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A criação dos Estados Desunidos

Guerra civil e até racha territorial saíram da esfera das piadas

Não existe nada que os inimigos dos Estados Unidos gostariam mais de ver do que um racha da extraordinariamente rara experiência republicana e democrática nascida completa, como Atena da cabeça de Zeus, há 240 anos. Todos os impérios se esfacelam antes de chegar ao fim. Portanto, a ideia dos estados desunidos não é nova. Os mapas eleitorais mostram há muito tempo a divisão entre “azuis” e “vermelhos”. Como os Estados Unidos criaram a própria história, vermelhos são os republicanos, conservadores ou de direita; azuis são os democratas, liberais no sentido social e de esquerda, ou progressistas na denominação predominante. Os azuis dominam as duas faixas litorâneas, do lado do Atlântico e do Pacífico (o Brasil seria diferente se tivesse o acesso bilateral, mas não, agora é tarde para reclamar), com “ilhas” urbanas no interior. Os vermelhos ocupam todo o resto.

“Trump não é nenhum Abraham Lincoln e jogou um tonel de gasolina na fogueira”

O processo de impeachment de Donald Trump que a Câmara, com maioria azul, vai desencadear acelerou uma especulação que sempre pareceu brincadeira. Só que cada vez mais séria. Trump não é nenhum Abraham Lincoln e jogou um tonel de gasolina na fogueira ao retuitar um pastor, Robert Jeffress, daqueles de série da HBO. “Se os democratas conseguirem tirar o presidente do cargo (o que nunca conseguirão), isso causará uma guerra civil da qual nossa nação nunca se recuperará.” Atenção: Lincoln, o presidente que foi à guerra civil em 1861, e antes dele os pais da pátria não eram nada refratários em relação à justiça de rebeliões populares. “Este país, com suas instituições, pertence às pessoas que o habitam. Se elas se fartarem do governo existente, poderão exercer seu direito constitucional de corrigi-lo, ou exercer o seu direito revolucionário de derrubá-lo”, escreveu o bom Abe. É claro que na vida real fez o oposto: massacrou os estados secessionistas do sul. “Sic temper tyrannis”, bradou ao assassiná-lo John Wilkes Booth, o único ator que entrou para a história, fora Nero.

Atualmente, quem pede um fim nada feliz para os tiranos são colegas de Booth e até deputados democratas. Defendem a tese de que Trump deve ser não só impichado, mas preso até o fim da vida, enforcado ou queimado, entre outras demonstrações de saudável convivência democrática. Entre o povão que votou em Trump, rola o aviso: quem gosta de armas e sabe como usá-­las são eles. A intolerância recíproca é horrível e há muito espaço para piorar com o avanço do impeachment. Com esmagadora maioria democrata, a Califórnia sempre aparece como um dos lugares pioneiros de um eventual racha. Formaria a República Socialista Hollywoodiana. Ou se anexaria aos progressistas e ampliados Estados Unidos do Canadá. Os demais formariam a Jesuslândia. Outros nomes: Estados Federalistas da América contra República Popular da Sojalândia (no sentido dos vegetarianos que consomem produtos de soja, até o pavoroso latte de soja). No Meio-Oeste, a República Islâmica de Illinois — já tem até uma deputada, Ilhan Omar. Os progressistas azuis teriam 3,7 milhões de quilômetros quadrados e 210 milhões de habitantes. A direita vermelha, 6 milhões de área e 115 milhões de pessoas. A maior dúvida: quem ficaria com o arsenal nuclear?

Publicado em VEJA de 6 de outubro de 2019, edição nº 2655