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A anatomia da inovação

As novidades brotam de gente “perguntadeira” — e não do Estado

Quando morava em Genebra, eu ia sempre ao Mont Salève, para voar de asa-delta ou parapente. Certo dia, comprei de meu colega de clube um medidor de velocidade do vento, muito útil para não decolar no dia errado.

Quem fez esse aparelho? Responder a essa pergunta ajuda a decifrar o processo de inovação. De quebra, é possível melhor entender o nosso mundinho aqui. O anemômetro foi desenvolvido e construído pelo próprio piloto, um jovem criativo e técnico em eletrônica (nem engenheiro era). Ele, porém, cursara uma escola acadêmica exigente e sua profissionalização foi com a mão na massa.

Invenção é uma descoberta, uma ideia nova. Inovação é combinar — pode ser o velho ou o novo — e vender o resultado. No caso, ele nada inventou, mas juntou o que existia, fazendo um aparelho leve, elegante e confiável. Como os concorrentes eram pesados e caros, sua inovação era vendável. Aliás, a Suíça é o país com o maior número de patentes per capita. Será seu povo mais criativo? Não. As diferenças são outras.

A inovação resulta de gente curiosa e “perguntadeira”: por que isso não funciona direito? Será que poderia criar uma versão melhor ou mais barata? O engenheiro americano F.W. Taylor (1856-1915), que revolucionou o sistema produtivo, resolveu aprender tênis. Antes de adquirir competência com a raquete, registrou duas patentes de dispositivos para esticar a rede. Tinha olho clínico para identificar soluções capengas e propor alternativas. Para que muitos tenham essa combinação de espírito crítico, criatividade e crença de que vale a pena buscar uma nova resposta, é necessário que isso tudo seja valorizado e estimulado. Assim fazem as sociedades onde existe muita inovação. Mais ainda, inovadores isolados são raros. A inovação borbulha quando há um bando de gente trocando ideias.

No passado, a Itália produzia muitos cantores de ópera. O Brasil é um celeiro de jogadores de futebol. E, não é por acaso, as pessoas desabrocham naquilo que é endeusado pela sociedade. Assim é a inovação na Suíça. E óbvio, o Estado oferece facilidades e estímulos para premiar os criativos. Na década de 80, a China enviou uns 100 inventores a uma conhecida feira de invenções em Genebra. O país asiático ainda cambaleava, os participantes não falavam inglês e seus inventos eram para lá de bobocas. Mas o Estado sinalizava assim o seu compromisso com a inovação. Quantos inventores brasileiros estavam lá? Nenhum.

Uma sociedade como a nossa, carente de inovações, precisa estimular, e não penalizar, os inventores e as iniciativas que podem desembocar nelas. Sabidamente, o Estado é o último lugar onde poderemos encontrar inovações. Mas espera-se, pelo menos, que não atrapalhe os poucos a se aventurar nessas direções.

Registrar uma patente é um pesadelo. São anos! Os financiamentos públicos não vão para quem tem as melhores ideias. Pagar impostos é um sofrimento. As notas fiscais encalham nos computadores das prefeituras. Alvarás? Certidões? Trogloditas ambientais à espreita?

A criatividade borbulha em nossas (poucas) startups. Mas não é por acaso que se ajuntam todos para cultivar e proteger um microambiente de empreendedorismo. Quem sabe um dia poderão vicejar fora dessa redoma?

Publicado em VEJA de 01 de maio de 2019, edição nº 2632

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