presidencial de novembro, na Casa Branca, os Estados Unidos, superpotência consumada, continuarão a ser a pedra em seu caminho. O eterno confronto entre as duas maiores economias do mundo abre um leque de oportunidades para os demais países, Brasil inclusive. China e Estados Unidos, nesta ordem (veja o quadro na pág. 54), são os dois principais destinos das exportações brasileiras, e crescendo: entre janeiro e junho, mesmo com o baque do novo coronavírus, os embarques para portos chineses somaram 14 bilhões de dólares, um salto de 14% com relação a 2019. O cenário vantajoso é embaçado pelo alinhamento automático do governo de Jair Bolsonaro com os Estados Unidos de Trump — também aqui, por exemplo, o leilão da rede 5G, previsto para 2021, deverá excluir a mal falada Huawei, apesar de sua reconhecida superioridade tecnológica. “Nenhum país no mundo adotou o modelo americano, porque ele não é viável”, disse a VEJA um secretário do Ministério das Comunicações. Por ora, sobram duas interessadas, a Ericsson, da Suécia, e a Nokia, da Finlândia. “A insistência do Planalto em atropelar a diplomacia em favor de Trump começa a afetar o país na corrida científica e tecnológica”, critica o ex-ministro da Fazenda e ex-embaixador Marcílio Marques Moreira.

Do ponto de vista dos negócios, permitir a participação da Huawei no leilão 5G seria, de fato, a melhor opção para o Brasil. Mas a questão é bem mais complexa. Com uma formação cristã ocidental, baseada em valores como democracia e livre-iniciativa, os Estados Unidos são inegavelmente o modelo de capitalismo que o Brasil persegue (especialmente no governo Bolsonaro). O intercâmbio de brasileiros com o país, seja por aspectos financeiros ou educacionais, é muito mais intenso do que com a China, que segue regras muito próprias em assuntos como segurança jurídica, privacidade de dados e interesses do Estado. Ou seja: vale a pena comprar briga com os Estados Unidos e se aliar aos asiáticos? “O ideal para o Brasil era flertar com um lado, piscar para o outro e torcer para que o Biden ganhe as eleições e desanuvie esse clima”, diz um ex-diplomata, com décadas de Itamaraty.

PRIVACIDADE EM PAUTA – Do lado inimigo: sob pressão dos Estados Unidos, o aplicativo TikTok e a gigante Huawei viraram personagens da rede de espionagem chinesa – Miquel Benitez/Getty Images

A histórica reaproximação entre os Estados Unidos e a China vermelha, negociada pelo conservador assessor especial Henry Kissinger e selada em um jantar em Xangai, em 1972, com o feroz anticomunista Richard Nixon brandindo palitinhos com o primeiro-ministro Chu Enlai, foi um passo decisivo para o enterro da Guerra Fria — e o começo da disputa atual. De lá para cá, o gigante oriental desatou os nós da pobreza e do subdesenvolvimento, incentivou uma industrialização a jato e se tornou a fábrica universal — na pandemia, o mundo descobriu, surpreso, que sem China não há a quem recorrer para comprar suprimentos médicos. Ao mesmo tempo, o governo restringe ao máximo a atuação de empresas estrangeiras em seu território, exigindo sempre retorno em repasse de tecnologia. O Made in China, programa lançado pelo presidente Xi, prevê que, até 2025, empresas chinesas supram 70% do mercado interno — contingente de 1,4 bilhão de pessoas que o mundo todo cobiça, Estados Unidos à frente. “Os subsídios concedidos pelo governo distorcem o mercado e excluem a competição”, diz Howard Yu, professor de gestão e inovação do Institute for Management Development, de Lausanne, na Suíça. Impávidos, os chineses seguem na rota da expansão, cercados em pontos críticos pelas barreiras americanas. “A China é grande, exitosa, consegue desenvolver tecnologia própria, mas há limites para a sua atuação”, acredita James Lewis, do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, de Washington. Essa corrida de obstáculos ainda tem muito chão pela frente.

Publicado em VEJA de 12 de agosto de 2020, edição nº 2699

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