A cerimônia dos contrastes no Reino Unido
Ao olhar para fora, Charles mal dissimulava o desconforto descortinado à sua frente
A pompa e a circunstância remontam ao século XIV, tradicionais e imutáveis. Ao inaugurar o ano legislativo do Parlamento britânico, em 13 de maio, o rei Charles III, ao lado da rainha consorte Camilla, parecia encaminhar o melhor dos mundos, dada a coreografia, a altivez e o vestuário — só que não. “Um planeta cada vez mais perigoso e instável ameaça o Reino Unido, sendo o conflito no Oriente Médio apenas o exemplo mais recente. Todos os elementos da segurança energética, de defesa e economia da nação serão postos à prova”, discursou o monarca. Ao olhar para fora, Charles mal dissimulava o desconforto descortinado à sua frente, ali mesmo. Há uma imensa crise no ar. O Partido Trabalhista, do primeiro-ministro Keir Starmer, no poder desde 2024, perdeu 1 500 cadeiras de vereadores nas eleições municipais e regionais da semana passada, e quase todas para a agremiação de direita, a Reform UK. Diante da avalanche, uma das secretárias do governo renunciou ao cargo e sugeriu que Starmer fizesse o mesmo. Não fará, ao menos por ora. “O país espera que continuemos a governar”, disse, apesar das dificuldades econômicas, do desemprego, da fragilidade dos serviços públicos e da pressão para a reforma do sistema de ajuda social. Contudo, cedo ou tarde — mais cedo do que tarde — é natural que caia o gabinete inteiro e um novo premiê seja escolhido. E segue a história — os governos como dominós e os Windsor de sangue azul firmes e fortes, independentemente do que acontecer.
Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995





